A Primeira Carreteada
Era primavera, já quase de verão. Para atender a demanda de fim de ano, Mandou o guri e um vaqueano.
A carga era pouca; coisa do dia a dia, farinha, rapadura, fumo, latas de banha E de quebra uma barrica de boa canha.
Distância de apenas uma jornada, O piá, tem que ser falquejado, porque anos lhe bate no costado.
O tempo dá o traço e o traquejo. Na vida o que se aprende primeiro É o desenleio do pialo e o tiro certeiro.
No passo a passo, não se judia o animal. O piá na boleia e o compadre de vaqueano. E tudo estará bem no final de ano.
A tarde caindo e o sol já se escondia. Por volta, muito mato e pouca gente. Por vezes um rancho ou um vivente…
Quando se viu o luzeiro da freguesia. Marcar a presença e pedir um pouso E boia se não for muito custoso.
Recomeço da jornada no clarear do dia. Ajeitar a carga, a começar pelos corotes Ovalados, desajeitados e sem suporte,
Muito apreciado o seu conteúdo. Cachaça da boa é arte e segredo. Firma o pulso, espanta o frio e o medo.
Por causa dela até me desviei do causo. Não é benta, mas é um santo remédio. Anima a alma e espanta o tédio.
Pra que pressa, tem que fazer rodeio. É no floreio que a história é contada. Tudo arrumado para reiniciar a jornada.
Atento, não se sabe onde o perigo mora. O guri mostrou ser guapo e seguro; No descampado no claro e no escuro.
Embolado na moita feito velhaco. Para contar o causo do jeito certo Me aprumo para mais uns versos.
Conforme dizia: o perigo não tem endereço. Ronda por aí, andejo e esquisito; Provoca entreveros, e enguiços.
De repente na moita a beira da estrada… Um vespeiro, e daí o causo muda. Ouve um espanto, foi um Deus nos acuda.
Na disparada voou cachaça e rapadura. Junto foi o vaqueano se esfolando na pedreira mas o piá ficou firme segurando a regeira.
Cai fora que não tem mais jeito! De longe, gritava o vaqueano. E lá se foram os sonhos e os planos.
Montado num burro e puxando o outro. Tristonho esgualepado, disse do acontecido. Foi triste, por sorte não ter morrido.
E o vaqueano ficou juntando os cacos.

— Cuidemos dos vivos — disse o bodegueiro.