Coletânea imprimível
Alfarrábios do Adi
Memórias, causos e reflexões reunidos numa leitura contínua, pronta para o navegador virar livro.
Sumário
- O Chão de Agulhas e o Balcão dos Causos 10/02/2026
- Afinal, é Natal (ou o uso do cachimbo que entortou a boca) 12/02/2026
- Cadê o Toucinho? (ou Por Onde o Brasil Passou) 12/02/2026
- Secos e Molhados 12/02/2026
- E Assim Fizemos 13/02/2026
- A Saga do Mala sem Alça: O Espanhol Núñez Cabeza de Vaca 16/02/2026
- Por ali fui e por aqui estou: A Chegada na Amazônia 16/02/2026
- Saudosa Maloca: Retratos de uma República Esgualepada 16/02/2026
- A Sabedoria da Chiquita Banana 17/02/2026
- As Últimas Campereadas do Vovô Franquelim 17/02/2026
- Miguel e a Feira do Largo da Ordem 18/02/2026
- O Brique da Vaca 18/02/2026
- Pinceladas de História 19/02/2026
- A Final é Natal 12/03/2026
- Arestas do Tempo 12/03/2026
- Descobrindo o Brasil 12/03/2026
- Marco Zero 12/03/2026
- O Caminhãozinho de Mudança 12/03/2026
- A Lenda dos Paititis 13/03/2026
- Cabeza de Vaca 13/03/2026
- Causos do Vovô Franquelim 13/03/2026
- Cavalo Javali 13/03/2026
- Por ali fui e por aqui estou 13/03/2026
- Forte Príncipe da Beira 13/03/2026
- Marechal Cândido da Silva Rondon: O Herói Pouco Conhecido 13/03/2026
- Na Luta 13/03/2026
- O Primeiro Júri 13/03/2026
- Rondônia de Verdade 13/03/2026
- A Morte do Gerente 16/03/2026
- A Primeira Carreteada 16/03/2026
- Eleição na OAB/RO: Uma Traição em Causa Própria 16/03/2026
- Festa de Casamento 16/03/2026
- Nego Inglês 16/03/2026
- O Embalsamento 16/03/2026
- Pé de Jaca 16/03/2026
- Tudo Passa por Guarapuava 16/03/2026
- Comedor de Bananas 17/03/2026
- História do Povo Ucraniano 17/03/2026
- O Povo Está Enfezado 17/03/2026
- A Saga dos Cacaieiros 19/03/2026
- Prefácio e Intróito: Eita Lasqueira 19/03/2026
- A OAB-RO e a Advocacia Pioneira em Rolim de Moura 29/03/2026
- O Voo da TABA: quando eu troquei o Sul pela Amazônia 29/03/2026
- Páscoa na Terra Vermelha 30/03/2026
10/02/2026
O Chão de Agulhas e o Balcão dos Causos
1957. O frio das araucárias e o balcão de secos e molhados do meu pai. Entre a honra de dona Ingrácia e as brigas de bodega, aprendi sobre a justiça do…
Em 1957, o tempo no Paraná parecia ser medido pela altura dos pinheiros. Para um menino, aquelas araucárias não eram apenas árvores; eram as colunas que seguravam o céu cinzento das manhãs de geada. Eu caminhava para a escola sentindo o estalar das agulhas secas sob o sapato, um som que se misturava ao bater dos meus dentes no frio de arrepiar.
Mas o meu mundo real, a universidade onde aprendi a ler a alma dos homens, ficava no armazém de Secos e Molhados do meu pai. Ali, o movimento era constante e de um colorido que nenhum livro escolar tinha. Vinham de todo lado: uns a pé, com o pó da estrada grudado na pele; outros a cavalo, amarrando os bichos no palanque. Todos de chapéu de palha e facão pendurado na cintura, brilhando como um aviso.
Eu, guri, observava tipos como o Theodoro, viciado no baralho, e o Pedrinho Facão. Mas ninguém causou tanto bafafá quanto o João Madalena. Uma feita, ele cismou com uma faca que meu pai teria guardado. A prosa azedou e o Madalena enrolou o reio no chicote pra bater no papai. Meu pai desviou e, num reflexo, arremessou um peso de balança — um quilo de ferro — que pegou de raspão na testa do sujeito.
O sangue correu e a polícia veio. No dia seguinte, oito arruaceiros caminhavam amarrados numa corda até a delegacia. Mas a autoridade máxima ali era minha mãe, dona Ingrácia. Montada num burro manso, ela foi à frente e falou pro delegado como uma verdadeira promotora, “largando os cachorros” naqueles baderneiros. O delegado soltou a tropa, mas com um castigo pedagógico: voltaram pra casa no sol quente, a pé e sem o chapéu na cabeça.
E as histórias não paravam no balcão; seguiam até a beira da cova. Contavam na bodega que, no velório da velha Sebastiana, a paz durou pouco. Seus filhos, Manezinho e Emiliano, já não se bicavam. O Emiliano, embriagado, provocou tanto que o Manezinho perdeu o juízo, pôs-se de pé e puxou do facão em pleno velório. Para não ser retalhado, o Emiliano valeu-se do sagrado: arrancou a cruz que guarnecia o caixão da própria mãe e usou-a como escudo contra o aço do irmão.
Foi o povo do “deixa disso” que evitou o pior, e o velório prosseguiu pela madrugada, sob o olhar atravessado dos irmãos por cima do corpo da mãe. Ali, entre o peso de ferro do meu pai, a voz firme de dona Ingrácia e a cruz usada como defesa, eu fui entendendo que a vida no Paraná era um tecido feito de honra, cachaça e uma justiça que nem sempre estava nos livros, mas que todo mundo respeitava.
12/02/2026
Afinal, é Natal (ou o uso do cachimbo que entortou a boca)
Do cachorrinho de porcelana de quatro centímetros à melancolia de Assis Valente: uma reflexão sobre a saudade e as convenções do Natal.
Lembro-me bem, deveria ter uns oito anos. Ganhei do Papai Noel um bibelô de porcelana: um cachorrinho de não mais de quatro centímetros. Guardei-o por muito tempo, com aquela felicidade pura de quem acredita que o bom velhinho lembrou de nós. Ver o presépio na igreja era maravilhoso… até que a gente cresce e descobre que o presépio foi uma invenção de São Francisco de Assis e que o boi e o jumento entraram na cena só para atazanar os judeus da época.
Mas Natal é Natal. Descobri depois que Jesus não nasceu em 25 de dezembro; ninguém sabe ao certo quando foi. Em 354 d.C., o Papa Libério apenas oficializou a data para “tomar” o espaço das Saturnálias romanas e do Sol Vitorioso dos persas. Como diz o ditado: “É o uso do cachimbo que entorta a boca”.
Os cristãos mantiveram o costume de distribuir presentes, e um senhor piedoso chamado Nicolau deu início à tradição dos brinquedos. O comércio, claro, se apropriou de tudo. Hoje, Papai Noel me parece um velho bizarro, guiado por um “drone” que distribui presentes conforme a classe social do presenteado. Que saudade do meu cachorrinho de porcelana…
Felicidade é brinquedo que não tem?
Lembro-me da marchinha de Assis Valente, composta em 1932 num quarto de pensão em Icaraí:
“Anoiteceu, o sino gemeu / A gente ficou feliz a rezar / Papai Noel, vê se você tem / A felicidade pra você me dar / Eu pensei que todo mundo / Fosse filho de Papai Noel / Bem assim felicidade / Eu pensei que fosse uma / Brincadeira de papel…”
Assis Valente recorreu à sua infância pobre para escrever que, talvez, a felicidade seja um brinquedo que Papai Noel não tem para nos dar. Ele morreu com essa dúvida, mas eu guardo a lembrança do meu cachorrinho de porcelana como a prova de que, pelo menos por um instante, a felicidade coube na palma da minha mão de menino.
12/02/2026
Cadê o Toucinho? (ou Por Onde o Brasil Passou)
De Jânio a Lula, a política brasileira explicada pela brincadeira de roda: o gato comeu, o padre levou e o toucinho sumiu. Onde foi parar o Brasil?
Falarei de uma antiga brincadeira de roda:
“Cadê o toucinho daqui? — O gato comeu; Cadê o gato? — Foi pro mato. Cadê o mato? — O fogo queimou; Cadê o fogo? — A água apagou; Cadê a água? — O boi bebeu; Cadê o Boi? — Foi buscar milho. Cadê o Milho? — O padre levou. Cadê o padre? — Foi rezar missa. Então vou procurar… — Foi por aqui, foi por ali e por ali passou.”
Todos correm à busca de um esconderijo e o líder escolhido vai procurar. No caso, o padre é o grande vilão, que leva o que a pessoa tem de primário para a sobrevivência. Passa-se a vida procurando o vilão, mas o mesmo nunca é encontrado. Sabendo-se apenas que está cumprindo seu mister em um lugar qualquer.
Trazendo a brincadeira para a atualidade, o padre seria substituído pelo político. Não que sejam inúteis, mas sempre nos trazem a mensagem do progresso e do bem-estar enquanto o “toucinho” some. Cadê o dinheiro daqui? O político levou. Foi procurado e encontrado, porém a brincadeira não valeu porque o sujeito que se procurava não era aquele que foi encontrado.
O Carrossel de Presidentes
A brincadeira entrou em desuso, mas de uma coisa tenho certeza: sei que foi por ali, por aqui e por aqui passou.
Lembro de um presidente que renunciou seis meses após a posse (Jânio); de um plebiscito do sim e do não; e de um presidente deposto pelos militares, que governaram por mais de vinte anos. Tenho presente quem prometeu acabar com a corrupção e foi cassado por ser corrupto (Collor); de quem prometeu acabar com a inflação e de quem facilitou os grandes esquemas conhecidos como mensalão e petrolão.
Lembro de uma presidenta cassada, de um vice que assumiu e não renunciou. De um presidente que se elegeu no vácuo das oligarquias e não quis compartilhar as benesses. E de um presidente que foi preso, “descondenado” e eleito sabe-se lá como. Lembro de um Brasil que foi por ali, por aqui e o boi lambeu.
O Furdunço e a Aposentadoria
Recentemente, virou num “furdunço”. Muitas coisas aconteceram em nome do Estado Democrático de Direito, numa trapalhada que merece a atenção de historiadores isentos. Nomes ficarão na história com triste memória. E para coroar, o assalto aos aposentados e mais uma CPI que deu em nada pelo excesso de envolvidos — gente da “pica grossa”.
Na verdade, estou mais preocupado com a merreca da minha aposentadoria. Será que o gato comeu ou o padre levou? Por que sumiu? Dizem que o Lula está de olho nela, coisa que duvido; ele gosta de coisas mais polpudas. Mas foi por ali e por ali sumiu. Na verdade, o Lula não sabe de nada. Quem sabe é o Lulinha, a Janja e o Xandão, além de outros tantos impossíveis de nomear.
Foi por aqui, foi por ali e por ali passou…
12/02/2026
Secos e Molhados
De Barão de Cotegipe a Pato Branco: a saga de uma família gaúcha que cruzou o Rio Uruguai num Chevrolet 51 rumo ao Paraná, em 1957.
O PRÊMIO DA VIDA
Por vales e campinas,
Viagens além da colina.
Doce infância campesina.
Devaneios e sonhos de menino
Brincando com seu cachorrinho.
Que, sei lá… sumiu no caminho.
Quanta saudade do pobrezinho.
A vida segue em frente.
Tudo muda de repente.
O tempo cobra do vivente.
Mesmo forte, enérgico e bravo
O tempo bate em seu costado;
Cobra pelos serviços prestados
E certifica com comprido cajado.
Não indaga como foi o começo;
Das circunstâncias ou endereço.
Se do lado direito ou do avesso.
Apenas mede, pesa e põe preço.
TEMPOS DE ANTANHO E DE AGORA
Gosto do meu tempo. No dia 8 de fevereiro de 1950, apenas um acontecimento de relevância: eu nasci. De resto, a história registra no mesmo dia o nascimento de Júlio Verne (1828) e de James Dean (1931). Um criou a ficção científica; o outro se tornou o ícone da juventude transviada. De alguma forma, ambos me instigaram na juventude.
Mas os romances deram lugar à realidade. Saímos da pedra lascada para a era digital — a mais curta, pacífica e transformadora das eras. Ter vivido este momento ímpar da história é um privilégio. Como disse Sêneca: “O importante é viver, e viver bem”.
O homem foi à Lua, evoluiu do telefone discado para a internet, e constatou que a Terra é apenas um grão de areia azul. Não sabemos a origem de tudo, mas sabemos que temos a capacidade de raciocinar e de rir. Aprendemos a distinguir o bem do mal e que estamos aqui apenas de passagem.
O mundo de antanho era igual ao de agora; diferente era o modo de vê-lo. Hoje, vivo a vida como na canção de Frank Sinatra: “I did it my way”. Planejei cada curso, vivi cada atalho e fiz tudo do meu jeito. E foi desse “meu jeito” que, um dia, apareceu na nossa frente o caminhãozinho de mudança.
O CAMINHÃOZINHO DE MUDANÇA
Minhas recordações levam-me ao tempo da infância em Barão de Cotegipe, Rio Grande do Sul. Dos sete irmãos, eu era o quarto. Brincávamos entre arvoredos e pedregulhos de pega-pega e esconde-esconde, recitando rimas que mal entendíamos: “Guiri, guiri gaio… escampa sotto il gaio… alora fatte furbo!”. Era o som das nossas raízes italianas ditando o ritmo da brincadeira.
Do topo da nossa colina, víamos ao longe, além do vale, uma vila que era o nosso mundo dos sonhos. Imaginávamos uma igreja grande, carroças e uma bodega cheia de caramelos. Um dia, na esperança de que nossos passos fossem mais longos, calçamos as botas grandes de papai. Queríamos atravessar o vale num instante, como se tivéssemos as botas de sete léguas do Pequeno Polegar — personagem que nem conhecíamos. Nossa única história era a do Negrinho do Pastoreio.
O Navio de Noé sobre Rodas
Um dia, no começo do inverno, o anúncio: — “Vamos mudar, vamos embora!”.
O que seria “ir embora”? No dia seguinte, a resposta apareceu na forma de um Chevrolet 51, o famoso “Boca de Sapo”. Tudo foi carregado: camas, panelas, e os bichos organizados em andares. Por baixo de tudo, os porcos leitões; na traseira, num cercadinho, a vaca e o burro; e a carga subia mais alto que a própria vaca.
Nós, os seis irmãos, fomos acomodados todos embolados em cima da carga, junto com papai e o tio Ângelo — ambos de chapéu de feltro de aba curta, firmes contra o vento. A piazada ia se descabelando, de olhos arregalados pra paisagem que não acabava mais. Ninguém cantava; estávamos impressionados demais com o mundo que se abria diante de nós.
Na cabine, o chofer levava mamãe com o maninho de dois anos no colo — e mais um na barriga. O gato ficou pra trás na lenda: foi pro mato, que o fogo queimou, que a água apagou… e por ali sumiu.
A Travessia do Rio Uruguai
O primeiro grande desafio foi cruzar o Rio Uruguai numa balsa de madeira. O rio era largo, e todos ficamos em cima do caminhão durante a travessia, vendo as águas passarem devagar sob o peso da nossa vida inteira. A balsa era segura, mas pra um guri de sete anos, ver aquela imensidão de água era de tirar o fôlego.
No rio, avistamos balsas de toras de madeira descendo a correnteza. Disseram que aquela madeira ia para a Argentina e de lá cruzava o oceano de navio até a Europa. O mundo estava ali, passando diante dos nossos olhos, em forma de árvores gigantes flutuando rumo ao desconhecido.
A Pousada em Xanxerê e o Assombro da Luz
Quando a noite caiu, chegamos em Xanxerê. Foi um assombro: casas com luzes que não eram velas nem lamparinas. Papai explicou que era a tal da luz elétrica.
No hotel, o luxo era modesto mas impressionante pra quem vinha da roça: uma jarra com água, uma bacia para o asseio, e o conhecido pinico esmaltado debaixo da cama. Dormimos igual pedra. O cansaço de um dia inteiro levando sacolejo em cima da carga venceu qualquer novidade.
Pato Branco e a Procissão dos Fogos
Partimos com o clarear do dia, atravessando descampados cobertos de geada. O frio era cortante, mas íamos enrolados nos acolchoados de penas de galinha. Em algum momento, o vento arrancou o chapéu da cabeça do tio Ângelo — e lá se foi, rodopiando pela estrada.
Era 29 de junho de 1957, dia de São Pedro. Chegamos a Pato Branco em meio a uma procissão, com fogos de artifício que faziam os cachorros ganirem e o burro agitar as orelhas. Eu tinha sete anos e sentia o coração bater forte diante daquela multidão. Mas logo a cidade ficou para trás e o Chevrolet 51 se embrenhou na mata sombreada pelos pinheiros.
O Rancho de Tábuas e o Mutirão
Por volta da meia tarde, chegamos ao destino final: um rancho de tábuas lascadas do tio Eurico, que mal coube a pouca mobília. Era o começo de tudo no Paraná.
Para limpar a capoeira e plantar, papai organizou um mutirão. Ver vinte peões com foices gritando “Auia!” e ouvindo o “vapete-vapete” do mato caindo era uma música rústica. O pagamento? Um fandango na semana seguinte: moças perfumadas, homens com brilhantina no cabelo, e o som da gaita e do pandeiro correndo a madrugada.
A Bodega

