Miguel e a Feira do Largo da Ordem
Um certo Miguel veio de uma pequena cidade localizada nos confins do fim do mundo. Veio fugido da guerra. Um dia, como fazia de costume, sentou no banco da praça e, conversando com um turco que contava sua vida aqui no Brasil, também contou a sua história.
Tudo começou a melhorar quando chegamos em Curitiba. Estudei, fiz faculdade. Planos para o futuro. Por vezes ficava conversando com mamãe em seu jardim, admirando as flores e os perfumes. Na juventude tive que aprender a falar português, dado que nosso idioma de origem era o polonês e na América o espanhol.
Por acaso, comecei a extrair essências das plantas e, misturando com álcool, vendia na feira. A feira se localizava na praça do Largo da Ordem. A mesma feira que aos domingos recebe turistas do mundo todo, mas naquele tempo era uma feira de hortifrutigranjeiros. Encontrei um cubículo ali pertinho e me instalei de forma permanente, já sonhando em me tornar um empresário.
O Palco da Feira
Do meu cubículo, contemplava o movimento da praça e interagia com os feirantes. Logo na minha frente tinha a barraca do seu Horácio Pontual. Consertava relógios. Era casado com uma simpática senhora de nome Honorina. Invariavelmente, às oito horas, Horácio estava a postos para atender sua freguesia.
Mais ao lado estava a barraca do Velho Madalosso, que servia comida italiana — um descendente que reclamava de tudo a todo momento. Tinha o alemão de quase dois metros, o seu Hulth, que vendia pães e cucas: “Olha o cuque! É feito por minha mulher. E de banana. Banana no cuque é muito bom!”. Do outro lado, o espanhol barulhento das tortilhas, o Fernandes, e sua mulher, dona Carmelita.
O bom da feira era o pastel do Manelão, um baiano que contava causos de briga no facão e de quando encarou uma onça-pintada cara a cara. Tinha também a barraca de peixe do seu Simplício, um cearense miudinho que pescava no Rio Iguaçu e não levava desaforo pra casa.
Honra e Hora
Invariavelmente aparecia a dona Piedade convidando para a reza e o Frei Policarpo, que o povo sempre confundia com o grego Platão, da banca de frutas. No meio daquele burburinho, um camelô vendia carnês do Baú da Felicidade ao som de “Silvio Santos vem aí”.
Mas o melhor era a peleia entre o Horácio e a dona Honorina. — São onze horas. Hora de… — dizia o Horácio, puxando o relógio de bolso. — Hora de quê, Horácio? Mania de olhar as horas em relógio que nem teu é! Um estrangeiro trouxe pra consertar, nunca buscou e você fica se exibindo! — E você que tem horas até no nome! — Eu tenho “Hono” de honra e não de hora! Tenho orgulho do meu nome: Honorina de Sá Camargo, descendente do Visconde de Guarapuava! — Grandes coisas… o maior escravocrata do interior do Paraná! Então tinha que se chamar de Orgulhina!
No fim, o pastor Evangelino sempre intervinha com um salmo para acalmar os ânimos. O pastor só estava ali para comprar um perfume no Boticário. Diziam que o Miguel ia mudar a fábrica para São José dos Pinhais, mas ele continuaria vendendo por ali, e pelo resto do Brasil.