Páscoa na Terra Vermelha
A primeira vez que a gente viu aquele barro vermelho de Rondônia, não sabia direito se era chão para plantar semente ou se era a própria seiva da terra sangrando debaixo do trator. Era o ano da graça de 1981, e o Brasil vivia empurrando o povo pra cima, pro Norte, pro meio do mato grosso e denso. A promessa era de terra farta, de um pedaço de chão que a gente pudesse chamar de nosso. Mas quem chega primeiro sabe: antes da colheita, vem o suor. E antes da estrada de asfalto, vem a lama que gruda até na alma.
Aquela Páscoa foi diferente de tudo que a gente conhecia lá no Sul. A gente estava acostumado com o friozinho chegando, com a família toda reunida ao redor de uma mesa grande, farta de comida quente, cuca, pão caseiro e aquele cheiro de carne assando que avisava que o domingo era sagrado. Aqui, a realidade era outra. O calor não dava trégua nem pra chover. E quando chovia, meu amigo… quando chovia, o mundo virava uma sopa de barro.
Lembro de um domingo de Páscoa que amanheceu com o céu carregado, um cinza pesado que prometia água pra mais de metro. A gente morava numa casa de madeira, erguida no muque, com as tábuas ainda cheirando a seiva fresca. O telhado, de brasilit, fazia um barulho ensurdecedor quando a chuva começava. E começou.
A igreja mais próxima, se é que dava pra chamar assim aquele galpão de madeira com uma cruz improvisada na frente, ficava a uns bons quilômetros de distância. Naquele tempo, ir pra missa no domingo de Páscoa era lei, não importava se o céu estivesse caindo. A gente se arrumou como deu. Colocamos a melhor roupa, que na verdade era a menos gasta, e saímos de casa.
O caminho era um desafio. A caminhonete patinava no barro vermelho, escorregando de um lado pro outro como um boi chucro na arena. Meu pai, com os braços firmes no volante, xingava baixinho em italiano pra não ofender o dia santo, mas a verdade é que até os anjos deviam estar com pena da gente.
Chegamos na igreja com as roupas respingadas de lama e o coração aliviado. O padre, um homem miúdo, mas com uma voz que parecia um trovão, já estava lá, ajeitando o altar improvisado sobre uma mesa de madeira tosca. A comunidade, um punhado de famílias que dividia a mesma coragem e o mesmo medo, foi se ajeitando nos bancos compridos.
Não tinha ostentação, não tinha coral afinado, não tinha órgão de tubos. Mas tinha uma fé que eu nunca vi igual. Uma fé que nascia da necessidade, da incerteza, da esperança de que aquele sacrifício todo valeria a pena.
Depois da missa, a tradição mandava reunir todo mundo. Como voltar pra casa era arriscado por conta da chuva que não parava, o jeito foi improvisar ali mesmo. O padre tinha conseguido, não sei como, (memória a confirmar) um pedaço de carne que parecia ter vindo de um boi que andou mais que a gente pra chegar ali. Alguém trouxe mandioca, outro trouxe um arroz meio solto, meio empapado, e assim se fez o banquete.
Sentados na varanda do galpão, olhando a chuva lavar a terra vermelha, a gente percebeu que a verdadeira Páscoa não estava nos ovos de chocolate que a gente nem viu naquele ano, nem na mesa farta que ficou na saudade. A Páscoa estava ali, na ressurreição da esperança, na força de uma comunidade que se apoiava na outra, no milagre de estarmos vivos e juntos num lugar onde tudo ainda estava por ser feito.
Anos depois, as estradas foram asfaltadas, as cidades cresceram, as casas de madeira deram lugar à alvenaria. Rondônia virou um estado forte, vibrante. Mas, para mim, a verdadeira essência daquele lugar ficou marcada naquele domingo de chuva e barro.
A terra vermelha tingiu não só nossas roupas, mas a nossa história. E toda vez que chega a Páscoa, não importa onde eu esteja, fecho os olhos e lembro daquele cheiro de chuva misturado com barro fresco, e da certeza de que, assim como a terra precisa ser revolvida para dar frutos, a vida também nos vira do avesso para que a gente possa renascer mais forte.