Mas o meu mundo real, a universidade onde aprendi a ler a alma dos homens, ficava no armazém de Secos e Molhados do meu pai. Ali, o movimento era constante e de um colorido que nenhum livro escolar tinha. Pessoas vinham de todo lado: uns a pé, com o pó da estrada grudado na pele; outros a cavalo, suados pelo galope. Todos de chapéu de palha e facão pendurado na cintura — instrumento inseparável tanto na lida, quanto para impor respeito.
Eu, guri, observava tipos como o Theodoro, viciado no baralho, e o Pedrinho Facão, sempre alegre contando lorotas. Mas ninguém causou tanto bafafá quanto o João Madalena.
Ninguém sabia de sua origem. Por ali chegara, montado em um cavalo bem encilhado, com uma mulher e dois filhos, e se acomodou num rancho já abandonado pelo Velho Moisés, que regatava seu dinheirinho com empreitadas lascando tabuinhas de pinheiro para construção de casas.
João Madalena, seguidamente comparecia na bodega mais para tomar um trago do que para fazer alguma compra. Uma feita, já noitezinha, João Madalena solicitou ao papai que lhe entregasse um punhal que havia depositado na chegada, conforme o costume. Papai, sabendo que ele não havia depositado faca alguma, mesmo assim esforçou-se e procurou o dito punhal. Entreguei, não entregou — e a prosa azedou. João Madalena foi enrolando a açoiteira no cabo, em claro sinal que se preparava para um ataque. Papai se preveniu pondo a mão no peso da balança de um quilo e, quando João ergueu o braço, papai se afastou por puro instinto de defesa e arremessou o peso que pegou de raspão na testa do sujeito.
Foi aquele ba-fa-fá. Uns correram, outros acudiram o homem desmaiado, tido como morto. De pronto as portas foram fechadas e nós corremos para o sótão, tremendo de medo, ouvindo os murmúrios lá fora. O homem estava vivo — apenas com um pouco de sangue. Montaram em seus cavalos e sumiram na escuridão.
Não demorou e ouviu-se o tropel que parou em frente à bodega. Alguém gritou: — Abre a porta senão vamos arrombar na bala!
Nós em pânico, porém sem um choro — quase estáticos. Mamãe viu quando papai empunhou o revólver e foi para o lado da porta. Disse: — Eu abro, mas derrubo uns três, quatro. Papai era bom de tiro.
Num golpe de sorte e de coragem, mamãe tomou a arma da mão dele enquanto com a outra mão abria a porta. A porta foi se abrindo e ela calçou no revólver dizendo:
— Atirem, seus covardes!

Houve entre eles alguém de bom senso que pediu aos demais que não investissem: — É uma mulher!
Mesmo assim fizeram papai prisioneiro, sob a garantia e proteção de um de confiança. E lá se foram na escuridão, dizendo que iam para a delegacia.
Mamãe disse: — Essa tropa de bêbados não vai a delegacia alguma. Vão para seus ranchos — e de pronto. Montou num burro manso, e o guri mais velho num cavalo emprestado, e partiram noite adentro rumo à autoridade. Era meia-noite quando acordaram o delegado.
De pronto ele chamou sua escolta de não mais de cinco soldados e partiram. Na madrugada cercaram o rancho. Todos se entregaram sem resistência.
Ali era apenas uma subdelegacia, sendo que a mais próxima distava cinquenta quilômetros. O delegado chamou papai e mamãe num particular:
— O que faço com eles, que nem cadeia existe aqui? No mais, nem correu sangue — apenas ferimento leve. Vou ter que liberá-los.
Eles concordaram, porém antes desejavam explicar o causo aos meliantes. Mamãe se adiantou feito promotora e soltou os cachorros. Todos cabisbaixos e envergonhados pediram mil perdões. Em seguida, mais comedidamente, papai se pronunciou:
— Seu delegado, esses sujeitos devem receber alguma punição que sirva de exemplo para que não repitam mais esses atos.
O delegado declarou solenemente:
— Todos estão liberados, mas proibidos de frequentar bodega por 30 dias. Mais: voltem agora para suas casas, a pé e no sol quente.
E chamou um soldado: — Acompanhe esses indivíduos até fora da vila. E não me afronte mais, que o castigo será outro.
Velório da Velha Sebastiana
As histórias não se davam só no balcão — seguiam pelas carreiradas e velórios até a beira da cova. Contavam na bodega que, no velório da velha Sebastiana, a paz durou pouco. Seus filhos, Manezinho e Emiliano, já não se bicavam. Emiliano, embriagado, provocou tanto que Manezinho perdeu o juízo. Pôs-se de pé e puxou do facão em pleno velório. Para não ser retalhado, o Emiliano valeu-se do sagrado: arrancou a cruz que guarnecia o caixão da própria mãe e usou-a como escudo, protegendo-se do facão que reluzia naquele lusco-fusco.
O povo se espantou, saindo porta a fora — e até pela janela. Aí vieram os mais corajosos e do “deixa disso”, evitando assim o pior. O velório prosseguiu pela madrugada, sob o olhar atravessado dos irmãos por cima do corpo da falecida.
O Rabo-de-Tatu
De outra feita, Emiliano provocou um cunhado chamando-o de ladrão de cano de fogão. O cunhado, que não era flor que se cheirasse, munido do rabo-de-tatu, desceu o mango que fez um estrago na paleta. Emiliano com o lombo ardido continuou:
— Ladrão, sem vergonha!
E lá se foi mais um laçaço, retrucando:
— Podem me chamar de ladrão, mas não de sem vergonha!
Mas logo tudo se acalmou e, como já era tardinha, todos se retiraram para suas casas — exceto Emiliano, que na tentativa de aliviar as dores pediu que lhe massageassem com cachaça. Fizeram. Mas aí o berro foi maior.
Nas arestas do tempo,
Nas dobras do vento,
Na memória distante,
No agora, no instante;
Vejo lutando ao relento
Sem trégua e lamentos,
Míticos sábios arcontes;
Na busca do gene e da fonte.
Nas longas jornadas ardentes,
O mundo nunca foi diferente.
Trilhas e caminhos estreitos,
Mar, terra, rios e montes;
Desertos, floras e fontes.
Antes nada havia.
Do nada, a luz.
13/02/2026
E Assim Fizemos
Um manifesto sobre a ocupação e a construção de Rondônia.
E ASSIM FIZEMOS: O MANIFESTO DE RONDÔNIA
O Território Federal de Rondônia tornou-se Estado em 1982, mas sua alma é muito mais antiga. Ela vem do Forte Príncipe da Beira, da Ferrovia Madeira-Mamoré, da Linha Telegráfica de Rondon e do suor dos Soldados da Borracha. Passa pela abertura da estrada Cuiabá-Porto Velho feita por Juscelino e pelos assentamentos do INCRA nos anos 70.
De mata inóspita, transformou-se em terra produtiva com suor e lágrimas. Milhões de metros cúbicos de madeira foram exportados, o mogno em destaque. Nosso legado é a conquista de um espaço para plantar, colher e bem viver. Rondônia talvez seja a parte mais privilegiada da Amazônia, com terras férteis, água em abundância e relevo favorável.
ENTRE ERROS E ACERTOS: O PIONEIRO E O FOGO
O migrante não foi chamado pra fazer agricultura sintrópica; foi necessário o uso do fogo para abrir caminho. Foi um esforço hercúleo muitas vezes depreciado por ecologistas radicais. Em trinta anos, a população subiu, o Brasil se alargou e formou uma sociedade ímpar, orgulhosa de sua epopeia.
Floresceu um Estado com menor incidência de pobreza e ótima distribuição de renda. Destacam-se a pecuária com mais de 12 milhões de cabeças, a piscicultura com espécies nativas e a cafeicultura orgânica premiada. Agora começa a agricultura extensiva de alta tecnologia.
Rondônia é a luta de um povo chamado pelo Brasil para integrar a selva sem entregar. E assim fizemos.
A VOZ DOS PIONEIROS
Como diz o hino: “Nós, os bandeirantes de Rondônia nos orgulhamos de tanta beleza…”. Os comentários de José Lopes, Silvana Gomes e Francisco Pinto confirmam: foi com saudades e sofrimentos que construímos Rondônia para todos.
16/02/2026
A Saga do Mala sem Alça: O Espanhol Núñez Cabeza de Vaca
A épica e irônica jornada do conquistador espanhol que naufragou em Santa Catarina, descobriu as Cataratas e terminou penhorando a ceroula em Asunción.
No primário, além de lendas dos bandeirantes, como de Borba Gato, disseram-me que o primeiro que se atreveu atravessar território Paranaense de leste a Oeste foi o espanhol Núñez Cabeza de Vaca. O que se sabe é que em 1544 o capitão espanhol Domingo Martínez de Irala foi proclamado governador do Paraguai, após prender Núñez Cabeza de Vaca, sujeito que havia se apoderado do posto de mandatário da então espelunca que surgia à margem do Rio Paraguai a qual veio a se tornar a belíssima cidade de Asunción.
Até então não existia a província do Paraguai, tão pouco o Paraná. Tudo era terra de ninguém ou dos índios nativos e que pouco a pouco foram dizimados pelos conquistadores. Segundo Darcy Ribeiro, mais de um milhão deles existiam pelo Brasil, espalhados e agrupados e com suas culturas diversas. Em que pese o tratado de Tordesilhas ter partilhado o Novo Mundo entre portugueses e espanhóis, sem plebiscito ou audiência pública, tudo assim na mão grande, na cara dura e com as bençãos da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana, o continente americano já tinha um povo de elevada organização sócio-política, tanto é e ingenuamente, interagiram com os conquistadores. Daí, já viu. Saíram pelados com as mãos no bolso.
Nota do Veritas: Embora ensinem que Álvar Núñez Cabeza de Vaca foi o primeiro europeu a cruzar a região em 1541, a história registra a expedição do português Aleixo Garcia em 1524. Garcia percorreu o Caminho do Peabiru de Santa Catarina até os Andes, dezessete anos antes do espanhol. Já o nome “Paraguai” tem origem guarani (Para = mar/grande água, Gua = originário de, Y = água/rio, ou “rio dos Paiaguás”), e não uma homenagem a um cacique.

