O Chão de Agulhas e o Balcão dos Causos
Em 1957, o tempo no Paraná parecia ser medido pela altura dos pinheiros. Para um menino, aquelas araucárias não eram apenas árvores; eram as colunas que seguravam o céu cinzento das manhãs de geada. Eu caminhava para a escola sentindo o estalar das agulhas secas sob o sapato, um som que se misturava ao bater dos meus dentes no frio de arrepiar.
Mas o meu mundo real, a universidade onde aprendi a ler a alma dos homens, ficava no armazém de Secos e Molhados do meu pai. Ali, o movimento era constante e de um colorido que nenhum livro escolar tinha. Vinham de todo lado: uns a pé, com o pó da estrada grudado na pele; outros a cavalo, amarrando os bichos no palanque. Todos de chapéu de palha e facão pendurado na cintura, brilhando como um aviso.
Eu, guri, observava tipos como o Theodoro, viciado no baralho, e o Pedrinho Facão. Mas ninguém causou tanto bafafá quanto o João Madalena. Uma feita, ele cismou com uma faca que meu pai teria guardado. A prosa azedou e o Madalena enrolou o reio no chicote pra bater no papai. Meu pai desviou e, num reflexo, arremessou um peso de balança — um quilo de ferro — que pegou de raspão na testa do sujeito.
O sangue correu e a polícia veio. No dia seguinte, oito arruaceiros caminhavam amarrados numa corda até a delegacia. Mas a autoridade máxima ali era minha mãe, dona Ingrácia. Montada num burro manso, ela foi à frente e falou pro delegado como uma verdadeira promotora, “largando os cachorros” naqueles baderneiros. O delegado soltou a tropa, mas com um castigo pedagógico: voltaram pra casa no sol quente, a pé e sem o chapéu na cabeça.
E as histórias não paravam no balcão; seguiam até a beira da cova. Contavam na bodega que, no velório da velha Sebastiana, a paz durou pouco. Seus filhos, Manezinho e Emiliano, já não se bicavam. O Emiliano, embriagado, provocou tanto que o Manezinho perdeu o juízo, pôs-se de pé e puxou do facão em pleno velório. Para não ser retalhado, o Emiliano valeu-se do sagrado: arrancou a cruz que guarnecia o caixão da própria mãe e usou-a como escudo contra o aço do irmão.
Foi o povo do “deixa disso” que evitou o pior, e o velório prosseguiu pela madrugada, sob o olhar atravessado dos irmãos por cima do corpo da mãe. Ali, entre o peso de ferro do meu pai, a voz firme de dona Ingrácia e a cruz usada como defesa, eu fui entendendo que a vida no Paraná era um tecido feito de honra, cachaça e uma justiça que nem sempre estava nos livros, mas que todo mundo respeitava.