Pinceladas de História

Homem idoso lendo livro antigo, mapas e fotografias de garimpo espalhados pela mesa

Estava eu na soneca da tarde, quando alguém bateu no portão. Era o carteiro. Estranho, nos tempos de internet e zap, o carteiro tem muita folga. Mas não restava dúvida. Meu nome e meu endereço. Como remetente: MONTEZUMA CRUZ. O que será?

Abro o envelope tamanho ofício. Dentro uma revista, ou melhor um livro. A capa continha uma foto de garimpo e um título: TERRITÓRIO DOURADO. MONTEZUMA CRUZ.

Pensei: — O amigo lembrou deste causídico aposentado, do centro do Estado de Rondônia que já foi a Capital de Madeira e da poeira. Até parece que o pó se encrustou em nosso costado e aqui ficamos como legatários de um tempo que se perdeu nas brumas dos anos oitenta. Enquanto por cá vivíamos do extrativismo, alhures aventureiros tentavam a sorte nos garimpos de ouro, de cassiterita e outros minerais e até pedras preciosas.

É disso que parece tratar a obra de Montezuma Cruz, ao menos é o que informa o sumário que antecede as 154 páginas da obra, as quais servirão de pretexto para interromper meu ócio.

Na página reservada à dedicatória, algo do próprio punho do autor:

“Eles continuam no cenário Amazônico ora amados ou demonizados. No entanto produzem, mesmo vendo o ouro ir embora para bem longe das aluviões e grotões.” — Montezuma Cruz

De fato, nossas riquezas se foram e outras surgem como a pecuária, a soja e o café — este, o legítimo garimpo desde os tempos imemoriais, onde o pobre e o rico vivem da mesma alegria. Abre-se assim um espaço para os jornalistas cronistas do presente para que registrem mais uma página da nossa história, assim como Montezuma registrou a saga do Território Dourado.

Montezuma faz uma síntese de como era o Estado de Rondônia na década de oitenta e até antes. Diz de suas reportagens e andanças pelos agrupamentos urbanos e vilas que surgiam de repente e quase do nada. Diz das atividades dos seringueiros, garimpeiros que exploravam as riquezas naturais e agricultores que aos poucos ocupavam a floresta e implantaram suas lavouras de arroz, café e outros cereais.

Antes dele, Manoel Rodrigues Ferreira, um jornalista paulista que por aqui esteve na década de cinquenta e sessenta, descreveu como era o território — notadamente de Porto Velho a Guajará-Mirim —, a saga de Rondon e o fim de uma ferrovia que custou a vida de milhares de pessoas e milhões de dólares, com o objetivo de cumprir um tratado com o vizinho país, a Bolívia, na solução da questão do Acre, e que serviu de apoio aos soldados da borracha ao longo do Rio Madeira-Mamoré. Por razões múltiplas, teve suas atividades encerradas alguns anos após sua conclusão e converteu-se em patrimônio histórico de ferros enferrujados e abandonados ao longo da ferrovia. Refiro-me ao livro Ferrovia do Diabo, que hoje só se encontra em algum sebo, ou na biblioteca particular de algum pioneiro.

Outros também escreveram sobre o desenvolvimento do Estado, como Antônio Lopes, Coordenador Geral de Implantação de Assentamentos — DDI, que relata as atividades do INCRA nos assentamentos agrários e formação de núcleos urbanos que hoje são cidades prósperas.

Destaco a obra de Geraldo Schach. Com seu livro Rondônia, a Terra Prometida, na condição de Pastor Luterano, trabalhou na assistência das comunidades luteranas nas décadas de setenta e oitenta, andou pelas trilhas e picadas da floresta — particularmente de Pimenta Bueno, Espigão do Oeste até Jaru —, registrando a vida dos agricultores migrantes e as condições de vida da época. Sem dúvida, mais uma obra que deve integrar o acervo da biblioteca da História do Estado de Rondônia.

Recentemente, o professor Roslavo Estachw lançou a magnífica obra Senhora das Águas, onde faz um passeio pelas águas barrentas do Rio Madeira, resgatando as lendas dos beradeiros e povos da floresta.

De outro norte, centenas de páginas e reportagens esparsas discorrem sobre o desenvolvimento do Estado com ênfase nas cidades. Centenas de pessoas que palmilharam esse chão em busca de um futuro melhor ainda vivem e nunca tiveram registrados seus feitos. Está aí um campo aberto para as novas gerações de acadêmicos que podem e devem esmiuçar esse período da história, para que não fique como folhas secas ao vento.