O Brique da Vaca
Eu estava abancado no canto, só “alcançando” a prosa com os olhos, enquanto o chimarrão passava de mão em mão num compasso de relógio antigo. Na varanda, o Vovô Franquelim ajeitava o chapéu de aba larga, com aquela expressão grave de quem vai revelar o segredo da santíssima trindade. Do outro lado, o Gaudêncio, desconfiado que só ele, alisava o bigode, já esperando o “laço” da conversa.
— Pois olha, Gaudêncio — começou o Franquelim, sem piscar —, a lida de campo tá mudando. Antigamente era no grito e na espora. Mas eu vi, com esses olhos que a terra há de comer, uma tropa inteira ser repontada sem um único pingo de suor de cavalo.
O Gaudêncio parou a cuia no ar.
— E foi o quê? Cachorro elétrico? — retrucou, com um meio sorriso de quem duvida até da própria sombra.
— Que cachorro, home! Foi de avião. Teco-teco. E não foi qualquer teco-teco, foi ordem direta do homem lá de cima. Do próprio Getúlio Vargas.
Eu tive que morder o lábio para não soltar a risada ali mesmo. O Franquelim nem se abalou com o espanto mudo do compadre e continuou, desenhando a cena no ar com as mãos calejadas.
— Tinha uma vaca, a Mimosa, uma zebuína de estampa fina, que foi vendida para o Rio de Janeiro. O Getúlio queria churrasco de gado nosso no Palácio do Catete, mas mandou avisar: se a vaca fosse de trem, chegava estressada e a carne endurecia. Se fosse a pé, emagrecia. Então ele despachou a Força Aérea.
— A Força Aérea pra buscar uma vaca? — o Gaudêncio quase engasgou com a erva.
— Pois então! Três teco-tecos. Vieram zumbindo baixo, que nem marimbondo invocado. A ordem era clara: pastorear a Mimosa lá de cima, tocando ela com a sombra das asas até a pista de pouso. Coisa de louco, Gaudêncio. Os pilotos davam razante e a vaca, que nunca tinha visto bicho com asa daquele tamanho, disparava em linha reta, mais aprumada que soldado em desfile de sete de setembro. Segundo o piloto, era a “aerodinâmica bovina”.
— Mas Franquelim — o Gaudêncio tentou argumentar, ajeitando a bombacha —, e se o boi empaca? O avião desce e o piloto grita “ôoo-lê”?
— O avião não precisa descer, Gaudêncio. O susto é a espora. É o progresso! A vaca chegou no Rio tão macia de susto que o Getúlio mandou uma medalha pro piloto e outra pra vaca.
O bigode do Gaudêncio soprou num misto de arrenego e admiração. Ele sabia que era mentira. O Franquelim sabia que ele sabia. Mas ali, naquela varanda, a verdade pouco importava. O que valia era a arte de “envortear” as ideias, de transformar um teco-teco barulhento num peão dos ares a serviço da República.
O Vovô Franquelim era um mestre dessa prosa. Ele não contava mentiras; ele apenas enfeitava a realidade para que ela não ficasse tão sem graça. E eu, ali no meu canto, aprendi que, às vezes, um causo bem contado vale mais que muita enciclopédia.