A Final é Natal
Lembro bem, deveria ter 8 anos. Ganhei do Papai Noel um bibelô de porcelana. Era um cachorrinho de não mais de 4 centímetros. Guardei-o por muito tempo. Fiquei muito feliz. Papai Noel lembrou de mim e também dos meus irmãos. Ir à igreja e ver o presépio era maravilhoso. Um dia descobri que não havia Papai Noel e que aquela data era para comemorar o nascimento de Jesus. O presépio fazia todo o sentido. Descobri depois que o presépio foi uma invenção de São Francisco de Assis e que a Bíblia não fala de boi e jumento — e que eles foram colocados em cena com o propósito de atazanar os judeus.

Mas tudo bem, Natal é Natal. De repente descobri: Jesus com certeza não nasceu em 25 de dezembro e, pior, ninguém sabe quando foi.
Certo é que no ano 354 d.C. o papa Libério ordenou que os cristãos celebrassem o nascimento de Yeshua no dia 25 de dezembro. Provavelmente ele escolheu esta data porque em Roma já se comemorava neste dia o dia de Saturno — a festa chamada Saturnália. Por seu turno, a religião Mitraica dos persas (inimiga dos cristãos) comemorava neste dia o NATALIS INVICTI SOLIS, ou seja, “O Nascimento do Sol Vitorioso”. Temos então que, por decreto, o aniversário de Jesus passou a ser 25 de dezembro — uma data simbólica. Afinal, alguém que mansa e pacificamente deflagrou uma revolução que se prolonga por dois mil anos merece uma data para celebrar seu nascimento.
Diz o ditado: “É o uso do cachimbo que entorta a boca.” Os cristãos não abandonaram por completo os festejos das Saturnálias, onde se distribuíam presentes como vinho e guloseimas. Mais tarde um senhor muito piedoso, chamado Nicolau, teve a ideia de nesta data distribuir brinquedos para as crianças pobres.
A essas alturas nem precisa explicar que o comércio e a indústria se apropriaram da data para incrementar suas vendas. Deu no que deu. Papai Noel não passa de um velho bizarro, guiado por um “dronener” que sai distribuindo presentes nos palácios, nas casas e nos barracos — tudo de acordo com a classe social do presenteado.

Que saudade do meu cachorrinho de porcelana.
Anoiteceu, o sino gemeu
A gente ficou feliz a rezar
Papai Noel, vê se você tem
A felicidade pra você me dar
Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
Bem assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel
Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem
Assis Valente, 1932 — num quarto de pensão em Icaraí, Niterói.