Afinal, é Natal (ou o uso do cachimbo que entortou a boca)

Cachorrinho de porcelana e reflexões sobre as convenções e melancolias do Natal.

Lembro-me bem, deveria ter uns oito anos. Ganhei do Papai Noel um bibelô de porcelana: um cachorrinho de não mais de quatro centímetros. Guardei-o por muito tempo, com aquela felicidade pura de quem acredita que o bom velhinho lembrou de nós. Ver o presépio na igreja era maravilhoso… até que a gente cresce e descobre que o presépio foi uma invenção de São Francisco de Assis e que o boi e o jumento entraram na cena só para atazanar os judeus da época.

Mas Natal é Natal. Descobri depois que Jesus não nasceu em 25 de dezembro; ninguém sabe ao certo quando foi. Em 354 d.C., o Papa Libério apenas oficializou a data para “tomar” o espaço das Saturnálias romanas e do Sol Vitorioso dos persas. Como diz o ditado: “É o uso do cachimbo que entorta a boca”.

Os cristãos mantiveram o costume de distribuir presentes, e um senhor piedoso chamado Nicolau deu início à tradição dos brinquedos. O comércio, claro, se apropriou de tudo. Hoje, Papai Noel me parece um velho bizarro, guiado por um “drone” que distribui presentes conforme a classe social do presenteado. Que saudade do meu cachorrinho de porcelana…

Felicidade é brinquedo que não tem?

Lembro-me da marchinha de Assis Valente, composta em 1932 num quarto de pensão em Icaraí:

“Anoiteceu, o sino gemeu / A gente ficou feliz a rezar / Papai Noel, vê se você tem / A felicidade pra você me dar / Eu pensei que todo mundo / Fosse filho de Papai Noel / Bem assim felicidade / Eu pensei que fosse uma / Brincadeira de papel…”

Assis Valente recorreu à sua infância pobre para escrever que, talvez, a felicidade seja um brinquedo que Papai Noel não tem para nos dar. Ele morreu com essa dúvida, mas eu guardo a lembrança do meu cachorrinho de porcelana como a prova de que, pelo menos por um instante, a felicidade coube na palma da minha mão de menino.