Prefácio e Intróito: Eita Lasqueira
PREFÁCIO — INTROITO OU PROLEGÔMENOS
Com estes alfarrábios me proponho colocar à disposição dos incautos leitores algumas “coisas” que fui digitando ao longo da vida. Melhor dizendo, a partir do momento em que me senti inútil para a sociedade. Além de lavar pratos e eventualmente, pilotar um fogão, pouca coisa sobrou para este vivente.
Reuniões de confraria para alguma reflexão, já que não há mais estratégias ou planos para o futuro. Está tudo consumado.
Não pretendo realizar mais nada. Diz o velho ditado que o homem deve na vida plantar uma árvore, ter filhos e escrever um livro. Rabugices a parte, família sempre foi o mote de viver. Desde o ano de 1950. Melhor dizendo desde 1960, quando com dez anos, comecei a tomar ciência da realidade de vida. Disciplina, trabalho e amigos. Aos 75 anos vejo que dessas três coisas, ainda resta alguns amigos. Amizades são decorrentes do trabalho. Quem nada faz não merece ter amigos. Assim, com eles convivo, na certeza de ter feito o que deveria ser feito. E valeu o esforço e a disciplina.
Saindo do fundo da grota, aos trancos e barrancos fui daqui e ali e aportei em Rondônia. Aqui constitui família e fiz amigos. Aqui participei da construção de um Estado e de cidades. A densa floresta transformou-se em terra de riquezas e bom ambiente para viver.
Sobre tudo isso digo alguma coisa. Não se trata de uma biografia, mas de temas espaços que acabam por revelar momentos do passado. De início denominei esta obra de “Passa Tempo”, mas depois percebendo que se trata de uma mistureba, denominei “EITA LASQUEIRA”.
Está prefaciado ou queriam que eu falasse de coisas que possa comprometer meu passado probo e impoluto?
PUBLICO OU NÃO PUBLICO — EIS A QUESTÃO
Vivo a escrevinhar coisas. Um montão, que até dá para publicar um livro. A questão é publicar pra que? — Seria uma temeridade fazer uma publicação na esperança de que alguém venha ler ou comprar. Bancar os custos e fazer distribuição gratuita seria uma boa opção. Presentear os amigos e vê-los recebendo-o com ares de paisagem. — Você que escreveu? — Sim eu mesmo. — Interessante. E, vai o livro para a estante.
Há uma pesquisa que diz que o brasileiro lê cerca de quatro livros por ano, enquanto o canadense lê cerca de 12. Acredito que esses dados não são do IBGE. Até mesmo porque no último censo ninguém me perguntou sobre isso.
Mas eu tenho um sonho. “I Have a Dream”.
A dúvida Shakespeareana permanece insolúvel. Desta feita, tudo é uma questão de coragem. “Alea jacta est”. O bom de tudo isso é que existem editoras que se propõem a publicar, assumindo os encargos de organização como: folha de rosto, competindo ao autor evidentemente a dedicatória, agradecimentos, prefácio e os elementos textuais, restando combinar a Capa e o preço. É questão de coragem ou de atrevimento.
Para decidir sobre a tiragem consultei Osvaldo Montenegro e fiz a lista de amigos de dez anos atrás. Lamento, mas a editora não fará uma grande tiragem.
Caso o amigo e bom camarada leitor tenha lido esta parte, recomendo ler tudo o que mais consta dos autos e assim poder fazer um arrazoado, tecer comentários e dar aquele LAIKE que nos enche de satisfação.
Agora se uns míseros cruzeiros lhe fazem falta a ponto de regatear o preço ou simplesmente achar que é caro, lamento, mas o leitor terá que mudar de emprego, abrir um quiosque na praça e vender cachorro-quente. A propósito, o preço sugerido é R$ 100,00, no PIX ou no cartão em até três vezes.
DEDICAÇÃO E APRESENTAÇÃO
Dedico a quem escreveu, portanto a mim mesmo. Outra pessoa não merece tamanha desfaçatez.