O Náufrago de Babitonga
O causo do momento é sobre um sujeito batizado por Alvar Nunes Cabeza de Vaca, ou simplesmente, Cabeça de Vaca. Os registros dão conta de um aventureiro conquistador que nunca conquistou nada. Explico: Sua saga de conquistador teve início na América Central, porem por lá se deu muito mal. Mesmo assim o infeliz não se deu por derrotado, pudera, era “pau mandado” da decadente nobreza e crescente burguesia espanhola abençoadas pela cúria romana e assim fez nova expedição, dessa vez para a América do Sul. Sua missão era conquistar os incas, também já dominados massacrados e espoliados pelo sanguinário Francisco Pizarro. A ideia era passar a mão na “bufunfa” usando outra estratégia.
Costeando as terras pertencentes aos portugueses chegou na parte sul, Cananeia, mas ali já tinha um Certo Bacharel, bem ambientado. Foi apalpando, foi apalpando até chegar na Baía de Babitonga, Ilha de São Francisco. Porem diz a lenda que por ali naufragou tendo perdido duas ou três naus, homens e cavalos, mas consegui se salvar nas calmas águas da baía. Outros dizem que foi na Ilha de Santa Catarina. Enquanto pensava na vida, ficou por ali conversando com os índios Carijós senhores da região, até que um dia chegou ali na praia um índio com panca de cacique, sujeito de boa lábia, tipo Silvio Santos, que “ablava espanhol, pero no mucho” e cochichou na orelha do mui ilustre Cabeça de Vaca apontando para a floresta: “mucha plata”.
De pronto Cabeza de Vaca, arregalou os olhos, consultou o mapa de Piri Reis que estava guardado no fundo do baú e após minucioso exame concluiu que poderia se apoderar da “Tierra de los Mojos”, sem ter que passar por Buenos Aires, até mesmo porque não apreciava tangos e milongas. Quanto ao baú, dizem que foi herdado por Silvio Santos evidentemente sem uma pataca no seu bojo. Mas, voltando à vaca fria, ou como queiram, ao Cabeça de Vaca; estava ele se bronzeando na prainha, lamentando o naufrágio, porém com a conversa do índio se animou. O Índio, que por sinal era um cacique mui famoso e conhecido por Paraguá, o conduziria até as minas de prata de Potosí e ao final seria bem recompensado.
O cacique tava de olho no trabuco do infeliz Cabeça de Vaca e topou no ato. Cabeça de Vaca vestiu-se, cobriu a careca com sua boina amassada, encarou a mata, e de joelhos gritou: Glória! - Daí que surgiu a Vila da Glória na Baía de Babitonga. O combinado não é caro. Paraguá reuniu tudo o que era índio que tinha por ali e, devidamente armados de tacapes e zagaias, partiram de mala e cuia. Na verdade, levavam a cuia posto que a mala era o Cabeza de Vaca, uma verdadeiro mala sem alça.

O Salto e o Te-rê-rê
O problema era encarar a mata. Cabeça de vaca já tinha levado uma esfrega no deserto do México, portanto estava meio “veiaco”. Topou porque o cacique disse que conhecia muito bem o caminho. Acontece que mal conhecia a trilha para “Curitiba”, a qual tinha percorrido uma vez para catar pinhão. Subira a serra, e nas nascentes do Rio Iguaçu construíram alguns caícos de garuva e se atracaram rio abaixo.
O cacique tinha ouvido dizer de um caminho conhecido por Peabiru. Mas não tinha a mínima ideia de onde começava, e muito menos onde terminava. Foi quando Cabeça se viu no mato sem cachorro, mesmo porque sequer “cusco” tinham. Havia muito cachorro do mato que Paraguá chamava de graxaim.
Quando já pensavam estarem no fim da viagem, embocaram na correnteza e despencaram nas cataratas. Foi um “Dios nos acuda”. Cabeça de Vaca, vendo novamente a viola em cacos, exclamou:
- Salve-me Jesu Cristo, que lhe darei dez por cento de toda la plata que conquistarei!
Conseguiu se agarrar num galho de sarandi e ali ficou pendurado berrando feito bugio, balançando dois pra cá e dois pra lá; bem no estilo gauchesco. Ao seu lado estava seu fiel escudeiro “Paraguá” que, antevendo a desgraceira, pulou do barco e por sorte se agarrou numa taquara, subiu a barranca para acudir o “mala sem alça”.
Passado o susto, Cabeça de Vaca sentou-se numa pedra e ali permaneceu teso, abichornado, escutando o barulho da água. Sentiu-se tão azarado que se autodefiniu como “esgualepado”, ou seja, mal pago. Foi naquele momento de baixo astral que seu ajudante de ordens, Paraguá, catou folhas de uma planta, socou na cuia de pau, que acabara de resgatar entre as pedras, misturou com água e deu para o chefe beber e murmurou em perfeito tupi-guarani:
- Te-Rê-Rê.
Ou seja: fica frio. Nessas alturas Cabeça de Vaca já estava engrunhido de frio e vem o desgraçado do índio dizer para ficar frio. O sangue ferveu na veia de Cabeça de Vaca, com vontade de esguelhar seu fiel escudeiro.
O Pé na Bunda e o Pinhão
Seguiram remando e perceberam que estavam em um outro rio cujo nome desconheciam. Então, em homenagem ao seu obstinado ajudante, Cabeça de Vaca denominou de Rio Paraguai. Por ele subiram até chegar numa espelunca onde encontraram alguns castelhanos. De cara foi-lhe exigida uma propina, aliás coisa normal naqueles tempos. Como não tinha nenhuma “plata”, penhorou a única ceroula que lhe restara, coisa mui útil para aquele tempo.
Foi recepcionado por um indivíduo conhecido por Mendoza. Mesmo não sabendo onde estava, Cabeça de Vaca deu uma de “João sem Braço”. Mendoza perguntou:
- Don Nunhes Cabeça de Vaca; que quieres usted a lá cá?
- La Plata! Donde está la plata?
Mendoza apontou para o norte e disse: “No se puede, es mui peligroso”; ao que Cabeça de Vaca retrucou: “Posso si!”. Numa bela tarde, deu de cara com uma chalana onde um sujeito com cara de poucos amigos lhe esfregou no nariz um “catatau” assinado por El Rei da Espanha e meteu um pé na bunda de Cabeça de Vaca, mandando-o à lá cria.
Para não dizer que foi um completo azarado, retornou à Espanha feito prisioneiro sob a acusação de improbidade administrativa. Ficou quinhentos e quarenta dias preso, mas depois foi libertado e teve seu processo anulado. Virou monge onde escreveu suas memórias, convicto de sua honestidade.
Moral da história: o tal Cabeza de Vaca quase deu uma volta no mundo para parar em Asunción e levar um pé na bunda. Um verdadeiro CABEÇA DE VACA.
Quanto ao Cacique Paraguá, depois dessa experiência mal sucedida decidiu dar uma parada. Tendo retornado com Cabeza de Vaca sem o direito algum, deu um jeitinho e surrupiou o trabuco que tanto sonhara. Após isso resolveu se isolar do povo de sua tribo e subiu a serra e ao chegar nas nascentes do rio Iguaçu decidiu ficar por ali. Ali havia muitos pinheiros e um rio piscoso que o denominou de Piraquara. Por ali pescava, colhia pinhões, estaqueava couro de veado e quando seus conterrâneos, os Carijós subiam a serra pela trilha de Itupava, trocava por sal, chumbo, pólvora, e agasalho para se proteger do frio. Ainda não existia a japona.
Paraguá Morreu de Velho e por óbvio, sem atestado de óbito, posto que não havia cartório de registro. De acordo com Rafael Greca, ex-prefeito de Curitiba e historiador regional, disse recentemente que a câmara de vereadores de Piraquara estará aprovando um monumento em homenagem ao índio Paraguá, que sem sombra de dúvidas foi o primeiro habitante da região. claro que ele não disse isso.
16/02/2026
Por ali fui e por aqui estou: A Chegada na Amazônia
O relato emocionante da travessia de Curitiba até Rondônia em 1982: o voo da TABA, os atoleiros e o início da vida em Cacoal e Rolim de Moura.
Era o ano de 1982. Concluída a faculdade, era imperioso procurar um lugar para iniciar a vida. O Paraná já se mostrava saturado de bacharéis. Não havia como pensar em concursos. De origem humilde, devia prover o próprio sustento e era quase impossível se preparar para um concurso. No mais, a idade exigia que se buscasse a autonomia. Deveria existir um lugar para exercer a profissão livre de tanta concorrência.
Um ano de estágio em escritório de advocacia foi o suficiente para entender que a luta seria aguerrida. Com palpites de terceiros, fé e coragem, decidi que fosse conforme os desígnios do Arquiteto do Universo. Rondônia estava no auge da migração de todas as partes do Brasil. Decidi: é pra lá que eu vou! Mas onde? Alguém que nunca havia saído do burburinho da Rua das Flores aconselhou-me: — Vá para Cacoal. Não sei onde fica, mas tenho um amigo que foi pra lá.
Pareceu-me uma boa ideia. Pelo menos tinha uma referência. Fazer a mala e partir.
A Grande Travessia
Em março de 1982, parti de Curitiba com uma mala e uns pacotes. De um só lance, a Viação Andorinha, partindo de Maringá, atravessou o cerrado matogrossense. Uma viagem um tanto monótona. Por vezes a paisagem era quebrada pela presença de seriemas, casebres, barracas de lona e tratores que já começavam a rasgar o cerrado. Foram 24 horas de viagem até Cuiabá.
Descendo do ônibus e procurando me localizar, vislumbrei um anúncio: PASSAGENS PARA CACOAL. Que bom! Está fácil. — Moço, uma passagem para Cacoal. — Terás que aguardar até que o ônibus que vem de lá chegue. — E quanto tempo devo aguardar? — Bem, faz quinze dias que ele não chega. — Então não tem ônibus!? — Tem sim, é só não ter pressa.
Foi uma ducha de água fria despejada em meu corpo suado, cansado e empoeirado. Era uma outra realidade. Tinha ônibus, mas, ao mesmo tempo, não tinha. Alguém aconselhou: “Daqui pra frente só de avião”. Quem está no barro tem que se enlamear.
Após conhecer algumas particularidades da região, consegui uma vaga no voo semanal da TABA (Transportes Aéreos da Bacia Amazônica). Uma aeronave do tempo da guerra. Talvez tivesse cumprido algumas missões jogando bombas sobre redutos nazistas ou transportando o brigadeiro Eduardo Gomes. Bimotor, dezesseis lugares. Todos os passageiros acomodados em assentos espremidos por malas, caixotes e bugigangas. Até uma gaiola com um filhote de cão de caça e outros bichos.
O avião partiu às 14:30 horas. O tempo estava bom. Da janelinha dava para contemplar o infinito da floresta e por vezes sumíamos entre as nuvens encasteladas. Por volta das cinco da tarde a nave aterrissou na cidade de Pimenta Bueno. A pista era um lamaçal ladeado pela floresta. Restavam 50 quilômetros para o destino final.
Ali mesmo na pista apareceram táxis. Lotamos um Fusca e partimos. O taxista alertou que havia atoleiros no Riozinho e teríamos que passar por dentro da aldeia indígena: era necessário pedir autorização do cacique. Já era noite, o motorista desceu e foi um momento de tensão. Retornou com permissão para passar. Parece que naquele dia o cacique estava de bom humor (via de regra, um litro da boa).
Finalmente, Cacoal. Nem parecia ser uma cidade. Chovia e tudo estava escuro, exceto a varanda de um hotel: “Hotel Decolares”. Janta, pernoite e café da manhã. Dia 22 de março de 1982. O bom da história é que o dinheiro acabou. Não furei o teto orçamentário, contudo, foi necessário cortar algumas despesas.
O Início da Lida
Clareou o dia e fui em busca da única referência que tinha daquele lugar. Como se apresentar? Assim: com a cara e a Coragem. O sujeito, dono de serraria, recebeu-me muito bem, conforme os costumes. Forasteiro tem que ser tratado com o pisca de alerta. Em seguida, apresentou-me a um advogado paraibano. Fato foi que, às oito horas da manhã, eu estava acomodado em seu escritório.
Estava tudo certo. Ali era o fim da picada. Só faltava dinheiro para comer e lugar para dormir. Postado na porta do escritório, veio-me na lembrança a história de “Cabeça de Vaca”. Ele sentado na pedra bruta, atordoado com o barulho das águas do Rio Iguaçu, ouviu o conselho do cacique carijó: Tererê. Fica frio.
A questão agora era não querer ser chefe da corrutela. Teria que conviver com os aventureiros que permeavam o ambiente. Ali a regra era cada qual por si e Deus por todos. Com efeito, tudo era começo e nada melhor que seguir o protocolo. União para abrir uma picada, derrubar a mata, construir barracos e pinguelas e velar os mortos. Tudo era compartilhado.
Capixabas, paranaenses, nordestinos e gaúchos, todos plantando o que conheciam. Carne de paca, de mateiro e tatu. Peixe frito ou ensopado com macaxeira. Malária e Leishmaniose. Escolas pau-a-pique, transportes pau-de-arara. Enfim, foi um ano de conhecimento e resiliência. Era necessário acreditar.
Integrar para não Entregar: E Assim Fizemos
Rondônia é o resultado da luta de um povo, chamado que foi pelo Brasil para ocupar e transformar a selva em ambiente de produção e cultura. Sua história é vasta: vai do Forte Príncipe da Beira (1770), passa pela Ferrovia Madeira-Mamoré (1900), pela Linha Telegráfica do Marechal Rondon (1910) e pelos Soldados da Borracha. Getúlio Vargas criou o Território Federal do Guaporé em 1943, e Juscelino abriu a estrada Cuiabá-Porto Velho em 1959.
Tudo foi feito com suor e lágrimas. De mata inóspita, transformou-se em terra produtiva. O migrante não foi chamado para fazer agricultura sintrópica; foi necessário o uso do fogo para a retirada da mata. Entre erros e acertos, foi construído um ambiente de paz e prosperidade. Um esforço hercúleo, por vezes minimizado por visões externas, mas que resultou na conquista de um espaço para plantar, colher e bem viver.
Em trinta anos, uma população de cerca de trezentos mil subiu para mais de dois milhões. Aqui o Brasil se alargou e se irmanou. Floresceu um Estado com a segunda melhor distribuição de renda e o melhor índice de transparência do Brasil. Destaca-se a pecuária, a piscicultura com espécies nativas e a cafeicultura orgânica premiada.

