O Voo da TABA: quando eu troquei o Sul pela Amazônia
Aquele dia nove de março de 1981 ficou gravado na minha memória com o som de dois motores radiais roncando feito bicho brabo. Eu estava ali, ajeitado na poltrona do bimotorzão C-46 da TABA, sentindo o trepidar da lataria entrar pelos ossos e avisar que não tinha mais volta. Quando aquela máquina valente descolou as rodas do chão e o nariz apontou pras nuvens, espiei pela janelinha e vi Curitiba ficando pequenininha lá embaixo. Era o fim de um capítulo de 14 anos na capital paranaense e o começo de uma empreitada que ia definir o resto da minha vida.
Naquela época, a gente ouvia falar de Rondônia como se fosse a terra da promissão, um lugar onde a coragem valia mais que o dinheiro no bolso. Eu tinha botado na cabeça que a advocacia e a vida lá em Cacoal — a tal “Capital do Café” que atraía paranaense e gaúcho que nem abelha no mel — iam ser o meu destino. Mas, tchê, chegar lá não era pra qualquer um. A BR-364, que o pessoal chamava de estrada, era, na verdade, um corredor de barro vermelho. E a gente estava em pleno março! Época do “inverno amazônico”, tempo das águas. A rodovia de Cuiabá a Porto Velho ainda não tinha visto um pingo de asfalto, o que transformava o caminho num atoleiro medonho. Quem se aventurava por terra corria o risco de ficar semanas encalhado, comendo poeira quando secava e amassando barro quando chovia.
A solução era cruzar os ares. A TABA — Transportes Aéreos da Bacia Amazônica — era a salvação de quem precisava desbravar o Norte. Eles operavam aqueles velhos C-46 Curtiss Commando, uns aviões robustos de fuselagem gordinha que tinham carregado soldado e carga na Segunda Guerra. Pareciam uns tratorzões com asas, rústicos, sem frescura de luxo, mas aguentavam o tranco de pousar em pista de terra no meio da floresta. Era o transporte ideal pra uma terra bruta que ainda estava sendo domada na unha e no facão.
Durante o voo, o barulho ensurdecedor dos motores não deixava muita margem pra prosa, então a cabeça viajava mais rápido que o avião. Eu olhava as nuvens e pensava na família, no escritório que eu deixava pra trás, no que me esperava no meio daquela imensidão verde que ia engolindo a paisagem conforme a gente avançava pro Norte. Era uma mistura de medo com uma esperança teimosa, uma vontade de fazer a vida valer a pena, daquelas que só o imigrante conhece.
Quando o trem de pouso tocou o solo rondoniense, levantando poeira e sacudindo a gente nos assentos, eu soube que tinha chegado em casa, mesmo sem ter ainda um teto direito. O calor úmido que invadiu a cabine quando a porta abriu era como um abraço apertado e suado da Amazônia, me dando as boas-vindas. Ali eu plantei as minhas raízes, e hoje, aos 76 anos de idade, olho pra trás e agradeço por cada solavanco daquele C-46. Foram eles que me trouxeram pra essa terra boa, cheia de causos e de gente peleadora. E, olha, se precisasse, eu faria tudo de novo, encarando o ronco daquele motor sem pestanejar.