Não que a presente seja um impropério, porém ninguém mais que eu dispensaria horas e horas rabiscando, apagando e reescrevendo até que ficasse do meu gosto. Outros poderão gostar, coisa que duvido. Prefiro não correr o risco de dedicar o presente cartapácio a alguém e depois saber que sequer leu. Já não se faz mais leitores como antigamente. Leitor voraz daqueles que começavam logo após o jantar e só largavam na madrugada. Também pudera, as mensagens de whatsapp ou de outras mídias são muito mais interessantes. “Oi amigo, não visualizei porque estava lendo um livro…kkk”. É ruim!? Só por isso não me atrevo a fazer uma dedicação.
Caso leiam, dediquem seu tempo a este que, além do tempo, perdeu dinheiro. “Time is Money” — Não perdi meu tempo, talvez algum dinheiro. Quem faz de graça? Revisão, diagramação e impressão? Quando eu partir, não lhes deixarei dinheiro, apenas estes rabiscos. Então dirão: Tão gente fina que era. Que Deus o tenha. Haja paciência. Cá comigo, eu mereço.
Antes que eu esqueça: Vão se lascar!
Apresentação: Desse Jeito
Nasci tosco, assim desse jeito. Humano, com muitos defeitos. Cresci, perambulei, fiz andanças, Tive peleias, por vezes nada mansas. Seguindo o rito, dei o primeiro passo. Maço, cinzel, esquadro e compasso. Olhos vendados e peito descoberto, Fui conduzido pelo primeiro esperto No silêncio da câmara de reflexão; O derradeiro testamento foi feito. Ainda vedado, ocorreu a iniciação. Após jurar, dobrando o joelho direito Foi me dada a luz e conheci os irmãos. Fiquei em pé à ordem. Assim, desse jeito!
Acrescento que nasci no Rio Grande do Sul, município de Barão de Cotegipe, lá na roça, no topo de uma colina, onde era possível vislumbrar alguma coisa no horizonte. Disseram-me que era a torre de uma igreja. Tudo se deu a partir de 8 de fevereiro de 1950 até meados de 1956, quando papai resolveu se mudar para o Paraná. Dali para frente o leitor saberá o que aconteceu, lendo este cartapácio. Que Deus te ajude e me resguarde dos impropérios.
Daquele marco zero, setenta e cinco anos se foram e no limiar dessa jornada, decidi registrar um “mínimo minimorum”, inclusive para dizer que tive algumas aulas de latim, além das decorebas das orações. “Agnus Dei qui tollis peccata mundi”.
O soneto supra pode parecer obscuro e enigmático, porém muitos saberão que é assim desse jeito.
NOTA EXPLICATIVA
Se por acaso alguém, completamente desocupado, vier tomar conhecimento do presente, saiba desde já e para todos os fins, que não se trata de um trabalho literário, acadêmico, ficção, proposta herética, homofóbica ou qualquer coisa semelhante. Muito pelo contrário, não há aqui proposta alguma.
Uma proposta deve estar embasada, estruturada e ser factível. Aqui não haverá nada disso. Até mesmo porque após a invenção da rede e da roda pouca coisa sobrou. A partir de então a humanidade passou a viver cada vez mais enrolada. A roda procura dar velocidade enquanto a rede só atrapalha.
O primeiro rascunho intitulava-se PASSA TEMPO. — O tempo passou e mudei de ideia. Preferi o título “EITA LASQUEIRA”, por ser essa uma expressão popular para dizer que está tudo confuso, junto e misturado. É o caso. Tá tudo junto e misturado. Falo de mim mesmo, de causos de antanho e histórias mal contadas e outras com lampejo de seriedade.
Já é público e notório que quem conta um conto, aumenta um ponto, sempre puxando o braseiro para o seu assando. Aqui sirvo cru, ou simplesmente sapecado. Não é restaurante gourmet onde a comida é feita de forma criteriosa, com produtos de qualidade, perfeitamente preparada e artisticamente apresentada.
Posso ser interpretado como useiro e vezeiro, mas não mal-intencionado. A intenção é boa, muito embora maldosos digam que delas o inferno está cheio. (infernus plenus est.)
“Aforante” isso, fica patente que a presente “obra” é totalmente despretensiosa, porém tão necessária quanto à patente. — Fui claro ou tenho que desenhar?
Na verdade, a presente nota explicativa não tem nada a explicar. No universo existem coisas inexplicáveis. Por exemplo, quem arranjou papel para Moisés escrever o Pentateuco? — Isso não impede que alguém conte, reconte e outro registre como verdadeiro. Tudo é um conto, com o devido desconto.
