As Últimas Campereadas do Vovô Franquelim
Eu o conheci quando menino, 1956. Gaúcho, nascido e criado nos campos de Soledade. Já passado dos sessenta migrou para o Paraná. Como veio não sei, acredito que como tantos outros, pelas trilhas abertas pelos ervateiros e outros migrantes. Comboios de carroças, acampando nas beiras de sangas, sesteando na sombra das árvores e repontando alguma tropita.
Família grande, moças e rapazes. Instalou-se no interior do município de Pato Branco. Um lugar onde quase nada havia, apenas uma serraria e começo de roças. Lembro do dia. Era dia santo, por volta das três da tarde. Mamãe levava um guri no colo e outro na barriga, e, meio me empurrando disse: — Peça benção do teu vô. Estendi as mãos juntas e ouvi a resposta: — Deus te abençoe.
E foi só. Guri educado não se mete em conversa de gente grande. Tenho na memória o seu tipo. Alto, cabelo liso e grisalho, bota, chapéu de aba larga. Nem sempre usava bombacha e sim calça de brim bem folgada e uma guaiaca de couro de anta, com fivelas de prata. Faca na cintura, sempre no jeito para picar o fumo de corda e aparar a palha. Em casa, um “faisqueiro” dos antigos para acender o pito. Combuca de porongo, tocha de algodão que acendia pelo atrito de um pedaço de ferro e uma pedra de quartzo. Semblante sério porem camarada, prestativo e ao mesmo tempo caçoador. Tudo servia para puxar uma prosa e contar um causo.
O Chamado da Estrada
Dos doze irmãos, tive a oportunidade de ver Vovô Franquelim em seus últimos dias. Era um sábado, último dia do ano. Tinha eu dezesseis anos, já na trave dos dezessete. Estava de férias. Mamãe disse: “Vai saber do vovô, que sei que não está nada bem”.
Por que eu? Porque naquele momento só poderia ser eu. Encilhei o cavalo alazão pela manhã e parti da beira do Lajeado a Bonito, onde morávamos. Atravessei os rios Santana e Marrecas na pequena balsa e trotei. Passei por figuras como o Joaquim Barriga Verde e o Seu Vergílio, o “Vergílio Costela”, que ganhou o apelido numa peleia braba onde o vencedor deveria assar a costela do outro. Coisas de antigamente.
Subi a serra e segui rumo ao Maracajá. O sol estava de rachar. Por volta do meio-dia cheguei na Boa Esperança. Sesteei na sombra de um cinamomo ao lado da igrejinha. Desencilhei o Alazão, lavei o suor e dividi com ele a água fresca de um poço de cinco metros. Comi o pão, queijo e salame que mamãe pôs no pessuelo e segui.
A Chegada ao Empossado
A chuva de verão veio no caminho, escorrendo pela aba do chapéu de feltro enquanto eu ouvia o ploc, ploc das patas no barro. Já beirava as três horas quando cheguei no Empossado. Ali, Tio Alaíde tinha uma bodega e logo me reconheceu: “É um piá do compadre Vitório!”.
Havia uma discórdia de família. Tio Vitório Faré queria o vovô em sua casa, mais tranquila; Tio Alaíde queria na sede, pra facilitar as visitas. No fim, vovô ficou no silêncio da casa do tio Vitório. Vovô já era viúvo; vovó Amantina tinha partido em Três Barras.
Conversei com ele. Vi um homem que, mesmo acamado, cavalgava em pensamento, pala ao vento, vendo o revoar dos quero-queros. Ele olhou pro chapéu e pra guaiaca pendurados, sem serventia, e disse tristonho: “Acho que a finada Amantina deve estar me esperando com a cuia na mão. Logo bato o pé na soleira e me apresento”.
O Recado a Garcia
Era dia primeiro de ano, um domingo. Encilhei o Alazão e me bandeei de volta. Tinha que levar o “RECADO A GARCIA”: dizer pra mamãe que o vovô não estava bem.
No caminho, uma peleia com formigas correição que atacaram o cavalo e os arreios na subida da Boa Esperança. Cheguei exausto na Barra do Marrecas. O mano Darci, guri de oito anos, montou o Alazão pra levá-lo pra beber na sanga. Comi o requento do meio-dia e segui os últimos quilômetros.
Quando mamãe me viu entrar na porteira, soube antes mesmo de eu falar. Entre lágrimas, balbuciou: “Eu sabia”. Deitei amuado. Trotear mais de sessenta quilômetros não é serviço pra piá.
Poucos dias depois, veio a notícia. Seu Franquelim da Silva Portela havia falecido. Foi sepultado no cemitério do Empossado, em Dois Vizinhos. Partiu pro rancho eterno, deixando uma geração e muitos causos que o tempo não apaga.
Bônus: A Galinha na Farofa e a Sesta Sagrada
Se tinha uma coisa que seu Franquelim apreciava era montar em sua mula ruana e andar pelas estâncias, mais pra saber das coisas do que fazer algum brique. Sempre que empreendia uma andança, vó Amantina fazia uma galinha na farofa, e colocava numa matula e depois enfiava no pessuelo.
De uma feita, seu Franquelim disse que iria na estância do Amarante, a trinta quilômetros. Amantina preparou a galinha gorda e ele partiu mal clareando o dia. Logo após ao meio-dia, Amantina decidiu visitar uma comadre e, ao passar por uma frondosa figueira, viu algo estranho: era a mula de seu Franquelim.
Esgueirou-se pelos arbustos e lá estava o homem, estirado sobre os pelegos, dormindo no maior sossego. — O que estás fazendo aí, homem de Deus? — gritou ela. — Estou fazendo a sesta — respondeu ele num sobressalto. — Mas que sesta, se estás perto de casa? — Deixa eu explicar: quando saí, lembrei que o seu Amarante não estaria em casa. Mas eu não podia perder a galinha na farofa, então resolvi sestear por aqui mesmo.
Amantina já ia descarregando o guarda-chuva no “folgado” quando ele completou: — Espera aí, mulher! A galinha não era grande e se tivesse que repartir não ia dar pra dois. Assim pelo menos um ficou satisfeito!
E assim, no passo manso, voltaram os dois para o rancho, com o vovô Franquelim satisfeito por ter evitado a “pernada” à toa e garantido o seu bocado.