Como diz o nosso hino: “Nós, os bandeirantes de Rondônia, nos orgulhamos de tanta beleza. Somos brasileiros desta fronteira de nossa Pátria. Rondônia trabalha febrilmente… A orquestração empolga toda gente”.
E assim fizemos.
Ecos da Fronteira (Comentários de Amigos e Pioneiros)
Jose Lopes de Oliveira: “Parabéns, meu querido colega destemido pioneiro, pela lucidez e reconhecimento da importância do suor e também lágrimas derramadas por todos que regaram e fertilizaram essa abençoada porção do território nacional.”
Silvana Gomes de Andrade: “E assim fizemos. Muito bem lembrada a história desse povo, Dr. ADI.”
Francisco Pinto Sales: “O amigo faz uma bela análise de nossa ocupação, desenvolvimento e redenção. Rondônia foi, é e será sempre nossa casa. A custa de muitas saudades, tristezas e sofrimentos conseguimos, nós pioneiros de todas as partes e cantos do Brasil, construir uma Rondônia para todos.”
16/02/2026
Saudosa Maloca: Retratos de uma República Esgualepada
Do encontro da Família Baldo ao retrato afiado da República: memórias, política e a sabedoria de quem viu o Brasil mudar sem nunca perder a esperança.
Saudosa Maloca
Em novembro de 2017 viajamos. Curitiba e sudoeste do Paraná. Ver parentes é muito bom. Já havíamos ido outras vezes, mas desta vez era um evento especial: o 2º Encontro da Família Baldo. Gente com parentesco distante estavam lá. Até o Padre era da família. Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rondônia, Maranhão. Mais de 300.
A origem: imigrantes italianos do final do século dezenove. Todos vindo do norte da Itália — Bassano del Grappa, Marostica e Vicenza. Para o encontro somente compareceram os mais folgados. Era o mês de novembro e muitos não puderam comparecer por conta de suas atividades. O encontro foi promovido pelos tataranetos dos imigrantes Luigi e Domenico; bisnetos de Antônio, e netos de Ângelo Baldo, Nilson e Ivoni, e o neto de José Baldo, Valdorino Baldo. Outros encontros foram promovidos em 2018 na cidade de Descanso, Santa Catarina. Outro encontro estava agendado para a cidade de Pato Branco, que não ocorreu em razão da pandemia.
Por outro lado, em 2018 o cenário político estava complicado. A derrubada de Dilma e os esquemas de corrupção incomodavam. Lula estava preso. Política era uma palavra proibida. Afinal não se pode falar de corda em casa de enforcado. Nós cidadãos comuns estamos acima de qualquer suspeita, portanto, segue o baile. O lado bom é que o Corinthians foi campeão. Em seguida veio Papai Noel e de “saco cheio”.
Retratos da República