Finalmente, e enquanto mexo o doce no tacho, conto de mim, e de “patacoadas”. Ler ou não ler. Eis a questão.
Por falar nisso, Shakespeare escreveu tragédias e nem por isso a humanidade ficou melhor ou pior. — Freud explica.
(Lucas 12): “26. Considerando que vós não podeis fazer nada em relação às pequenas coisas da vida, porque vos preocupais com todas as outras? 28. Ora, se Deus veste assim uma simples erva do campo, que hoje vive e amanhã é lançada ao fogo, muito mais dará a vós, vestindo-vos de glória, homens fracos na fé.”
Isto posto, e tudo bem explicadinho, vamos ao miolo. Quer dizer; ainda não, porque vou falar da finalidade.
Finalidade
O tempo é mensurável, por ser matéria. À despeito de Aristóteles ter dito que o tempo não poderia existir, já que nenhuma das suas partes existe. Pergunto: - Quais seriam as partes do tempo? Começo, meio e fim? Possivelmente nem parte tenha. Não existe uma parte de tempo. Ele é simplesmente infinito. Tão eterno quanto Deus. Dele tudo podemos fruir sem mesmo haver prova da sua existência.
No meu pensar, o tempo é concreto, tem utilidade e deixa marcas. É nome próprio e tem sobrenomes: passado, presente e futuro. Tem qualificativos: bom, feio, útil e perdido. Nele podemos nos encontrar ou nos perder. Enfim, o tempo é bom. Ruim seria se não existisse.
A FINALIDADE é sorver o tempo. Lentamente, percebendo os seus sabores e cheiros. Fazer da vida o “dolce far niente”. Sempre tive o desejo de escrever um opúsculo qualquer, contudo, só o desejo não basta. Tem que haver uma finalidade ou uma necessidade. Quanto a isto, questiono: - Necessário pra quem? - Afinal existem milhares de livros, jamais lidos e outros tantos escondidos. O que seria da humanidade se não existissem os livros? Há quem passe a vida escrevendo um único livro, e outros querendo entender o conteúdo, ou simplesmente não sabendo do que trata.
Preocupa-se o homem em dizer do acontecido, o que é e o que pode ser. Todos cheios de boas intenções e boas razões. Possivelmente quem mais sabia nada escreveu. Tal como Sócrates e Jesus, se é que disseram alguma coisa.
Sim, de Sócrates, falou Platão e Jesus, nem Deus sabe, porque dele só tem os disque-disque dos evangelhos. Está aí uma coisa que nem Deus sabe, quanto menos quem é seu filho. Não há, no entanto, como negar que tenham mudado o pensamento da humanidade.
Por certo a finalidade não é mudar a humanidade. Pretendo apenas usufruir o tempo. Mas há um dilema nisso tudo. Esse dilema me remete ao mestre de direito, Haroldo Valadão, que do alto de seus oitenta anos, na VII Conferência da Ordem dos Advogados do Brasil, em 1978 na UFPR, enquanto juristas de renome expunham suas pretensiosas teses nas salas de conferências, ele, nos corredores daquele edifício lindo por fora e tosco por dentro, aconselhou os jovens gazeteiros que perambulavam pelos corredores: “Não percam tempo fazendo hoje aquilo que pode ser feito amanhã, porque amanhã poderá não ser necessário”. – Assim, faço apenas pela minha necessidade.
No futuro poderá haver alguém com necessidade de ler. Que leiam. Leia quem quiser e se puder compartilhe, deixe seu “like”. Se tenho inimigos não sei e tão pouco pretendo criar algum por conta deste cartapácio. Mas uma coisa eu lhes garanto: Não é Fake News, ou desinformação que atenta contra ao Estado Democrático e de Direito. O “pancrácio Xandão” arrumou muitos inimigos por conta dessa tese atabalhoada que ficará por muito tempo encrustada na mente dos patriotas.
Também não escrevo sob pressão de uma Delação Premiada. Resta-me, no entanto, a vã expectativa de ser anistiado pelos meus crimes não cometidos. De qualquer forma, data vênia, me declaro inocente perante ao impoluto Poder Julgador.
