Nego Inglês
Já estava me acostumando na nova cidade. Conhecendo uma pessoa aqui, um comerciante ali. Muitos vinham ao escritório com pendengas diárias, questão doméstica. Nas ruas muita poeira e ruídos de alto-falantes na ponta dos postes — conhecido como pau do fuxico — ou sobre veículos anunciando produtos e notícias do momento. Lojas e bares de sinuca.
Havia entre outros um restaurante popular chamado “Roda Viva”. Ali fazia minhas refeições. O proprietário Genésio não estava muito satisfeito com o negócio. Dizia ele: muito trabalho para pouco resultado.
Um dia chegou na cidade um sujeito tipo “lombrosiano”, conhecido por Nego Inglês, que não deixava claro qual sua verdadeira ocupação. Um rolista. Correu notícia que era pistoleiro, porém nada havia que pudesse incriminá-lo.
De outra feita apareceu na praça um sujeito forte, loiro, que dizia ter vindo do Sul e não demorou para receber o apelido de “Polaco”. Pretendia se estabelecer no ramo de bar e restaurante. Genésio viu a oportunidade e propôs a venda do Roda Viva. Ficou claro que o dinheiro do Polaco não era muito. O negócio se concretizou quando interveio o Nego Inglês, propondo uma sociedade.
Conversas e acordos — a transação aconteceu. Tomaram posse do estabelecimento e tudo bem. Porém nem tanto. Logo no segundo dia percebeu-se que a qualidade do serviço havia caído, muito embora já não fosse grande coisa. Certo é o ditado: nada é tão ruim que não possa piorar.
O Almoço do Terceiro Dia
No terceiro dia, chegando para o almoço, senti algo estranho no ar, sem saber o que poderia ser. Observei os comensais e ali estava o Ceilão — um senhor forte e muito respeitado por suas atitudes firmes. Mais alguém além de Genésio que ainda aguardava pelo pagamento do que fora acordado.
Busquei uma mesa e estava no aguardo, quando adentrou um conhecido. Intuitivamente perguntei-lhe se estava com fome.
— Muita, disse ele.
— Então coma e saia logo.
Quis saber por quê. Nada não, respondi-lhe — até mesmo porque não fazia sentido o meu alerta.
Foi quando escutei o grito:
— Polaco, não abra a boca porque te entupo de bala!
Era o Nego Inglês com arma em punho, apontando pro sócio.

Havia uma porta dos fundos que dava para um brejo tomado pela quiçaça e por ela vi meu amigo se jogando. Coisa de cinema.
Fiquei como se estivesse vagando no espaço. Naquele sufoco vi o Ceilão tentando amenizar a situação. O Polaco estava mais amarelo que ipê na florada. Indeciso, cheguei no costado do Ceilão e balbuciei:
— Nego Inglês… se você fizer alguma coisa, não vai ficar bom pra você. A polícia está aí pertinho e vai lhe prender.
Para aumentar meu espanto, o Nego Inglês baixou a arma e disse:
— Tá certo, seu dotô.
E jogando na minha mão a chave do Jeep velho sem capota, intimou-me a levá-lo pra fora da cidade. Não tive como recusar tão importante convite. Era meio-dia e meio, mais ou menos. O sol de torrar castanha. Acelerei na rua empoeirada. Já fora da cidade, Nego Inglês mui cordialmente falou:
— Aqui tá bom, seu dotô. Muito agradecido.
Assumiu a direção e sumiu na vicinal. Sobraram-me dois quilômetros no sol escaldante, sapecando a cabeça já com pouca cobertura.
O Que Ficou
Após meia hora de exaustante caminhada, cheguei no restaurante ainda pensando encontrar um prato de comida. Ali estava Genésio. Percebendo a minha presença perguntou:
— Cadê o Nego Inglês?
— Deve ter ido pros quintos dos infernos, resmunguei.
Genésio estava inconformado por ter que reassumir o negócio, visto que ninguém lhe dera um tostão.
— E o Polaco?, perguntei.
— O Polaco?… Acabou de subir no ônibus dizendo que estava retornando para Santa Catarina para nunca mais pôr os pés neste inferno.
Nunca mais vi o Nego Inglês. Muito menos o Polaco. Não demorou e o Roda Viva fechou as portas. Ceilão, tempos depois, sofreu um infarto — que Deus o tenha em sua infinita bondade. Genésio ainda permaneceu por lá um bom bocado. De um tempo não mais o avistei; afinal das contas é assim mesmo — as pessoas vão andando por esse brasilzão e somem como as notícias. Tudo fica no “ouvi dizer que…”.
Quanto ao amigo que chegara para almoçar naquela hora tão imprópria, por vezes o vejo. Continua firme e forte, mas não comenta sobre o fato.
De resto, conforme dizia uma certa pessoa cuja identidade desconheço:
— Não é da sua conta. Porém, em sendo relevante, posso até prestar esclarecimentos — todavia, por se tratar de fato público e notório, ficam dispensadas as provas.