Pois, pois. E como foi 19, 20, 21 e 22? Diria nem te conto, mas um mínimo deve ser lembrado.
O ex-presidente que estava preso foi solto. Tudo foi bem arquitetado. Em 15 de abril de 2021 o STF aplicou o jeitinho brasileiro e anulou o processo. E não houvera de ver que lhe foi permitido disputar a presidência da República. Foi de tirar o pica-pau do oco.
Em 2018, coisa que ninguém imaginava, um deputado federal já cansado de gritar sozinho no parlamento se candidatou e foi eleito presidente. Apesar de ter levado uma facada que o colocou no bico do urubu. Venceu e tomou posse em janeiro de 2019. Gerou grandes expectativas e inconformismos.
De acordo com os especialistas midiáticos o Brasil ficou politicamente polarizado. Grandes novidades, diria alguém com desdém. Isso já aconteceu em 1929, 1934, 1954, 1964, 1984. A panela sempre esteve fervendo; o problema é que quem está de fora só percebe quando alguém levanta a tampa ou o caldo entorna.
Os Pais da República
Presidentes com perfil fora da curva houveram vários. Desde que me conheço por gente, o Brasil é assim: cheio de altos e baixos.
Juscelino fez o Brasil explodir em crescimento. Construiu Brasília e iniciou a interiorização do Brasil com a abertura de estradas como Belém-Brasília e Cuiabá-Porto Velho. Asfaltou a BR 116, incentivou a industrialização, porém a dívida que já era grande se transformou em um valor meramente contábil. Dizem as más línguas que o que foi roubado na construção de Brasília dava para construir outra. O que vale mesmo é o potencial de riquezas. O Brasil é rico, mas o povo é pobre.
Jânio Quadros. 1960. Fenômeno de votos. Condecorou Che Guevara, proibiu briga de galo, corrida de cavalos e renunciou após seis meses. Motivo: “Forças Ocultas”. Todos sabem o motivo, mas ninguém quer falar. A corrupção do parlamento e falta de governança.
Tomou posse o vice, João Goulart, que foi deposto em 31 de março de 1964 pelos militares. Motivo: namoro com o comunismo. A polarização de 64 foi um momento oportuno para intervenção militar.
Lembrando que a República foi um golpe militar contra o imperador que já estava gagá e o risco era o Brasil ser comandado por seu genro, francês e militar antipático, arrogante e prepotente, chamado Conde d’Eu, marido da princesa Isabel. Seu nome: Gastão de Orléans. Com isto o Brasil gastou uma boa grana a título de indenização à família do Imperador.
Os Anos de Chumbo
Em 1964 vieram os militares. Digamos que fizeram um planejamento estratégico, porém para manterem a ordem foi decretada a suspensão dos direitos políticos. Caça a guerrilheiros e opositores do governo. Foi um esparramo. Mortes e exílio. Direcionamento da imprensa e a Copa do Mundo abafaram muita coisa. Lembrar que no subsolo da política havia um cérebro pensante: Golbery do Couto e Silva. Seu nome e sua história ainda há que ser contada. Por hora não passa dum vilão, Chefe do SNI, ou “Ministério do Silêncio”, como denominado pelo próprio Golbery.
Finalmente, em 1984 o militarismo chegou ao fim. Foi eleito indiretamente pelo Congresso Nacional Tancredo Neves, que morreu antes de tomar posse, vítima de uma diverticulite. Estava bem velhinho, apenas 75 anos.
Assumiu o vice, José Sarney, e a inflação ficou acima de 80%, além de outras coisas mais, relativas ao seu patrimônio e sua veia poética, notadamente Marimbondos de Fogo. Dizem que o título deveria se chamar “Marimbondos no Roubo”. Foi até admitido na Academia Brasileira de Letras.
Em 1988, nova Constituição. A Constituição Cidadã, que graças às permissões de emendas, logo, logo foram apresentadas adrede. Todos com os mesmos direitos, onde ser pobre ou rico é uma mera questão de escolha. Misteriosamente poucas pessoas optaram pela riqueza.
O Caçador de Marajás
Em 1990 tomou posse Fernando Collor, o Caçador de Marajás. O povo com as esperanças renovadas. Novo plano econômico e a grana foi confiscada. Todo o dinheiro restante depositado em bancos no país ficou retido pelo governo. Ao mesmo tempo em que confiscou o dinheiro, o Plano Collor congelou os preços de bens, serviços e salários. Deu no que deu. Collor foi cassado em 1992 pelo Congresso Nacional sob acusação de corrupção. Somente em 2014 é que o STF teve tempo para julgar o mérito e o inocentou por falta de provas.
Do Plano Real ao Sindicalista
Assumiu o vice. Vice-Presidente serve pra isso. Itamar Franco lançou um novo plano econômico: o Plano Real. Com isso seu ministro da economia, Fernando Henrique, foi eleito e reeleito. Era um socialista amante do capital. Criou o microcrédito ou crédito solidário, tudo inspirado no indiano que estudou economia na Inglaterra e passou a financiar uma fabricante de balaios. O povo que já era pobre ficou endividado e sem condições de comprar remédios.
A solução encontrada foi eleger um sindicalista. O cara queria ser presidente e conseguiu. Assumiu prometendo que nenhum brasileiro jamais passaria fome. Assim, começou a dar esmolas para o povo. Pagou a dívida que o Brasil tinha com o FMI, aumentando a dívida interna. Mesmo assim se reelegeu. A desgraça foi a descoberta do Pré-sal. Facilitou a abertura de faculdades particulares e financiou os estudantes, só esqueceu de financiar e preparar professores. Houve o estouro da bolha financeira, mas o presidente disse que era só uma “marolinha”. Tão pequena quanto suas verdades.
Mesmo assim o povo acreditou e elegeu uma mulher do seu partido e depois a reelegeu. Deu no que deu. Foi cassada pelo Congresso e assumiu o vice. Vice serve pra isso. O motivo da cassação ninguém ficou sabendo. Só sabemos que foi assim. Justiça seja feita com a “presidenta”: construiu estádios, fez muitas obras nos países vizinhos, além de ter estocado vento e saudado à mandioca. O Brasil perdeu de sete a zero, só que ninguém ganhou e ninguém perdeu. Todos perderam.
A Boiada e o Fim do Mundo
A boiada, cansada da farra do boi, elegeu Bolsonaro. Mesmo esfaqueado, assumiu. Veio a pandemia e com ela o surgimento dos atos antidemocráticos e o “Inquérito do Fim do Mundo” presidido pelo ministro do STF mais careca de todos os tempos.
O povo tem memória. Memória falha; triste memória. Meras lembranças. Lembranças da Saudosa Maloca.
Sofregamente Bolsonaro chegou ao final de seu mandato. E agora quem poderá nos salvar? “Chapolin Colorado”. Ou outro qualquer de fora das plagas tupiniquins. Chineses, Maduro, Trump. E daí tudo volta como era antes em terras de Abrantes.
Final de 2025. O panorama político é dos piores que já presenciei. Presidente dos EUA sancionando membros do Tribunal de Justiça por desrespeito aos direitos humanos, CPI do INSS, COP 30 que foi um fiasco internacional, conclusão do processo contra os atentados ao Estado Democrático de Direito e muitos condenados sem o devido processo legal. Só no Brasil.
Resta que 2026, se o mundo não acabar, vai ser bem pior. Quem viver verá.
Se o sinhô não está lembrado Dá licença de contá Que aqui onde agora está Esse adifício arto Era uma casa velha Um palacete assobradado.
Saudosa maloca, maloca querida Donde nós passemos os dias felizes de nossas vidas.
— Adoniran Barbosa
17/02/2026
A Sabedoria da Chiquita Banana
Uma lição de vida inspirada na Chiquita Banana: por que amadurecer fora da geladeira torna a existência mais doce e autêntica.
Quem é do meu tempo lembra daquela marchinha, ou jingle, da Chiquita Banana. Uma figura exótica, com frutas na cabeça, cantando em inglês uma verdade absoluta sobre a botânica e a vida. A gente ouvia aquilo no rádio e achava graça. Lembro até hoje da Vovó Amantina, no canto da cozinha, cuidando do cacho de banana enquanto a música tocava. Mas tinha ali um ensinamento que vale mais que muita tese de doutorado.
A letra dizia algo muito sério, um conselho de amiga: “you should never put bananas in the refrigerator”. Traduzindo em miúdos: nunca ponha bananas na geladeira. Por quê? Porque elas são lá do trópico, do calor do Equador. Se você botar no frio, elas se assustam. A casca fica preta, cinzenta, perdem o gosto, não amadurecem direito. Elas precisam ficar na fruteira, pegando um calorzinho, esperando o tempo certo até aparecerem aquelas pintinhas marrons. É ali, quando ela tá pintadinha, que ela tá doce, que ela tá no ponto, pronta pra virar uma bananada ou acompanhar o arroz com feijão.
Gente de Geladeira
Fico pensando cá com meus botões que a gente é meio parecido com a banana. Tem muita gente por aí que vive se guardando na geladeira. Gente com medo de se machucar, de se expor, de viver o verdadeiro furdunço que é o dia a dia. Fica lá, conservado, lisinho, sem nenhuma marca na pele, protegido do calor das emoções. Mas também fica sem gosto nenhum. Sem doçura.
Banana verde amarra a boca. Gente que não viveu também. É preciso tempo, é preciso calor humano. Não adianta querer se conservar pra sempre numa juventude eterna e gelada, numa redoma de vidro (ou de gelo). O sujeito passa a vida inteira fugindo das incomodações, guardando a bufunfa e esquecendo de gastar com o que importa, evitando a fadiga… e quando vê, passou. Não amadureceu. Ficou, com o perdão da palavra, uma coisa chocha.
As Pintinhas da Vida
A vida exige que a gente fique fora da geladeira. Que a gente pegue sol, chuva, vento na cara. Que a gente fique esgualepado de tanto trabalhar, de tanto correr atrás dos netos ou de tanto dançar num baile de galpão. As rugas, as cicatrizes, os cabelos brancos que vão aparecendo… isso tudo não é defeito. Isso tudo são as pintinhas da banana.
É o sinal de que a gente amadureceu, de que a gente acumulou doçura e sabedoria. Cada marca é uma história, um causo, uma lembrança.
Então, meu amigo, o conselho do Alfarrabista é o mesmo da Chiquita: saia da geladeira. Não tenha medo de amadurecer. Deixe a vida te pintar de marrom e dourado. Porque, no fim das contas, bananas gostam é do clima tropical. E a alma da gente também.
17/02/2026
As Últimas Campereadas do Vovô Franquelim
Uma jornada de sessenta quilômetros, um recado a Garcia e a despedida de um velho gaudério que levava o Rio Grande na alma.
Eu o conheci quando menino, 1956. Gaúcho, nascido e criado nos campos de Soledade. Já passado dos sessenta migrou para o Paraná. Como veio não sei, acredito que como tantos outros, pelas trilhas abertas pelos ervateiros e outros migrantes. Comboios de carroças, acampando nas beiras de sangas, sesteando na sombra das árvores e repontando alguma tropita.
Família grande, moças e rapazes. Instalou-se no interior do município de Pato Branco. Um lugar onde quase nada havia, apenas uma serraria e começo de roças. Lembro do dia. Era dia santo, por volta das três da tarde. Mamãe levava um guri no colo e outro na barriga, e, meio me empurrando disse: — Peça benção do teu vô. Estendi as mãos juntas e ouvi a resposta: — Deus te abençoe.
E foi só. Guri educado não se mete em conversa de gente grande. Tenho na memória o seu tipo. Alto, cabelo liso e grisalho, bota, chapéu de aba larga. Nem sempre usava bombacha e sim calça de brim bem folgada e uma guaiaca de couro de anta, com fivelas de prata. Faca na cintura, sempre no jeito para picar o fumo de corda e aparar a palha. Em casa, um “faisqueiro” dos antigos para acender o pito. Combuca de porongo, tocha de algodão que acendia pelo atrito de um pedaço de ferro e uma pedra de quartzo. Semblante sério porem camarada, prestativo e ao mesmo tempo caçoador. Tudo servia para puxar uma prosa e contar um causo.
O Chamado da Estrada
Dos doze irmãos, tive a oportunidade de ver Vovô Franquelim em seus últimos dias. Era um sábado, último dia do ano. Tinha eu dezesseis anos, já na trave dos dezessete. Estava de férias. Mamãe disse: “Vai saber do vovô, que sei que não está nada bem”.
Por que eu? Porque naquele momento só poderia ser eu. Encilhei o cavalo alazão pela manhã e parti da beira do Lajeado a Bonito, onde morávamos. Atravessei os rios Santana e Marrecas na pequena balsa e trotei. Passei por figuras como o Joaquim Barriga Verde e o Seu Vergílio, o “Vergílio Costela”, que ganhou o apelido numa peleia braba onde o vencedor deveria assar a costela do outro. Coisas de antigamente.
Subi a serra e segui rumo ao Maracajá. O sol estava de rachar. Por volta do meio-dia cheguei na Boa Esperança. Sesteei na sombra de um cinamomo ao lado da igrejinha. Desencilhei o Alazão, lavei o suor e dividi com ele a água fresca de um poço de cinco metros. Comi o pão, queijo e salame que mamãe pôs no pessuelo e segui.
A Chegada ao Empossado
A chuva de verão veio no caminho, escorrendo pela aba do chapéu de feltro enquanto eu ouvia o ploc, ploc das patas no barro. Já beirava as três horas quando cheguei no Empossado. Ali, Tio Alaíde tinha uma bodega e logo me reconheceu: “É um piá do compadre Vitório!”.
Havia uma discórdia de família. Tio Vitório Faré queria o vovô em sua casa, mais tranquila; Tio Alaíde queria na sede, pra facilitar as visitas. No fim, vovô ficou no silêncio da casa do tio Vitório. Vovô já era viúvo; vovó Amantina tinha partido em Três Barras.
Conversei com ele. Vi um homem que, mesmo acamado, cavalgava em pensamento, pala ao vento, vendo o revoar dos quero-queros. Ele olhou pro chapéu e pra guaiaca pendurados, sem serventia, e disse tristonho: “Acho que a finada Amantina deve estar me esperando com a cuia na mão. Logo bato o pé na soleira e me apresento”.
O Recado a Garcia
Era dia primeiro de ano, um domingo. Encilhei o Alazão e me bandeei de volta. Tinha que levar o “RECADO A GARCIA”: dizer pra mamãe que o vovô não estava bem.
No caminho, uma peleia com formigas correição que atacaram o cavalo e os arreios na subida da Boa Esperança. Cheguei exausto na Barra do Marrecas. O mano Darci, guri de oito anos, montou o Alazão pra levá-lo pra beber na sanga. Comi o requento do meio-dia e segui os últimos quilômetros.
Quando mamãe me viu entrar na porteira, soube antes mesmo de eu falar. Entre lágrimas, balbuciou: “Eu sabia”. Deitei amuado. Trotear mais de sessenta quilômetros não é serviço pra piá.
Poucos dias depois, veio a notícia. Seu Franquelim da Silva Portela havia falecido. Foi sepultado no cemitério do Empossado, em Dois Vizinhos. Partiu pro rancho eterno, deixando uma geração e muitos causos que o tempo não apaga.
Bônus: A Galinha na Farofa e a Sesta Sagrada
Se tinha uma coisa que seu Franquelim apreciava era montar em sua mula ruana e andar pelas estâncias, mais pra saber das coisas do que fazer algum brique. Sempre que empreendia uma andança, vó Amantina fazia uma galinha na farofa, e colocava numa matula e depois enfiava no pessuelo.
De uma feita, seu Franquelim disse que iria na estância do Amarante, a trinta quilômetros. Amantina preparou a galinha gorda e ele partiu mal clareando o dia. Logo após ao meio-dia, Amantina decidiu visitar uma comadre e, ao passar por uma frondosa figueira, viu algo estranho: era a mula de seu Franquelim.
Esgueirou-se pelos arbustos e lá estava o homem, estirado sobre os pelegos, dormindo no maior sossego. — O que estás fazendo aí, homem de Deus? — gritou ela. — Estou fazendo a sesta — respondeu ele num sobressalto. — Mas que sesta, se estás perto de casa? — Deixa eu explicar: quando saí, lembrei que o seu Amarante não estaria em casa. Mas eu não podia perder a galinha na farofa, então resolvi sestear por aqui mesmo.
Amantina já ia descarregando o guarda-chuva no “folgado” quando ele completou: — Espera aí, mulher! A galinha não era grande e se tivesse que repartir não ia dar pra dois. Assim pelo menos um ficou satisfeito!
E assim, no passo manso, voltaram os dois para o rancho, com o vovô Franquelim satisfeito por ter evitado a “pernada” à toa e garantido o seu bocado.
18/02/2026
Miguel e a Feira do Largo da Ordem
Um mergulho na Curitiba de antigamente: perfumes artesanais, causos de feirantes e a briga entre Horácio Pontual e Honorina.
Um certo Miguel veio de uma pequena cidade localizada nos confins do fim do mundo. Veio fugido da guerra. Um dia, como fazia de costume, sentou no banco da praça e, conversando com um turco que contava sua vida aqui no Brasil, também contou a sua história.
Tudo começou a melhorar quando chegamos em Curitiba. Estudei, fiz faculdade. Planos para o futuro. Por vezes ficava conversando com mamãe em seu jardim, admirando as flores e os perfumes. Na juventude tive que aprender a falar português, dado que nosso idioma de origem era o polonês e na América o espanhol.
Por acaso, comecei a extrair essências das plantas e, misturando com álcool, vendia na feira. A feira se localizava na praça do Largo da Ordem. A mesma feira que aos domingos recebe turistas do mundo todo, mas naquele tempo era uma feira de hortifrutigranjeiros. Encontrei um cubículo ali pertinho e me instalei de forma permanente, já sonhando em me tornar um empresário.
O Palco da Feira
Do meu cubículo, contemplava o movimento da praça e interagia com os feirantes. Logo na minha frente tinha a barraca do seu Horácio Pontual. Consertava relógios. Era casado com uma simpática senhora de nome Honorina. Invariavelmente, às oito horas, Horácio estava a postos para atender sua freguesia.
Mais ao lado estava a barraca do Velho Madalosso, que servia comida italiana — um descendente que reclamava de tudo a todo momento. Tinha o alemão de quase dois metros, o seu Hulth, que vendia pães e cucas: “Olha o cuque! É feito por minha mulher. E de banana. Banana no cuque é muito bom!”. Do outro lado, o espanhol barulhento das tortilhas, o Fernandes, e sua mulher, dona Carmelita.
O bom da feira era o pastel do Manelão, um baiano que contava causos de briga no facão e de quando encarou uma onça-pintada cara a cara. Tinha também a barraca de peixe do seu Simplício, um cearense miudinho que pescava no Rio Iguaçu e não levava desaforo pra casa.
Honra e Hora
Invariavelmente aparecia a dona Piedade convidando para a reza e o Frei Policarpo, que o povo sempre confundia com o grego Platão, da banca de frutas. No meio daquele burburinho, um camelô vendia carnês do Baú da Felicidade ao som de “Silvio Santos vem aí”.
Mas o melhor era a peleia entre o Horácio e a dona Honorina. — São onze horas. Hora de… — dizia o Horácio, puxando o relógio de bolso. — Hora de quê, Horácio? Mania de olhar as horas em relógio que nem teu é! Um estrangeiro trouxe pra consertar, nunca buscou e você fica se exibindo! — E você que tem horas até no nome! — Eu tenho “Hono” de honra e não de hora! Tenho orgulho do meu nome: Honorina de Sá Camargo, descendente do Visconde de Guarapuava! — Grandes coisas… o maior escravocrata do interior do Paraná! Então tinha que se chamar de Orgulhina!
No fim, o pastor Evangelino sempre intervinha com um salmo para acalmar os ânimos. O pastor só estava ali para comprar um perfume no Boticário. Diziam que o Miguel ia mudar a fábrica para São José dos Pinhais, mas ele continuaria vendendo por ali, e pelo resto do Brasil.
18/02/2026
O Brique da Vaca
Um causo onde a modernidade atropela a lida campeira: a vaca Mimosa repontada por avião a mando do Getúlio Vargas? Só o Vovô Franquelim para contar essa com…
Eu estava abancado no canto, só “alcançando” a prosa com os olhos, enquanto o chimarrão passava de mão em mão num compasso de relógio antigo. Na varanda, o Vovô Franquelim ajeitava o chapéu de aba larga, com aquela expressão grave de quem vai revelar o segredo da santíssima trindade. Do outro lado, o Gaudêncio, desconfiado que só ele, alisava o bigode, já esperando o “laço” da conversa.
— Pois olha, Gaudêncio — começou o Franquelim, sem piscar —, a lida de campo tá mudando. Antigamente era no grito e na espora. Mas eu vi, com esses olhos que a terra há de comer, uma tropa inteira ser repontada sem um único pingo de suor de cavalo.
O Gaudêncio parou a cuia no ar.
— E foi o quê? Cachorro elétrico? — retrucou, com um meio sorriso de quem duvida até da própria sombra.
— Que cachorro, home! Foi de avião. Teco-teco. E não foi qualquer teco-teco, foi ordem direta do homem lá de cima. Do próprio Getúlio Vargas.
Eu tive que morder o lábio para não soltar a risada ali mesmo. O Franquelim nem se abalou com o espanto mudo do compadre e continuou, desenhando a cena no ar com as mãos calejadas.
— Tinha uma vaca, a Mimosa, uma zebuína de estampa fina, que foi vendida para o Rio de Janeiro. O Getúlio queria churrasco de gado nosso no Palácio do Catete, mas mandou avisar: se a vaca fosse de trem, chegava estressada e a carne endurecia. Se fosse a pé, emagrecia. Então ele despachou a Força Aérea.
— A Força Aérea pra buscar uma vaca? — o Gaudêncio quase engasgou com a erva.
— Pois então! Três teco-tecos. Vieram zumbindo baixo, que nem marimbondo invocado. A ordem era clara: pastorear a Mimosa lá de cima, tocando ela com a sombra das asas até a pista de pouso. Coisa de louco, Gaudêncio. Os pilotos davam razante e a vaca, que nunca tinha visto bicho com asa daquele tamanho, disparava em linha reta, mais aprumada que soldado em desfile de sete de setembro. Segundo o piloto, era a “aerodinâmica bovina”.
— Mas Franquelim — o Gaudêncio tentou argumentar, ajeitando a bombacha —, e se o boi empaca? O avião desce e o piloto grita “ôoo-lê”?
— O avião não precisa descer, Gaudêncio. O susto é a espora. É o progresso! A vaca chegou no Rio tão macia de susto que o Getúlio mandou uma medalha pro piloto e outra pra vaca.
O bigode do Gaudêncio soprou num misto de arrenego e admiração. Ele sabia que era mentira. O Franquelim sabia que ele sabia. Mas ali, naquela varanda, a verdade pouco importava. O que valia era a arte de “envortear” as ideias, de transformar um teco-teco barulhento num peão dos ares a serviço da República.
O Vovô Franquelim era um mestre dessa prosa. Ele não contava mentiras; ele apenas enfeitava a realidade para que ela não ficasse tão sem graça. E eu, ali no meu canto, aprendi que, às vezes, um causo bem contado vale mais que muita enciclopédia.
19/02/2026
Pinceladas de História
Um livro chegou pelo correio — Território Dourado, de Montezuma Cruz — e abriu espaço para refletir sobre os que escreveram e os que ainda precisam ser…
Estava eu na soneca da tarde, quando alguém bateu no portão. Era o carteiro. Estranho, nos tempos de internet e zap, o carteiro tem muita folga. Mas não restava dúvida. Meu nome e meu endereço. Como remetente: MONTEZUMA CRUZ. O que será?
Abro o envelope tamanho ofício. Dentro uma revista, ou melhor um livro. A capa continha uma foto de garimpo e um título: TERRITÓRIO DOURADO. MONTEZUMA CRUZ.
Pensei: — O amigo lembrou deste causídico aposentado, do centro do Estado de Rondônia que já foi a Capital de Madeira e da poeira. Até parece que o pó se encrustou em nosso costado e aqui ficamos como legatários de um tempo que se perdeu nas brumas dos anos oitenta. Enquanto por cá vivíamos do extrativismo, alhures aventureiros tentavam a sorte nos garimpos de ouro, de cassiterita e outros minerais e até pedras preciosas.
É disso que parece tratar a obra de Montezuma Cruz, ao menos é o que informa o sumário que antecede as 154 páginas da obra, as quais servirão de pretexto para interromper meu ócio.
Na página reservada à dedicatória, algo do próprio punho do autor:
“Eles continuam no cenário Amazônico ora amados ou demonizados. No entanto produzem, mesmo vendo o ouro ir embora para bem longe das aluviões e grotões.” — Montezuma Cruz
De fato, nossas riquezas se foram e outras surgem como a pecuária, a soja e o café — este, o legítimo garimpo desde os tempos imemoriais, onde o pobre e o rico vivem da mesma alegria. Abre-se assim um espaço para os jornalistas cronistas do presente para que registrem mais uma página da nossa história, assim como Montezuma registrou a saga do Território Dourado.
Montezuma faz uma síntese de como era o Estado de Rondônia na década de oitenta e até antes. Diz de suas reportagens e andanças pelos agrupamentos urbanos e vilas que surgiam de repente e quase do nada. Diz das atividades dos seringueiros, garimpeiros que exploravam as riquezas naturais e agricultores que aos poucos ocupavam a floresta e implantaram suas lavouras de arroz, café e outros cereais.
Antes dele, Manoel Rodrigues Ferreira, um jornalista paulista que por aqui esteve na década de cinquenta e sessenta, descreveu como era o território — notadamente de Porto Velho a Guajará-Mirim —, a saga de Rondon e o fim de uma ferrovia que custou a vida de milhares de pessoas e milhões de dólares, com o objetivo de cumprir um tratado com o vizinho país, a Bolívia, na solução da questão do Acre, e que serviu de apoio aos soldados da borracha ao longo do Rio Madeira-Mamoré. Por razões múltiplas, teve suas atividades encerradas alguns anos após sua conclusão e converteu-se em patrimônio histórico de ferros enferrujados e abandonados ao longo da ferrovia. Refiro-me ao livro Ferrovia do Diabo, que hoje só se encontra em algum sebo, ou na biblioteca particular de algum pioneiro.
Outros também escreveram sobre o desenvolvimento do Estado, como Antônio Lopes, Coordenador Geral de Implantação de Assentamentos — DDI, que relata as atividades do INCRA nos assentamentos agrários e formação de núcleos urbanos que hoje são cidades prósperas.
Destaco a obra de Geraldo Schach. Com seu livro Rondônia, a Terra Prometida, na condição de Pastor Luterano, trabalhou na assistência das comunidades luteranas nas décadas de setenta e oitenta, andou pelas trilhas e picadas da floresta — particularmente de Pimenta Bueno, Espigão do Oeste até Jaru —, registrando a vida dos agricultores migrantes e as condições de vida da época. Sem dúvida, mais uma obra que deve integrar o acervo da biblioteca da História do Estado de Rondônia.
Recentemente, o professor Roslavo Estachw lançou a magnífica obra Senhora das Águas, onde faz um passeio pelas águas barrentas do Rio Madeira, resgatando as lendas dos beradeiros e povos da floresta.
De outro norte, centenas de páginas e reportagens esparsas discorrem sobre o desenvolvimento do Estado com ênfase nas cidades. Centenas de pessoas que palmilharam esse chão em busca de um futuro melhor ainda vivem e nunca tiveram registrados seus feitos. Está aí um campo aberto para as novas gerações de acadêmicos que podem e devem esmiuçar esse período da história, para que não fique como folhas secas ao vento.
12/03/2026
A Final é Natal
Do cachorrinho de porcelana ao Papai Noel no drone — uma viagem da infância ao Natalis Invicti Solis, passando pelas Saturnálias, São Nicolau e Assis Valente…
Lembro bem, deveria ter 8 anos. Ganhei do Papai Noel um bibelô de porcelana. Era um cachorrinho de não mais de 4 centímetros. Guardei-o por muito tempo. Fiquei muito feliz. Papai Noel lembrou de mim e também dos meus irmãos. Ir à igreja e ver o presépio era maravilhoso. Um dia descobri que não havia Papai Noel e que aquela data era para comemorar o nascimento de Jesus. O presépio fazia todo o sentido. Descobri depois que o presépio foi uma invenção de São Francisco de Assis e que a Bíblia não fala de boi e jumento — e que eles foram colocados em cena com o propósito de atazanar os judeus.