Caso não gostem, paciência. Tem quem gosta de coisas menos interessantes. Nesse caso, vão plantar batatas, visto que foram elas que efetivamente já salvaram a humanidade. A despeito disso recomendo que plantem mandioca, aipim, macaxeira, maniva, que é tudo a mesma coisa, a legítima cultura tupiniquim. Não por acaso, a mandioca foi solenemente saudada pela presidenta do Brasil: “Então, aqui, hoje, eu estou saudando a mandioca”.
Machado de Assis disse: “Ao vencedor as batatas”. Tivesse se ocupado com a cultura tupiniquim ao invés do humanismo, teria dito: “Ao vencedor a mandioca”.
Segundo o Google, Machado de Assis com a frase “Ao vencedor, as batatas”, no romance Quincas Borba, é uma metáfora que ironiza a filosofia do “Humanismo”, defendida pelo personagem Quincas Borba. Está patente que na luta pela sobrevivência, quem vence tem direito aos despojos, mesmo que seja um simples balaio de mandioca.
Agradecimentos
Agradeço primeiro a quem Orientou os meus passos, Abrandou minhas dores, Estimulou os meus atos E no chão semeou flores. Agradeço a quem me deu e carinho, Razão para lutar e viver. A quem iluminou meu caminho Dando-me esperança e saber. Aos pais, irmãos esposa e filhos; Aos amigos que já não lembro. A todos que me prestaram auxilio Mestres, vizinhos e parceiros; Extensão dos meus braços. Todos, do último ao primeiro. Aqui digo: Sou deveras grato!
“Agradeço a meu Deus toda vez que me lembro de vocês” (Filipenses 1.3).
Agradecimento Especial
Às vezes rabisco algumas linhas as quais podem ser entendidas como crônicas. No momento meu desejo é escrever algo que não seja um simples relato descompromissado. Desejo fazer uma manifestação de agradecimento.
De repente aos 65 anos o médico me diz que meu coração estava debilitado e a solução seria a substituição de válvula. Eu?…que me achava cepo de aroeira, cerne puro?… Foi um baque de 7 X 1. Aquela coisa que te deixa mudo, de garganta seca e olhos lacrimosos.
Encarar os fatos. A vida é viver. Trajetórias de altos e baixos, onde os desejos e as paixões se entrelaçam. Este foi um momento baixo, um momento confuso e tenso, mas, só um momento. Não seria eu o primeiro nem o último. — Se é pra ser, assim será. Não valeria a pena aqui discorrer sobre detalhes. Buscados os caminhos, correndo e batendo cabeça, em 30 dias a válvula mitral foi substituída.
Segundo disseram uma válvula biológica vinda da Alemanha, onde suínos são criados especificamente para isso.
“A insuficiência mitral, também chamada de regurgitação mitral, acontece quando existe um defeito na válvula mitral que é uma estrutura do coração que separa o átrio esquerdo do ventrículo esquerdo. Quando isso acontece, a válvula mitral não fecha totalmente, fazendo com que um pequeno volume de sangue retorne para os pulmões ao invés de sair do coração para irrigar o corpo”.
Fui reabilitado com limitações. Cito o verso do poeta gaúcho: “Palanque que não timbra; porque o tempo enraizou” - Se é porque Deus assim quer assim tem que ser.
Todavia, o carinho e atenção das pessoas fazem a diferença. — O coquetel de comprimidos com certeza estabiliza e tonifica, no entanto, o ingrediente da vida vem do amor dos familiares, esposa, filhos, noras, genro, irmãos, cunhadas, sobrinhos, netos e do apoio dos amigos e dedicação dos profissionais - Aquela sensação de incerteza deixa de existir e a vida continuou com seus altos e baixos.
Desta feita, agradeço aos profissionais da saúde, aos familiares, aos velhos amigos e novos que tive a graça de encontrar nesta jornada.
Sou muito grato ao cirurgião Dr. José Augusto Moutinho, de Curitiba pelo seu profissionalismo, competência e simplicidade o qual me encaminhou ao Hospital Angelina Caron onde realizou a cirurgia. Creio que não considerará ofensivo incluí-lo no meu seleto grupo de amigos. Passado algum tempo disseram-me que ainda não estava tudo cem por cento. A válvula funcionava, porem com disfunção grave. A recomendação foi a instalação de um Marcapasso, CDI tricúspide. Afora os atropelos, a ponto de internação na UTI, tudo pareceu ser fácil visto que estava em hospital público, em Porto Velho onde o problema seria resolvido. De fato, foi, porém permanecendo em uma fila de espera, até que o Estado providenciasse a aquisição do aparelho, e diga de passagem, custou mais de cem mil reais. Vencida esta parte tive que aguardar mais alguns dias até que fosse regularizada a contração o médico especialista. No caso o Médico foi o Dr. Marcos Rosa e ao que me consta é profissional altamente qualificado.
