O Povo Está Enfezado
Agora que dos pratos só sobram os cacos, já dá pra falar do que se aproxima.
O período mais conturbado da história do Brasil foi o encontro da sujeira com a arrogância e o deboche.
Um escândalo do mensalão parecia que tinha servido de alerta da necessidade de uma limpeza na Administração pública.
Pouco pode fazer um juiz quando lhe é apresentada uma denúncia-crime pelo Ministério Público, se não intimar o acusado para que faça a sua defesa, seja quem for: políticos, empresários, diretores de estatais, partidos políticos e até chefe da Nação.
Cabe ao juiz analisar as provas e julgar. Aí começa o dilema.
Como deve se portar o juiz para se inteirar dos fatos? Além de examinar as provas, inquirir as testemunhas e ouvir os acusados. O acusado não está obrigado a responder aos questionamentos do juiz, sendo certo que o silêncio poderá ser interpretado em seu desfavor.
Refiro-me à Lava Jato, quando uma dezena de pessoas foram condenadas. Coisa nunca vista antes no Brasil. As provas ficaram estampadas.
O caso, no entanto, se tornou emblemático. A acusação contra o presidente da república da época dos fatos. O Ministério Público afirmava que a prova era um apartamento que o presidente teria recebido a título de propina. No entanto, o referido apartamento não estava registrado em nome do acusado ou de seus familiares. Nele nunca o presidente habitou, em que pese ter feito visita quando estava em obras.
É óbvio que uma visita ou mera intenção de possuir não caracteriza fato delituoso. Já dizia o jurista italiano: “Pensiero non paga gabella” — ou seja, pensamento não paga imposto.
O juiz julgou e condenou. Houve recurso. A defesa, entre outros argumentos, alegou a imparcialidade do juiz. Nada foi acatado pelo Tribunal Recursal, que em suma firmou: “Ao tratar do mérito, o relator disse entender que provas indiretas e indícios são válidas se houver convergência entre os elementos de prova.” Por fim, o Tribunal confirmou a sentença e aumentou a pena. Teria havido um erro judicial?
O presidente foi encarcerado, bem como a corja que o acompanhava.
Expediente pra cá, recurso pra lá, falcatruas jurídicas — e um desembargador federal de plantão na madrugada acatou um pedido de habeas corpus, e o ex-presidente ganhou liberdade. Como diz o ditado: onde passa um boi passa uma boiada. Não demorou e todos os envolvidos ganharam liberdade, até que um ministro entendeu por bem anular o processo. Foi o fim da Lava Jato.
As gastanças e desvios tomaram corpo e, como disse alguém, voltaram à cena do crime.
Está aí a CPI do Crime Organizado e do INSS. Para coroar a patifaria, vem o escândalo do Banco Master. Pelo que se apresenta, não se salva ninguém. Membros dos três poderes atolados no escândalo.
E o povo, já acostumado com a roubalheira, pouco faz — por estar entediado de fazer protestos que não dão em nada.

Para justificar o título, lembro que no período colonial, a nobreza e a burguesia comiam caviar e jogavam pela janela as fezes coletadas nos penicos. Usavam perfumes para disfarçar a sovaqueira. Tudo isso deixava o povo enfezado.
Atualmente, no Brasil independente, os palácios sequer têm janelas. Apenas portas, saídas subterrâneas e exaustores para sugar a fedentina. Quanto ao povo — continua enfezado, ou seja, suportando o fedor da merda palaciana.
Pra finalizar, nas palavras de Martin Luther King Jr.:
“Pessoas oprimidas não podem permanecer oprimidas para sempre. O anseio pela liberdade eventualmente se manifesta.”
E Maquiavel, sempre atual:
“O primeiro método para avaliar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta.”
“Tornamo-nos odiados tanto fazendo o bem como fazendo o mal.”
Os donos do poder traçam metas e as realizam, salvo percalços insuperáveis.
Enfim — quem sou eu para discutir sobre quem traça metas objetivando o bem-estar social e o progresso da nação?