Mas tudo bem, Natal é Natal. De repente descobri: Jesus com certeza não nasceu em 25 de dezembro e, pior, ninguém sabe quando foi.
Certo é que no ano 354 d.C. o papa Libério ordenou que os cristãos celebrassem o nascimento de Yeshua no dia 25 de dezembro. Provavelmente ele escolheu esta data porque em Roma já se comemorava neste dia o dia de Saturno — a festa chamada Saturnália. Por seu turno, a religião Mitraica dos persas (inimiga dos cristãos) comemorava neste dia o NATALIS INVICTI SOLIS, ou seja, “O Nascimento do Sol Vitorioso”. Temos então que, por decreto, o aniversário de Jesus passou a ser 25 de dezembro — uma data simbólica. Afinal, alguém que mansa e pacificamente deflagrou uma revolução que se prolonga por dois mil anos merece uma data para celebrar seu nascimento.
Diz o ditado: “É o uso do cachimbo que entorta a boca.” Os cristãos não abandonaram por completo os festejos das Saturnálias, onde se distribuíam presentes como vinho e guloseimas. Mais tarde um senhor muito piedoso, chamado Nicolau, teve a ideia de nesta data distribuir brinquedos para as crianças pobres.
A essas alturas nem precisa explicar que o comércio e a indústria se apropriaram da data para incrementar suas vendas. Deu no que deu. Papai Noel não passa de um velho bizarro, guiado por um “dronener” que sai distribuindo presentes nos palácios, nas casas e nos barracos — tudo de acordo com a classe social do presenteado.

Que saudade do meu cachorrinho de porcelana.
Anoiteceu, o sino gemeu
A gente ficou feliz a rezar
Papai Noel, vê se você tem
A felicidade pra você me dar
Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
Bem assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel
Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem
Assis Valente, 1932 — num quarto de pensão em Icaraí, Niterói.
12/03/2026
Arestas do Tempo
Nas dobras do vento e na memória distante, os sábios arcontes buscam o gene e a fonte. Antes nada havia. Do nada, a luz.
Nas arestas do tempo,
Nas dobras do vento,
Na memória distante,
No agora, no instante;
Vejo lutando ao relento
Sem trégua e lamentos,
Míticos sábios arcontes;
Na busca do gene e da fonte.
Nas longas jornadas ardentes,
O mundo nunca foi diferente.
Trilhas e caminhos estreitos,
Mar, terra, rios e montes;
Desertos, floras e fontes.
Antes nada havia.
Do nada, a luz.

12/03/2026
Descobrindo o Brasil
De Lisboa ao Brasil de caravela foram 40 dias; de Curitiba a Rondônia de busão foram 12. Cabral se desviou das calmarias, eu dos atoleiros da BR 364.
Foi em 09 de março de 1500 que Pedro Álvares Cabral partiu de Lisboa, rumo às Índias, e no meio do caminho — sem querer querendo — descobriu o Brasil, que na verdade já estava descoberto.
Muito tempo depois, em 09 de março de 1981, parti de Curitiba, rumo a Rondônia, aqui chegando somente no dia 22. Conclusão: de Lisboa ao Brasil de caravela, foram necessários 40 dias, ao passo que de Curitiba a Rondônia, de busão, apenas 12. Cabral teve que se desviar das calmarias na costa africana e eu, para chegar em Rondônia, tive que me desviar dos atoleiros da BR 364.