Ao todo 72 dias. Estar internado por tanto tempo é desgastante em que pese o profissionalismo e atenção da equipe técnica, médicos, enfermeiras auxiliar de enfermagem e zeladoras.
Tudo foi menos traumático, graças o acompanhamento contante, da minha esposa Valdete. O hospital exige acompanhamento, porém não oferece qualquer conforto ao acompanhante. Foi necessário improvisar. Um colchão estendido no chão e camuflado durante o dia. Era mais ou menos assim, não pode, mas faz de conta que eu não vi. Essa parte pode-se dizer que é desumano. Ali fiz amizade com muitos. Uns partiram para o Oriente Eterno e outros que retornaram felizes para seus lares.
Tudo melhorou, porem máquina é máquina e nada substitui o órgão natural. Periodicamente as revisões devem ser feitas. A vida passa a ser limitada. Ora uma tontura seguida de cansaço, ora sentido o marca passo fazer o seu trabalho.
O progresso tecnológico faz parte do plano de Deus. “Honra ao médico, porque ele é necessário, pois foi o Altíssimo que o criou”. (Eclesiástico 38.1) Foi Deus quem fez vocês.
NOTA EXPLICATIVA
Se por acaso alguém, completamente desocupado, vier tomar conhecimento do presente, saiba desde já e para todos os fins, que não se trata de um trabalho literário, acadêmico, ficção, proposta herética, homofóbica ou qualquer coisa semelhante. Muito pelo contrário, não há aqui proposta alguma.
Uma proposta deve estar embasada, estruturada e ser factível. Aqui não haverá nada disso. Até mesmo porque após a invenção da rede e da roda pouca coisa sobrou. A partir de então a humanidade passou a viver cada vez mais enrolada. A roda procura dar velocidade enquanto a rede só atrapalha.
O primeiro rascunho intitulava-se PASSA TEMPO. — O tempo passou e mudei de ideia. Preferi o título “EITA LASQUEIRA”, por ser essa uma expressão popular para dizer que está tudo confuso, junto e misturado. É o caso. Tá tudo junto e misturado. Falo de mim mesmo, de causos de antanho e histórias mal contadas e outras com lampejo de seriedade.
Já é público e notório que quem conta um conto, aumenta um ponto, sempre puxando o braseiro para o seu assando. Aqui sirvo cru, ou simplesmente sapecado. Não é restaurante gourmet onde a comida é feita de forma criteriosa, com produtos de qualidade, perfeitamente preparada e artisticamente apresentada.
Posso ser interpretado como useiro e vezeiro, mas não mal-intencionado. A intenção é boa, muito embora maldosos digam que delas o inferno está cheio. (infernus plenus est.)
“Aforante” isso, fica patente que a presente “obra” é totalmente despretensiosa, porém tão necessária quanto à patente. — Fui claro ou tenho que desenhar?
Na verdade, a presente nota explicativa não tem nada a explicar. No universo existem coisas inexplicáveis. Por exemplo, quem arranjou papel para Moisés escrever o Pentateuco? — Isso não impede que alguém conte, reconte e outro registre como verdadeiro. Tudo é um conto, com o devido desconto.
Finalmente, e enquanto mexo o doce no tacho, conto de mim, e de “patacoadas”. Ler ou não ler. Eis a questão.
Por falar nisso, Shakespeare escreveu tragédias e nem por isso a humanidade ficou melhor ou pior. — Freud explica.
(Lucas 12): “26. Considerando que vós não podeis fazer nada em relação às pequenas coisas da vida, porque vos preocupais com todas as outras? 28. Ora, se Deus veste assim uma simples erva do campo, que hoje vive e amanhã é lançada ao fogo, muito mais dará a vós, vestindo-vos de glória, homens fracos na fé.”
Isto posto, e tudo bem explicadinho, vamos ao miolo. Quer dizer; ainda não, porque vou falar da finalidade.
