A Saga do Mala sem Alça: O Espanhol Núñez Cabeza de Vaca

Pintura a óleo de Núñez Cabeza de Vaca, náufrago e esfarrapado, mas com pose arrogante na Baía de Babitonga.

No primário, além de lendas dos bandeirantes, como de Borba Gato, disseram-me que o primeiro que se atreveu atravessar território Paranaense de leste a Oeste foi o espanhol Núñez Cabeza de Vaca. O que se sabe é que em 1544 o capitão espanhol Domingo Martínez de Irala foi proclamado governador do Paraguai, após prender Núñez Cabeza de Vaca, sujeito que havia se apoderado do posto de mandatário da então espelunca que surgia à margem do Rio Paraguai a qual veio a se tornar a belíssima cidade de Asunción.

Até então não existia a província do Paraguai, tão pouco o Paraná. Tudo era terra de ninguém ou dos índios nativos e que pouco a pouco foram dizimados pelos conquistadores. Segundo Darcy Ribeiro, mais de um milhão deles existiam pelo Brasil, espalhados e agrupados e com suas culturas diversas. Em que pese o tratado de Tordesilhas ter partilhado o Novo Mundo entre portugueses e espanhóis, sem plebiscito ou audiência pública, tudo assim na mão grande, na cara dura e com as bençãos da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana, o continente americano já tinha um povo de elevada organização sócio-política, tanto é e ingenuamente, interagiram com os conquistadores. Daí, já viu. Saíram pelados com as mãos no bolso.

Nota do Veritas: Embora ensinem que Álvar Núñez Cabeza de Vaca foi o primeiro europeu a cruzar a região em 1541, a história registra a expedição do português Aleixo Garcia em 1524. Garcia percorreu o Caminho do Peabiru de Santa Catarina até os Andes, dezessete anos antes do espanhol. Já o nome “Paraguai” tem origem guarani (Para = mar/grande água, Gua = originário de, Y = água/rio, ou “rio dos Paiaguás”), e não uma homenagem a um cacique.

Cabeça de Vaca esfarrapado mas com pose na Babitonga

O Náufrago de Babitonga

O causo do momento é sobre um sujeito batizado por Alvar Nunes Cabeza de Vaca, ou simplesmente, Cabeça de Vaca. Os registros dão conta de um aventureiro conquistador que nunca conquistou nada. Explico: Sua saga de conquistador teve início na América Central, porem por lá se deu muito mal. Mesmo assim o infeliz não se deu por derrotado, pudera, era “pau mandado” da decadente nobreza e crescente burguesia espanhola abençoadas pela cúria romana e assim fez nova expedição, dessa vez para a América do Sul. Sua missão era conquistar os incas, também já dominados massacrados e espoliados pelo sanguinário Francisco Pizarro. A ideia era passar a mão na “bufunfa” usando outra estratégia.

Costeando as terras pertencentes aos portugueses chegou na parte sul, Cananeia, mas ali já tinha um Certo Bacharel, bem ambientado. Foi apalpando, foi apalpando até chegar na Baía de Babitonga, Ilha de São Francisco. Porem diz a lenda que por ali naufragou tendo perdido duas ou três naus, homens e cavalos, mas consegui se salvar nas calmas águas da baía. Outros dizem que foi na Ilha de Santa Catarina. Enquanto pensava na vida, ficou por ali conversando com os índios Carijós senhores da região, até que um dia chegou ali na praia um índio com panca de cacique, sujeito de boa lábia, tipo Silvio Santos, que “ablava espanhol, pero no mucho” e cochichou na orelha do mui ilustre Cabeça de Vaca apontando para a floresta: “mucha plata”.

De pronto Cabeza de Vaca, arregalou os olhos, consultou o mapa de Piri Reis que estava guardado no fundo do baú e após minucioso exame concluiu que poderia se apoderar da “Tierra de los Mojos”, sem ter que passar por Buenos Aires, até mesmo porque não apreciava tangos e milongas. Quanto ao baú, dizem que foi herdado por Silvio Santos evidentemente sem uma pataca no seu bojo. Mas, voltando à vaca fria, ou como queiram, ao Cabeça de Vaca; estava ele se bronzeando na prainha, lamentando o naufrágio, porém com a conversa do índio se animou. O Índio, que por sinal era um cacique mui famoso e conhecido por Paraguá, o conduziria até as minas de prata de Potosí e ao final seria bem recompensado.

O cacique tava de olho no trabuco do infeliz Cabeça de Vaca e topou no ato. Cabeça de Vaca vestiu-se, cobriu a careca com sua boina amassada, encarou a mata, e de joelhos gritou: Glória! - Daí que surgiu a Vila da Glória na Baía de Babitonga. O combinado não é caro. Paraguá reuniu tudo o que era índio que tinha por ali e, devidamente armados de tacapes e zagaias, partiram de mala e cuia. Na verdade, levavam a cuia posto que a mala era o Cabeza de Vaca, uma verdadeiro mala sem alça.