Os atoleiros da BR 364 e outras estradas que rasgaram a floresta amazônica — notadamente Rondônia e Mato Grosso — são um capítulo à parte da epopeia da conquista do Norte do Brasil, abaixo do Rio Amazonas.
Cabral permaneceu alguns dias em Porto Seguro. Fazendo o quê, não sei. Certo é que descobriu muitas índias — e os portugas queriam ficar por ali para fazer umas selfies na praia.
Conforme relatou Caminha: “Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam.”
A grande descoberta de Cabral foi que os índios não queriam nada — além de espelhos e bugigangas. O resto eles já tinham. Era sombra e água fresca.
A folga acabou quando Frei Henrique de Coimbra reclamou: — Pois, pois, e que estou eu a fazer aqui? Cabral, que era soldado de Cristo, entendeu que era hora de postar a carta comunicando ao Rei o achado. Para isso designou o erudito Pero Vaz de Caminha — e seguiu seu destino.
Dizem que o Rei D. Manuel não gostou da parte da carta que dizia “AQUI SE PLANTANDO TUDO DÁ”. Tanto é que pouco se interessou pelas terras descobertas. Ele queria saber de ouro e prata, petróleo e terras raras. Daí já viu — todo mundo passava por aqui para tirar uma casquinha, e até hoje continua do mesmo jeito. Até o amigo Trump mandou às favas a lei Magnitski quando viu que o Xandão era mais útil para ele do que um bando de patriotas.
De resto, tudo foi a trancos e barrancos e o Brasil foi povoado em todo o litoral — e aos poucos conheceram o interior, através dos rios: Amazonas, São Francisco, Paraguai e Tietê.
A ocupação do Centro-Oeste só avançou quando o Presidente Juscelino resolveu construir Brasília. A Amazônia permaneceu quase intacta, apenas com algumas cidades ribeirinhas como Belém, Manaus, Rio Branco e Cuiabá.
Foi uma explosão a Conquista do Oeste. O cerrado e a mata amazônica foram ocupados de repente — de 1957 a 1987. A diferença é que quem foi para essas plagas não foi para fazer turismo e tampouco para salvar as girafas. Milhares se embrenharam pelo cerrado e pela floresta e, em 30 anos, transformaram uma região inóspita em solo produtivo: grandes rebanhos bovinos e a maior produtora de soja e outros grãos que sustenta o mundo.
Registrou Pero Vaz de Caminha: “Águas são infindas e em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.”
Está faltando registrar o que disse Frei Henrique de Coimbra ao fidalgo Pedro Álvares Cabral: — Pois, pois, o que estamos a fazer aqui? Ti manca, Cabral.
Cabral se mandou para o Oriente — para nunca esquecer as belas Índias.
Assim foi que escolheram um escriba para informar o Rei. Um tripulante conhecido por Pero Vaz de Caminha escreveu uma carta no mais rebuscado português, o que tomou três dias do rei para interpretá-la. Dom Manuel mandou guardar a carta bem guardada — afinal, era a certidão de nascimento de uma futura nação que, depois de muitas pendengas, veio se chamar Brasil.
O nome Brasil guarda muitos mistérios. Pois segundo dizem, no tempo do Rei Salomão, um povo conhecido por Fenícios por aqui esteve, e teria dado esse nome — cujo significado pode ser qualquer coisa referente ao Pau Brasil, que com certeza foi utilizado na construção do Templo do Rei Salomão. Não vou falar sobre isso, pois poderão dizer que é “fake news”.
Desde então, esse tal Brasil tem servido de pano de fundo para muitos fatos e feitos. Tem terras férteis, água em abundância e florestas incomparáveis. De outro lado, governantes corruptos e um povo que “Deus me livre” — cujo maior sonho é ser governante.
Aqui é o paraíso. Muitas praias e alguns morros para justificar a presença dos narcotraficantes. Florestas, pântanos e cerrados para justificar a ação dos ecologistas e em particular a COP 30. Muitas igrejas, farmácias e garagens de automóveis para justificar a lavagem de dinheiro. Samba e futebol para justificar a alegria do povo.
Alguém disse nas redes sociais: “A COP 30 escancarou o abismo entre o discurso de sustentabilidade e a prática do governo. Enquanto vendem o discurso de sustentabilidade, a realidade em Belém é de desorganização e desperdício de dinheiro público.”
Só que dessa vez os gringos não deram muita bola para a tal COP 30. Do jeitinho que fez o Rei D. Manuel: floresta, que nada. Queremos dólar, petróleo e outras “coisinhas mais”.
O mundo começou a descobrir o Brasil. Sabendo que aqui em se plantando tudo dá, já não querem conhecer borboletas, tirar dúvida sobre nascentes de rios, tirar retrato ou fazer selfies. Querem comida. E índio quer dólar.
Esse é o Brasil que se descobriu — que em se plantando tudo dá. Dá até cadeia para quem pinta uma estátua com batom ou ora na frente do Palácio do Planalto.
A grande descoberta é que no Brasil não tem governo — apenas um Executivo subserviente, um Legislativo corrupto e um Judiciário desvirtuado.
Ah, se Caminha tivesse relatado essas coisas para o Rei D. Manuel. Certamente mandaria Cabral cobrir novamente — para não passar para a história como a nação mais corrupta de todas as nações.

12/03/2026
Marco Zero
Do Dilúvio à Inteligência Artificial, uma viagem irreverente pelos marcos que fizeram o mundo ser o que é — com chifre de bode, bode expiatório e pão com…
Aprendemos que a história é registrada a partir da descoberta da escrita e que os hieróglifos egípcios foram interpretados por Champollion em 1822. Segundo a arqueologia, tais escritos remontam a cinco mil anos. Coisa que duvido.
A história ocidental é contada a partir dos livros bíblicos, com muitas narrativas e lendas. É o caso do Dilúvio. A ciência comprova que em um dado momento houve uma grande inundação. Já os relatos sobre Noé e Gilgamesh podem ser classificados como lendas, até mesmo porque é inimaginável que alguém tenha construído um barco de madeira de dimensões de um Titanic, capaz de abrigar todas as espécies de animais.
Mesmo assim, necessário seria um grande conhecimento de engenharia. Lembrando que para a comemoração dos quinhentos anos do descobrimento do Brasil, a engenharia náutica brasileira não foi capaz de reproduzir uma simples caravela utilizada pelos portugueses nos idos de mil e quinhentos, nosso marco zero.
Tudo bem. Noé, após adquirir milhares de metros cúbicos de madeiras de boa qualidade — e não ter pago a ninguém —, construiu a fabulosa arca e quando chegaram as águas, flutuou e ficou à deriva até encalhar no Monte Ararat.
Só para lembrar, o referido monte tem mais de cinco mil metros. Se bem que não está escrito que a arca encalhou no topo da montanha. Pode ter sido na base. “e a arca repousou, no sétimo mês, no dia dezessete do mês, sobre os montes de Ararate.” (Gn. 6.22). — Eles já tinham calendário.
Essa data deveria ser considerada feriado mundial. Sétimo mês deve ser setembro, no entanto no nosso calendário é o nono. Incrível nisso tudo é o dia. Só faltou a hora. Faltavam só três dias para o início da primavera. Pouco importa, porque no topo do monte é geleira o ano todo. Noé entrou numa fria. Desceu o morro batendo queixo.
Ninguém ainda encontrou a dita arca ou dela teve notícias. Se bem que tem uns arqueólogos afirmando que a encontraram. Tem até vestígios de cocô de grilo.
Como se sabe, os bichos se salvaram, bem como a tripulação. Abertas as comportas, todos saíram na mais perfeita ordem, desceram o morro e pouco a pouco repovoaram a terra.
No Brasil, D. João VI e a cambada que o acompanhava, quando veio de Portugal se borrando de medo de Napoleão Bonaparte, se acampou na beira da praia e o povo teve que subir o morro. Foi o marco zero das favelas.

Adão e o paraíso
Antes disso, porém, e bem antes, Adão teve que sair às pressas do paraíso, tudo por causa de uma serpente encrenqueira. Foi o fim da moleza e o marco zero da luta pela sobrevivência.
Dizem que o paraíso se localizava entre dois rios. Particularmente acredito que o paraíso era à beira-mar, uma praia paradisíaca, onde havia muitas lagostas e logo na encosta um pomar maravilhoso. Somente quando foram expulsos daquele paraíso é que se deram conta que estavam com a bunda ao relento. Ficaram sem eira e nem beira. Literalmente tiveram que ir pra roça. Sabe-se que seus filhos eram agropecuaristas. Um dia as vaquinhas de um invadiram a lavoura do outro e o pau comeu. Importante ressaltar que ainda não existia arame farpado.
Em razão do assassinato, Caim teve que se mandar e se bandeou para a banda oriental e ficou campeirando de instância a instância, feito “cusco” sem dono. Teve muitos filhos, e, segundo dizem, Noé era seu descendente. Somos todos da mesma patota, inclusive os iranianos que vivem perturbando as ideias dos israelitas.
Passada a quarentena do dilúvio, os descendentes de Noé se espalharam pela região, começaram a fazer rabiscos nas pedras e, como já estava no sangue, se atracaram a plantar e criar animais, principalmente bodes, bovinos, jumentos e dromedários. Consta que colhiam uvas e delas fizeram um bom vinho e Noé tomou o maior pileque a ponto de perder os panos de bunda. Foi o marco zero da gandaia.

Camelo e o transporte
Começaram a domesticar animais, só que sobrou mesmo pro coitado do camelo. Indivíduo desajeitado e resistente. Alguém teve a ideia de colocar algumas coisas na sua cacunda. Foi o marco zero dos transportes.
Tinham uns vadios sem vergonha que não queriam nada com nada e ficaram acampados na beira dos rios, ou na praia matando peixe à pau. Aconteceu que os peixes ficaram mais ariscos, aí os caras tiveram que se virar. Um dia o mais vadio de todos fez uma fina trança com os fios do rabo do jumento, amarrou num gancho qualquer e jogou na água. Não há de ver que pegou um peixe. Foi o marco zero da pesca esportiva.
Pensa numa diversão interessante. O tadinho do peixe que está lá no fundo, se esquivando de seus predadores naturais, de repente abocanha um troço que parecia inofensivo e babau. Na verdade, uma verdadeira sacanagem. Coisa de gente desocupada.
A roda
Mas aquele negócio de transportar no lombo do camelo ou do jumento não era muito produtivo. Não demorou e inventaram a roda. Aí não teve pra ninguém. Ou melhor, a coisa melhorou pra todo o mundo. Ainda bem que a invenção não foi patenteada. Esse foi o marco zero da tecnologia.
Foi mais ou menos na mesma época que descobriram que das pedras podia ser tirado materiais mais resistentes que a própria pedra. Mesmo assim a roda permaneceu como tecnologia de ponta. Tão importante que servia de base de troca. Uma roda valia um boi ou alguns balaios de cereais. O nome original era “MÓ”.
Muito tempo depois, os economistas — ou seja, aqueles que nada produzem, mas colocam preço nas coisas dos outros — deram um nome mais sofisticado e moderno e a MÓ passou a se chamar moeda. Para evitar confusão, a verdadeira MÓ passou a se chamar roda, ou aquilo que além de redondo gira. Com o tempo todo o mundo começou a fabricar rodas. Tinha roda de todo o tipo. De pau, pedra, ferro. O que valia mesmo era a roda de ouro.
Torre de Babel
Nesse meio apareceu um bando de ignorantes que resolveu construir uma torre cujo topo fosse além das nuvens e alcançasse o céu. Foi o início do globalismo.
Quando a torre estava lá nas alturas houve um desentendimento geral. Alguns foram para a direita, outros na esquerda e outros ficaram no centro. Os do centro gritavam: “Daqui não saio e daqui ninguém me tira”. E os demais se espalharam pelo mundo afora e aqui e acolá aprontavam confusões na busca de direitos e igualdade social.
Nesse ínterim alguém quis saber qual a verdadeira finalidade da torre. O Chefe não soube explicar direito e teria dito que era para se comunicar com os que estavam acima das nuvens. O povo que não era besta não aceitou a explicação, até mesmo porque não havia comprovação científica. Virou num angu de caroço. Ninguém mais sabia quem era quem, e as obras foram paralisadas. Foi o marco zero das obras inacabadas.
Somente no século XXI apareceu um doido que resolveu concluir algumas obras abandonadas, como por exemplo a canalização do Rio São Francisco. Mesmo assim teve quem reclamasse dizendo que tinha que esperar pela volta de quem começou, abandonou e estava preso. E não é de ver que voltou, mas daí é outra história.
Voltando à vaca fria — ou melhor dizendo, à torre inacabada —, evidentemente que com o tempo e péssima qualidade dos materiais tudo se deteriorou e ruiu.

