A Sabedoria da Chiquita Banana
Quem é do meu tempo lembra daquela marchinha, ou jingle, da Chiquita Banana. Uma figura exótica, com frutas na cabeça, cantando em inglês uma verdade absoluta sobre a botânica e a vida. A gente ouvia aquilo no rádio e achava graça. Lembro até hoje da Vovó Amantina, no canto da cozinha, cuidando do cacho de banana enquanto a música tocava. Mas tinha ali um ensinamento que vale mais que muita tese de doutorado.
A letra dizia algo muito sério, um conselho de amiga: “you should never put bananas in the refrigerator”. Traduzindo em miúdos: nunca ponha bananas na geladeira. Por quê? Porque elas são lá do trópico, do calor do Equador. Se você botar no frio, elas se assustam. A casca fica preta, cinzenta, perdem o gosto, não amadurecem direito. Elas precisam ficar na fruteira, pegando um calorzinho, esperando o tempo certo até aparecerem aquelas pintinhas marrons. É ali, quando ela tá pintadinha, que ela tá doce, que ela tá no ponto, pronta pra virar uma bananada ou acompanhar o arroz com feijão.
Gente de Geladeira
Fico pensando cá com meus botões que a gente é meio parecido com a banana. Tem muita gente por aí que vive se guardando na geladeira. Gente com medo de se machucar, de se expor, de viver o verdadeiro furdunço que é o dia a dia. Fica lá, conservado, lisinho, sem nenhuma marca na pele, protegido do calor das emoções. Mas também fica sem gosto nenhum. Sem doçura.
Banana verde amarra a boca. Gente que não viveu também. É preciso tempo, é preciso calor humano. Não adianta querer se conservar pra sempre numa juventude eterna e gelada, numa redoma de vidro (ou de gelo). O sujeito passa a vida inteira fugindo das incomodações, guardando a bufunfa e esquecendo de gastar com o que importa, evitando a fadiga… e quando vê, passou. Não amadureceu. Ficou, com o perdão da palavra, uma coisa chocha.
As Pintinhas da Vida
A vida exige que a gente fique fora da geladeira. Que a gente pegue sol, chuva, vento na cara. Que a gente fique esgualepado de tanto trabalhar, de tanto correr atrás dos netos ou de tanto dançar num baile de galpão. As rugas, as cicatrizes, os cabelos brancos que vão aparecendo… isso tudo não é defeito. Isso tudo são as pintinhas da banana.
É o sinal de que a gente amadureceu, de que a gente acumulou doçura e sabedoria. Cada marca é uma história, um causo, uma lembrança.
Então, meu amigo, o conselho do Alfarrabista é o mesmo da Chiquita: saia da geladeira. Não tenha medo de amadurecer. Deixe a vida te pintar de marrom e dourado. Porque, no fim das contas, bananas gostam é do clima tropical. E a alma da gente também.