Finalidade
O tempo é mensurável, por ser matéria. À despeito de Aristóteles ter dito que o tempo não poderia existir, já que nenhuma das suas partes existe. Pergunto: - Quais seriam as partes do tempo? Começo, meio e fim? Possivelmente nem parte tenha. Não existe uma parte de tempo. Ele é simplesmente infinito. Tão eterno quanto Deus. Dele tudo podemos fruir sem mesmo haver prova da sua existência.
No meu pensar, o tempo é concreto, tem utilidade e deixa marcas. É nome próprio e tem sobrenomes: passado, presente e futuro. Tem qualificativos: bom, feio, útil e perdido. Nele podemos nos encontrar ou nos perder. Enfim, o tempo é bom. Ruim seria se não existisse.
A FINALIDADE é sorver o tempo. Lentamente, percebendo os seus sabores e cheiros. Fazer da vida o “dolce far niente”. Sempre tive o desejo de escrever um opúsculo qualquer, contudo, só o desejo não basta. Tem que haver uma finalidade ou uma necessidade. Quanto a isto, questiono: - Necessário pra quem? - Afinal existem milhares de livros, jamais lidos e outros tantos escondidos. O que seria da humanidade se não existissem os livros? Há quem passe a vida escrevendo um único livro, e outros querendo entender o conteúdo, ou simplesmente não sabendo do que trata.
Preocupa-se o homem em dizer do acontecido, o que é e o que pode ser. Todos cheios de boas intenções e boas razões. Possivelmente quem mais sabia nada escreveu. Tal como Sócrates e Jesus, se é que disseram alguma coisa.
Sim, de Sócrates, falou Platão e Jesus, nem Deus sabe, porque dele só tem os disque-disque dos evangelhos. Está aí uma coisa que nem Deus sabe, quanto menos quem é seu filho. Não há, no entanto, como negar que tenham mudado o pensamento da humanidade.
Por certo a finalidade não é mudar a humanidade. Pretendo apenas usufruir o tempo. Mas há um dilema nisso tudo. Esse dilema me remete ao mestre de direito, Haroldo Valadão, que do alto de seus oitenta anos, na VII Conferência da Ordem dos Advogados do Brasil, em 1978 na UFPR, enquanto juristas de renome expunham suas pretensiosas teses nas salas de conferências, ele, nos corredores daquele edifício lindo por fora e tosco por dentro, aconselhou os jovens gazeteiros que perambulavam pelos corredores: “Não percam tempo fazendo hoje aquilo que pode ser feito amanhã, porque amanhã poderá não ser necessário”. – Assim, faço apenas pela minha necessidade.
No futuro poderá haver alguém com necessidade de ler. Que leiam. Leia quem quiser e se puder compartilhe, deixe seu “like”. Se tenho inimigos não sei e tão pouco pretendo criar algum por conta deste cartapácio. Mas uma coisa eu lhes garanto: Não é Fake News, ou desinformação que atenta contra ao Estado Democrático e de Direito. O “pancrácio Xandão” arrumou muitos inimigos por conta dessa tese atabalhoada que ficará por muito tempo encrustada na mente dos patriotas.
Também não escrevo sob pressão de uma Delação Premiada. Resta-me, no entanto, a vã expectativa de ser anistiado pelos meus crimes não cometidos. De qualquer forma, data vênia, me declaro inocente perante ao impoluto Poder Julgador.
Caso não gostem, paciência. Tem quem gosta de coisas menos interessantes. Nesse caso, vão plantar batatas, visto que foram elas que efetivamente já salvaram a humanidade. A despeito disso recomendo que plantem mandioca, aipim, macaxeira, maniva, que é tudo a mesma coisa, a legítima cultura tupiniquim. Não por acaso, a mandioca foi solenemente saudada pela presidenta do Brasil: “Então, aqui, hoje, eu estou saudando a mandioca”.
Machado de Assis disse: “Ao vencedor as batatas”. Tivesse se ocupado com a cultura tupiniquim ao invés do humanismo, teria dito: “Ao vencedor a mandioca”.
Segundo o Google, Machado de Assis com a frase “Ao vencedor, as batatas”, no romance Quincas Borba, é uma metáfora que ironiza a filosofia do “Humanismo”, defendida pelo personagem Quincas Borba. Está patente que na luta pela sobrevivência, quem vence tem direito aos despojos, mesmo que seja um simples balaio de mandioca.