Cabeça de Vaca pendurado nas Cataratas

O Salto e o Te-rê-rê

O problema era encarar a mata. Cabeça de vaca já tinha levado uma esfrega no deserto do México, portanto estava meio “veiaco”. Topou porque o cacique disse que conhecia muito bem o caminho. Acontece que mal conhecia a trilha para “Curitiba”, a qual tinha percorrido uma vez para catar pinhão. Subira a serra, e nas nascentes do Rio Iguaçu construíram alguns caícos de garuva e se atracaram rio abaixo.

O cacique tinha ouvido dizer de um caminho conhecido por Peabiru. Mas não tinha a mínima ideia de onde começava, e muito menos onde terminava. Foi quando Cabeça se viu no mato sem cachorro, mesmo porque sequer “cusco” tinham. Havia muito cachorro do mato que Paraguá chamava de graxaim.

Quando já pensavam estarem no fim da viagem, embocaram na correnteza e despencaram nas cataratas. Foi um “Dios nos acuda”. Cabeça de Vaca, vendo novamente a viola em cacos, exclamou:

  • Salve-me Jesu Cristo, que lhe darei dez por cento de toda la plata que conquistarei!

Conseguiu se agarrar num galho de sarandi e ali ficou pendurado berrando feito bugio, balançando dois pra cá e dois pra lá; bem no estilo gauchesco. Ao seu lado estava seu fiel escudeiro “Paraguá” que, antevendo a desgraceira, pulou do barco e por sorte se agarrou numa taquara, subiu a barranca para acudir o “mala sem alça”.

Passado o susto, Cabeça de Vaca sentou-se numa pedra e ali permaneceu teso, abichornado, escutando o barulho da água. Sentiu-se tão azarado que se autodefiniu como “esgualepado”, ou seja, mal pago. Foi naquele momento de baixo astral que seu ajudante de ordens, Paraguá, catou folhas de uma planta, socou na cuia de pau, que acabara de resgatar entre as pedras, misturou com água e deu para o chefe beber e murmurou em perfeito tupi-guarani:

  • Te-Rê-Rê.

Ou seja: fica frio. Nessas alturas Cabeça de Vaca já estava engrunhido de frio e vem o desgraçado do índio dizer para ficar frio. O sangue ferveu na veia de Cabeça de Vaca, com vontade de esguelhar seu fiel escudeiro.

O Pé na Bunda e o Pinhão

Seguiram remando e perceberam que estavam em um outro rio cujo nome desconheciam. Então, em homenagem ao seu obstinado ajudante, Cabeça de Vaca denominou de Rio Paraguai. Por ele subiram até chegar numa espelunca onde encontraram alguns castelhanos. De cara foi-lhe exigida uma propina, aliás coisa normal naqueles tempos. Como não tinha nenhuma “plata”, penhorou a única ceroula que lhe restara, coisa mui útil para aquele tempo.

Foi recepcionado por um indivíduo conhecido por Mendoza. Mesmo não sabendo onde estava, Cabeça de Vaca deu uma de “João sem Braço”. Mendoza perguntou:

  • Don Nunhes Cabeça de Vaca; que quieres usted a lá cá?
  • La Plata! Donde está la plata?

Mendoza apontou para o norte e disse: “No se puede, es mui peligroso”; ao que Cabeça de Vaca retrucou: “Posso si!”. Numa bela tarde, deu de cara com uma chalana onde um sujeito com cara de poucos amigos lhe esfregou no nariz um “catatau” assinado por El Rei da Espanha e meteu um pé na bunda de Cabeça de Vaca, mandando-o à lá cria.

Para não dizer que foi um completo azarado, retornou à Espanha feito prisioneiro sob a acusação de improbidade administrativa. Ficou quinhentos e quarenta dias preso, mas depois foi libertado e teve seu processo anulado. Virou monge onde escreveu suas memórias, convicto de sua honestidade.

Moral da história: o tal Cabeza de Vaca quase deu uma volta no mundo para parar em Asunción e levar um pé na bunda. Um verdadeiro CABEÇA DE VACA.

Quanto ao Cacique Paraguá, depois dessa experiência mal sucedida decidiu dar uma parada. Tendo retornado com Cabeza de Vaca sem o direito algum, deu um jeitinho e surrupiou o trabuco que tanto sonhara. Após isso resolveu se isolar do povo de sua tribo e subiu a serra e ao chegar nas nascentes do rio Iguaçu decidiu ficar por ali. Ali havia muitos pinheiros e um rio piscoso que o denominou de Piraquara. Por ali pescava, colhia pinhões, estaqueava couro de veado e quando seus conterrâneos, os Carijós subiam a serra pela trilha de Itupava, trocava por sal, chumbo, pólvora, e agasalho para se proteger do frio. Ainda não existia a japona.

Paraguá Morreu de Velho e por óbvio, sem atestado de óbito, posto que não havia cartório de registro. De acordo com Rafael Greca, ex-prefeito de Curitiba e historiador regional, disse recentemente que a câmara de vereadores de Piraquara estará aprovando um monumento em homenagem ao índio Paraguá, que sem sombra de dúvidas foi o primeiro habitante da região. claro que ele não disse isso.