Forte Príncipe da Beira
Em 1994, logo após a recuperação da BR 429 (Costa Marques/Presidente Médici), conheci o Forte Príncipe da Beira. Construído na margem direita do Rio Guaporé, nas proximidades da cidade de Costa Marques, é um lugar antigo, porém somente a partir dos anos 80 ocorreu acesso por terra. Dantes, apenas navegando à jusante pelo Rio Guaporé, a partir da cidade de Vila Bela da Santíssima Trindade (MT), ou à montante, a partir de Guajará-Mirim.
Vista aérea do Forte Príncipe da Beira, às margens do Rio Guaporé.
A importância do Rio Guaporé na fixação da fronteira do Brasil com os espanhóis, ou com a Bolívia, é um capítulo à parte. Vamos ao centro da novela. O propósito era conhecer a BR 429, até Costa Marques, atravessar o Guaporé de “chata” e comprar umas quinquilharias na Bolívia e, obviamente, visitar o Forte Príncipe da Beira. Dista mais ou menos vinte quilômetros de Costa Marques. Uma estrada de chão batido conservada pelo Exército Brasileiro, que ali tem um destacamento.
Bom esclarecer quem era o Príncipe da Beira. Era nada mais nada menos que D. João VI, filho do rei de Portugal D. José I; pai de D. Pedro I e, portanto, avô de D. Pedro II. Trata-se de uma fortificação militar construída no Reinado de D. José I, sob o comando do Marquês de Pombal. Este designou D. Antônio Tavares de Rolim de Moura para construir a cidade de Vila Bela da Santíssima Trindade na divisa com a Bolívia, atualmente pertencente ao Estado de Mato Grosso.
A finalidade de tudo isso era proteger as divisas da colônia, estabelecidas pelo tratado de Madri (1750) conforme princípio jurídico do UTIS POSSIDETIS, ou seja: dono é quem detém a posse. Desta feita, o objetivo principal era confirmar a posse. Ressalte-se que pelas águas do rio Guaporé remavam tanto espanhóis quanto portugueses.
Talvez não houvesse o perigo iminente de invasão, dado que o que mais havia por ali era onças, jacarés e malária. Diga-se de passagem, que o engenheiro responsável pela construção do forte Príncipe da Beira, Domingos Sambuceti, foi vitimado pela malária. Centenas morriam acometidos pela doença.
Trata-se da maior fortificação militar portuguesa construída no Brasil, a qual foi abandonada com a proclamação da República, talvez logo após a Guerra do Paraguai. Um século depois ou mais, o Marechal Cândido Rondon o redescobriu e, na década de 80, foi revitalizado pelo então governador do Território, o Cel. Jorge Teixeira. Do contrário, seria ruínas perdidas na selva.
Mesmo no período de exploração da borracha não teve importância, dado que havia um posto de compra de seringa na foz do Rio São Domingos (Costa Marques), por onde os seringueiros se embrenhavam na floresta na busca do látex. Da mesma forma, os seringueiros subiam pelos rios São Miguel e Rio Branco, Cantuária e outros afluentes com nascedouro em Rondônia.
Atualmente é fácil chegar lá. Quanto ao caminho percorrido por D. Antônio Tavares de Rolim de Moura, muito se conta e pouco se prova. Dizem que subiu pela região do Rio da Prata e do Rio Paraguai até a altura de Cáceres, seguindo depois por terra até alcançar o Rio Guaporé. Registro o causo, mas não me comprometo. De todo modo, foi figura importante da administração colonial portuguesa e ligada à fundação de Vila Bela da Santíssima Trindade. A partir dali, alguns anos depois (1776), Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres navegou rio abaixo até a primeira corredeira e ali construiu o Forte. Já existia algo por ali, que seria o Forte Bragança, porém danificado pelas enchentes. O local é conhecido por Baía da Conceição.
Em Vila Bela, a memória antiga também repousa nos livros. O titular do cartório de registro é Ademir Baldo, guardião desses volumes que atravessaram o tempo. Se muito da história se perdeu em lendas, outra parte ainda dorme nesses registros.
Por último e derradeiro parágrafo. Quer saber mais sobre o Forte Príncipe? Vá até lá, ou então consulte www.ebooksbrasil.org, onde encontrarás o seguinte, entre muitas outras coisas: — Luiz D’Alincourt, Memória sobre a Viagem do Porto de Santos à Cidade de Cuiabá — primeira expedição terrestre de reconhecimento determinada pelo Rei de Portugal.
Talvez seja mais importante saber sobre a Malária. A malária é uma doença causada por protozoário que é transmitida principalmente pela picada da fêmea de algumas espécies de mosquitos do gênero Anopheles… entretanto, é importante lembrar que existe tratamento eficaz, seguro e é oferecido gratuitamente pelo SUS.
Quanto a D. Antônio Tavares de Rolim de Moura, foi uma figura importante da administração colonial portuguesa e deu nome, séculos depois, à cidade de Rolim de Moura, em Rondônia.
Fica o convite: sente aí na frente do computador, consulte o Dr. Google e conheça um pouco mais sobre o forte, construído com a melhor tecnologia da época e que nunca serviu para muita coisa. Atualmente é uma atração turística do Estado de Rondônia e fonte de conhecimento da história do Brasil.