Na Luta

Escritório simples em Cacoal — o começo de tudo.

O Advogado a quem fui apresentado, Dr. Francisco Rufino, mostrou-se muito camarada e solidário. De pronto convidou-me para ir até seu escritório. Lá expôs sua vida:

— Tenho o escritório, todavia me ocupo com outros negócios como corretor de imóveis, compra e venda de veículos. Até mesmo porque esta cidade não tem fórum, não tem Juiz, apenas um delegado de polícia que vira e mexe dá voz de prisão sem mesmo haver flagrante delito. E os pobres cidadãos não têm dinheiro sequer para comer, que dirá para pagar advogado. A comarca fica distante cem quilômetros, mas também não tem juiz. É bom lembrar que aqui é território e as coisas são bem complicadas. Fique aqui e tome conta do escritório, faça de conta que é seu.

Tão rápido quanto chegou, saiu para as suas lides.

Que bom — mal cheguei e já tinha um lugar pra trabalhar. O problema estava em ganhar um dinheiro para almoçar, porque os últimos trocados foram gastos para pagar o pernoite no hotel.

Faltava pouco para as oito horas. Não demorou e chegou a secretária, que estranhou a minha presença. Era uma mocinha franzina, quase esquálida, que deixava transparecer sua origem humilde e carente.

Passado algum tempo chegou alguém para que fosse lavrado um contrato. Ela de pronto pôs-se a datilografar e ao final cobrou algum valor que guardou para si. Logo mais outro.

Percebi então que ali estava minha salvação. Fiquei na porta e quando chegou alguém procurando pelo advogado, apresentei-me e convidei-o para entrar no gabinete:

— Pois não, meu senhor, em que posso ajudá-lo? — É pouca coisa, doutor, apenas um contrato de venda e compra de um terreno.

Desta sorte ficou garantido o almoço e a janta.

Adi Baldo no escritório em Cacoal — início dos anos 1980. Adi Baldo no escritório em Cacoal — início dos anos 1980.

No mesmo dia arrumei lugar para dormir. Um pequeno quarto nos fundos do escritório.

Por cinco meses permaneci naquele escritório, onde tive a oportunidade de conhecer a sede da comarca e atender alguns casos na delegacia. Foi quando fui convidado para trabalhar com outro advogado. As coisas melhoraram, porém apenas para ganhar algum dinheiro e, no final do ano, retornar ao Paraná — apenas para dar satisfação aos parentes e a uma namorada que deixara. Feita a visita, nunca mais a vi.

Retornei em fevereiro. Já estava decidido: não ficaria mais em Cacoal. Uma nova cidade despontava e prometia ser uma futura metrópole. Sua base econômica era madeira — mogno, cerejeira e garapeira — que abastecia os grandes centros do Brasil e do exterior. Uma centena de serrarias trabalhava noite e dia. Milhares de pessoas abriam clareiras na mata, alojando suas famílias em barracos e dando início às lavouras de arroz, feijão, café e pastagens.

A carência era visível. Falta de infraestrutura de estradas, escolas, hospitais. Centenas morriam vitimadas pela malária e outras doenças tropicais. Um pequeno hospital mais se parecia com um acampamento de guerra. A poeira e a fumaça ofuscavam o sol, mas o povo, sempre animado, ciente que viera para uma batalha na qual seria vencedor.

Assassinatos a toda hora, e apenas uma pequena delegacia com três agentes e nenhum delegado de polícia. Polícia militar não havia. Aquilo não era uma cidade, mas uma população que se instalava em um terreno com traçado urbano feito em papel cartolina. Era administrado por um “sacatrapo” nomeado pelo prefeito de Cacoal, a quem pertencia o distrito.

A única organização civil existente era o Lions Clube, que fazia arrecadação para a compra de cadeiras de roda para atender acidentados. Igrejas das mais variadas denominações cristãs erigiam seus templos. Lojas de toda a sorte, e uma agência do extinto Banco Bamerindus que atendia grande parte da movimentação financeira. Assaltos se davam com frequência e à luz do dia.

De repente o Território foi transformado em Estado e não demorou a emancipação do distrito. Eleição para o primeiro prefeito e vereadores. Comício misturado com o movimento das Diretas Já. O candidato do MDB venceu de lavada. Na qualidade de presidente do partido e na falta de outros, ocupei o cargo de Secretário de Administração da cidade e depois de Assessor Jurídico. Também foi criada a comarca — e no ano seguinte foi marcado o primeiro Júri.

Nesses quarenta anos, exerci a advocacia sempre preocupado com a ética. A natureza das lides era das mais elementares: execuções, divórcios, alguns inventários e processos criminais. Poucas apelações, notadamente por conta da singeleza das demandas. Foi relevante a atividade de assessoria jurídica para as prefeituras dos municípios que surgiam na região — Rolim de Moura, Nova Brasilândia, Alto Alegre dos Parecis e São Felipe do Oeste.

Não havia televisão, ou com quem trocar ideias a não ser as questiúnculas da política. Resiliência e fé. E assim vivi.