A OAB-RO e a Advocacia Pioneira em Rolim de Moura

Imagem de capa: A OAB-RO e a Advocacia Pioneira em Rolim de Moura

Meus amigos, a memória é que nem aqueles caminhos de chão batido no interior: às vezes a poeira baixa, a brisa sopra mansa e a gente enxerga longe. O olhar atravessa os anos e alcança o passado, justo naquela época em que as coisas ainda tavam se formando na lida e no suor, a casco de cavalo e na força bruta. Quero puxar aqui um causo, desatar esse nó da garganta e contar de quando a advocacia em Rondônia ainda era mato, literal e figurativamente.

A gente fala hoje do Estado de Rondônia com toda a pompa e circunstância. Mas quem é daquela época — a gente que amassou o barro e tomou poeira — sabe muito bem como era o tranco. No começo dos anos 80, antes até de virar Estado de fato, ali pelo finzinho de 1981, as coisas no então Território Federal de Rondônia não eram pra qualquer um não. A peleia era grande, meus senhores, a encrenca era mato grosso adentro.

Lá pra banda de 1974, pra ser exato no dia 18 de fevereiro, fincaram os pilares da Ordem dos Advogados do Brasil, a nossa OAB-RO. Gente do quilate do Dr. Fouad Darwich Zacharias e do colega Francisco Arquilau de Paula — o dono da carteira número 01, veja só! — botou o peito na frente, empunhou a bandeira e foi organizar a classe lá em Porto Velho. Lá, com todo respeito aos companheiros, a prosa já tinha uns contornos mais arrumados, um cheiro de tribunal, um assoalho mais liso e de gabinete.

Mas e pra quem se meteu pro interior, pra essas bandas da Zona da Mata? Ah, meu amigo, aí o causo era bem outro. A lei chegava montada no lombo da precisão.

Eu, na condição de primeiro advogado de Rolim de Moura, cheguei justo quando a coisa toda tava fervendo, parecia panela no fogo de lenha. O Projeto de Colonização, desenhado lá por 1979, largou aquele mundaréu de famílias que vieram espremidas lá do Ji-Paraná pra abrir clareira. Era gente com esperança no peito, foice e machado na mão, rasgando o mato pra construir a vida. A emancipação de Cacoal, pra se ter ideia, só veio ali em agosto de 1983. E no meio daquela muvuca de gente chegando, de picada nova sendo aberta na floresta, de rancho de pau a pique sendo erguido em cada curva de rio e de colono disputando cada palmo de terra com unhas e dentes, adivinha quem tava no meio do tiroteio? E o tiroteio, muitas vezes, não era nem no sentido figurado. Era tiro mesmo. E lá tava o advogado.

Pra nós, que fincamos o pé no eixo de Rolim de Moura, as “distâncias amazônicas” não eram força de expressão bonita pra botar em livro. Era chão mesmo. O sujeito vestia o terno e a gravata e ia amassar barro. No tempo da seca, que castigava sem dó, era uma poeira que não tinha fim. Subia aquele poeirão que entupia até os pensamentos, deixava a gente com a vista cega e a garganta seca. Mas quando caíam as águas da chuva, meu Deus do céu… a lama virava um atoleiro que engolia jipe, caminhonete, e se duvidar, engolia até cavalo destreinado. As comarcas eram longe que só o diabo, não tinha luz elétrica direito, não tinha telefone que prestasse, muito menos asfalto pra gente se deslocar com decência.

Ser advogado nessas bandas não era ficar despachando em gabinete refrigerado, com ar-condicionado e secretária servindo café. Não, senhor. Era mediação de conflito fundiário bruto, era o colono de mãos calejadas brigando pelo lote de terra dele pra não perder o sustento da família. A lei, meus amigos, a gente levava na garupa. Era o código embaixo do braço e a coragem no peito. Cada petição assinada, cada audiência feita naquelas “linhas” poeirentas ou nas vilinhas enlameadas, era um jeito teimoso de puxar a civilização e a justiça pro meio da floresta. E era quase no braço. A gente tinha que ser advogado, diplomata, psicólogo e, de vez em quando, meio que pacificador de ânimos mais quentes.

A gente suava muito o terno. A poeira manchava o pano, a lama sujava o sapato, e a distância cansava o corpo. Mas no fim do dia, a satisfação de ajudar a firmar o direito do trabalhador, de ver o caboclo garantir seu teto e de ver uma cidade inteira nascer do chão, pujante e teimosa, isso não tinha preço. Foram tempos brutos, de uma resiliência quase heroica que a gente nem sabia que tinha, mas que forjaram o caráter inquebrantável dessa nossa Rondônia véia de guerra. De Porto Velho até a nossa trincheira na Zona da Mata, ajudamos a erguer os pilares da justiça por aqui, cada um botando a sua pedrinha nesse alicerce.

E é isso. O tempo passa, a poeira assenta e o asfalto chega. A saudade bate, vez por outra, lembrando daqueles dias de poeira e barro. Mas o orgulho de ter sido parte desse começo, de ser o primeiro a bater o martelo e o papel por aqui em Rolim, de ver o direito florescer na beira da mata… ah, esse orgulho, meu amigo, o tempo não apaga de jeito nenhum. Fica guardado a sete chaves na memória, pra gente contar pros netos e pra quem mais quiser prosear.