O chifre de bode
Esse negócio de obras é um problema, porque até muralha de pedra bem construída um dia ruiu só com o som das cornetas. Sim, cornetas feitas de chifre de bode.
Necessário ressaltar a importância do “chifre de bode”. Possivelmente foi a matéria-prima para a construção do primeiro anzol. Chifre de bode tinha muitas utilidades. Servia como instrumento para cavar a terra, instrumento musical, sirene, caneca pra beber cerveja, porta-moedas e celular.
Aquele povo que derrubou as muralhas da cidade na base da corneteada para conquistar a sua terra era da esquerda e vivia invadindo terra dos outros. Contudo essa terra era desértica e ali e acolá havia lugar para plantar. De resto criavam cabras e jumentos. Mesmo assim ali permaneceram, porque era a terra prometida aos seus ancestrais.
Existia outro povo que morava numa região onde o capim era mais abundante e ao invés de bodes, criavam bois — e por consequência a concorrência foi brutal. O som emitido pelas grandes cornetas era mais interessante. Esse povo logo foi injustamente apelidado de cornudos. Mas isso é outra história, porque os criadores de bovinos parecem que não deram a mínima. O negócio era boi no pasto e moeda no bolso. Verdade que o pau comia por conta dos chifres e foi necessário estabelecer regras.
Foi quando apareceu um chefe chamado Hamurabi que resolveu pôr ordem na casa. Estabeleceu que não importava o tamanho do chifre, o importante era ter. Foi o marco zero da igualdade social e puseram chifres até na cabeça do capeta. Como não poderia ser diferente, essas regras não eram bem aquilo que o povo queria, mas tiveram que engolir assim mesmo.
De quebra o tal Hamurabi organizou a contagem do tempo, criando um calendário. Vira e mexe era bem parecido com o “calendário” de hoje. Só o primeiro dia da semana que era para homenagear os deuses passou a se chamar domingo, ou seja, dia do DOMO. Mesmo havendo regras escritas, era permitido cada um acreditar no que quisesse. Até mesmo porque ninguém tinha certeza de nada.
Se Hamurabi criou a semana não sei, mas é um conjunto de sete dias com o propósito de homenagear os astros. Domo o Sol; segunda, a lua; terça, Marte; quarta, Mercúrio; quinto, Júpiter; sexta, Vênus e sábado, Saturno. Mas depois ficou conforme o costume dos judeus em que o shabbat era o dia designado para adorar o Senhor dos Exércitos, que segundo diziam ficava sempre atrás dos montes e não dava as caras nem por nada. Quando muito mandava mensageiros. Só bem mais tarde é que um outro povo passou a homenagear o DOMO, ou “dominus”. Ou seja, Domingo.

Terra prometida
Lá no início da história, um belo dia apareceu um “alcaide” — ou seja, um chefe de tribo — que demonstrou não estar muito conformado com os costumes de cada qual acreditar no que quisesse. De uma feita, quando estava bem afastado do movimento cuidando de seus bodes, ouviu uma voz que vinha do alto das montanhas. Essa voz lhe disse que deveria se mudar dali e ir para bem longe. Uma terra que corria leite e mel e que em se plantando tudo dá.
O cara acreditou e a partiu. Daquele dia em diante passou a fazer as coisas de acordo com as determinações da voz que vinha do alto. A verdade passou a ser aquilo que a voz dizia. Esse sujeito chamava-se Abrão. Foi ele inclusive que pela primeira vez usou a expressão: “Captei vossa mensagem, oh inefável guru.”
Na realidade ele nem sabia direito onde era esse lugar. Dizem que não foi sozinho, até mesmo porque não era besta. Pra chegar ao lugar prometido não foi fácil. Encontrou muita gente querendo impedir seu caminho. O lado bom da história é que ele era firme em suas decisões. Seguia as leis da tradição: “Dente por dente, olho por olho”. Dava um boi para não entrar na briga, e uma boiada para não sair. Tem um povo lá do oriente que adota estes princípios.
Tenho impressão que naquele tempo já tinham inventado a roda, a moeda e o carro de boi. Mas isso não vem ao caso, porque estamos a falar de apenas quatro, cinco mil anos e esse negócio de roda parece que foi bem antes. Só sei que no tempo de Abraão o enxó já não usava bainha.
De vez em quando Abraão era chamado para apartar confusões. Para não fugir à regra, toda tarefa tinha um preço. Preço justo, evidentemente. Pode-se dizer com grande probabilidade de acerto que a cobrança de taxas e custas processuais e tarifas teve ali sua origem. Trata-se de matéria controvertida e ainda não pacificada pela jurisprudência, embora a suprema corte já devesse ter se pronunciado. A questão é: se o povo paga impostos para ter segurança, porque a Justiça cobra taxas especiais e não dá garantia de nada? Sim, porque quando ela decide, para que a decisão produza os legais efeitos, tem que chamar a polícia, que acaba por aumentar a confusão. E pior: não dá pra fazer um PIX.
De resto, Abrão, ou Abraão, era gente boa uma barbaridade. “Gaudério por demás”. Vivia acampado repontando um gado pra-lá e pra-cá, fazendo uns briques, só não mateava por falta de erva. Teve vários filhos, porém apenas um com sua prenda de estimação, a digníssima patroa dona Sara. O guri chamava-se Isaac; portanto herdeiro e futuro patrão da instância. Mesmo assim, de uma feita, quase que teve que matar o piá para demonstrar fidelidade àquele que lhe prometera uma terra para morar e cuidar de sua gente. Já estava pronto para enfiar a “peixeira” quando ouviu a voz que vinha do alto e determinou a suspensão dos atos executórios. Ao invés de sacrificar o guri, foi-lhe determinado que sacrificasse um bode ainda novo que estava desgarrado e berrando entre os arbustos. Foi por conta disso que surgiu a expressão “servir de bode expiatório”. O coitado do bode não tinha nada com isso.
Passado aquele momento de sufoco e provação, Abrão mudou de nome e passou a ser Abraão. A partir daí sossegou o facho. Entendeu que ali era o lugar prometido. Firmou o pé e disse: “Essa terra tem dono!”
Apesar de não saber o tamanho da terra, ali ficou com seu filho predileto, seus herdeiros e formou uma grande geração. A terra era boa, embora escassa de água. Praticamente só tinha um riacho, cuja nascente era o desgelo da neve permanente no topo de uma montanha conhecida por Monte Hermom. Essa montanha era considerada sagrada pelo patriarca. Pudera, mesmo com pouca chuva o nível da água não baixava. De resto é uma terra árida, que se irrigada e adubada com NPK, tudo dá. A terra foi prometida, só que não tinha escritura lavrada em cartório.
Vale salientar que Abraão tinha um sobrinho, conhecido por Ló. Pelo que contam, Ló não era dado à vida de campo e preferiu morar na cidade. (Era do tipo gaúcho de apartamento.) Provavelmente intermediava os negócios e interesses do tio, comercializando tudo o que o tio produzia, como carne seca, couro e até mesmo chifre de bode. Registre-se que guampa de bode, apesar de pequena, naquele tempo tinha muita utilidade. Dizem que o povo sempre levava um corno à tiracolo, com água ou ouro e outras pedrinhas por acaso encontradas no deserto. Quando aparecia algo de estranho por de trás da moita a corneta era acionada. Aí todo o mundo se amoitava e se preparavam para o que der e viesse. A milícia se apresentava e segurava na raça as forças contrárias.
A questão é: se o povo paga impostos para ter segurança, porque a Justiça cobra taxas especiais e não dá garantia de nada? Quando ela decide, para que a decisão produza os legais efeitos, tem que chamar a polícia, que acaba por aumentar a confusão. E pior: não dá pra fazer um PIX. Tem que ser em espécie.
De resto, Abrão era gente boa uma barbaridade. “Gauderio por de mais.” Vivia acampado repontando um gado pra lá e pra cá, fazendo uns briques, só não mateava por falta de erva. Teve vários filhos, porém apenas um com sua prenda legítima, a digníssima dona Sara. A Janja veio depois.
O guri chamava-se Isaac; portanto herdeiro e futuro patrão da instância. Mesmo assim, de uma feita, quase que teve que matar o piá para demonstrar fidelidade àquele que lhe prometera uma terra. Já estava pronto para enfiar a “peixeira” quando ouviu a voz que vinha do alto e determinou a suspensão dos atos executórios. Ao invés de sacrificar o guri, foi-lhe determinado que sacrificasse um bode ainda novo que estava desgarrado e berrando entre os arbustos. Foi por conta disso que surgiu a expressão “servir de bode expiatório”. O coitado do bode não tinha nada com isso.
Sodoma e Gomorra
A cidade chamava-se Sodoma e ao lado tinha outra que se chamava Gomorra. A vida ali até era confortável, apesar do alto índice de depravação e criminalidade. Não por acaso que “sodomia” tem origem no nome da cidade Sodoma. Por conta disso havia muitos milicianos que faziam a segurança particular, porém o pagamento tinha que ser conforme os costumes. Tudo na “rachadinha”. Quem trabalhava de verdade só recebia uma parte. E o restante ficava por conta da garantia da estrutura, como por exemplo as mordomias, vinhos premiados e lagostas.
Um certo dia, o patriarca ficou sabendo que alguma coisa de ruim iria acontecer naquela cidade. Resolveu retirar o sobrinho em regime de urgência. Mandou recado. O sobrinho bastante inconformado juntou seus cacarecos e caiu fora. Quem ficou uma fera foi sua mulher. Aprontou maior barraco. Não queria sair do conforto de jeito nenhum. Saiu na marra.
A cidade foi bombardeada — não se sabe por quem — e foi completamente destruída. Gomorra também foi atingida. A mulher de Ló, irresignada por ter que deixar aquela vida de mordomias, quis dar uma olhada para trás e foi transformada em uma estátua de sal. Tá lá até hoje. Na verdade, é preciso umas boas doses de cânhamo para definir que uma pedra se parece com uma mulher. É um pouco difícil fazer uma “selfie” porque está bem na beira de um precipício e por questões de segurança e preservação do meio ambiente é terminantemente proibido escalar.
Marco zero das confusões
Segundo os arqueólogos, há evidências de uma antiga comuna na beira do Mar Morto. Quanto ao patriarca, não há provas de sua existência, apesar de existir um local super disputado denominado MORIÁ, local onde supostamente Abraão quase sacrificou seu filho predileto. Ali é o marco zero das confusões. Dizem até que foi ali que Caim matou Abel, que Noé fez suas orações, que Davi matou Golias na base da estilingada e que Salomão construiu o templo que foi saqueado pelo babilônico Nabucodonosor, pelos gregos, romanos e depois Maomé e seus seguidores se apoderaram do local. Não bastasse isso, os Templários se acamparam por ali com suas capas, espadas e cavalos por vários anos.
Nunca houve um acordo sobre a propriedade daquele montinho de pedras. O problema é que não foi registrado no cartório competente. Também pudera, o sujeito que teria escrito essa história viveu cerca de mil anos mais tarde. Só os herdeiros do patriarca ficaram quatrocentos anos no Egito feito escravos, isto porque estavam passando fome na terra prometida, onde pelo que parece não havia nem leite e nem mel.
Moisés, o Salvador da Pátria
Após séculos de escravidão, eis que um menino fadado à morte foi salvo das águas do Rio Nilo e criado por uma princesa. O guri teria sido amamentado pela própria mãe embora tido como filho da princesa. Quando “piazote” brincava de pega-pega com filho legítimo da princesa e foi altamente instruído. Quando adulto passou a ser chefe, tipo ministro da Infraestrutura.
Um dia ficou sabendo que era descendente daquele povo escravo e daí o sentimento étnico falou mais alto. Mudou de posição e duma feita partiu pra cima de um capataz que maltratava um conterrâneo. Para não ser preso, fugiu pro deserto. Foi quando tomou consciência que deveria livrar seu povo da escravidão. Só essa parte já rendeu vários filmes em Hollywood.
Atravessou o Mar Vermelho sem molhar a sola do pé e deu de cara com o deserto além de ser surpreendido e atacado pelos legítimos donos da terra que haviam retomado a posse grilada pelo patriarca Abraão. Moisés, o salvador da pátria, e seu povo ficaram acampados no deserto por quarenta anos na mais completa penúria.
Vira e mexe pintava um entrevero. Moisés percebeu que aquele povo precisava ser levado na rédea curta. Tinha que ter um regulamento fundado nos princípios do patriarca. Subiu a montanha e ouviu a Voz que lhe ditou dez regras básicas de vida, as quais foram esculpidas na pedra bruta. E ai de quem ousasse afrontá-las. Morte na certa.
Se assim foi, Moisés deu prova de resiliência. Pensa num povo que só sabia reclamar. Fizeram manifestações e passeatas. Queimaram e rasgaram bandeiras exigindo a volta ao Egito. Pelo menos no Egito tinha pão com mortadela. Foi quando Moisés perdeu a paciência e resolveu a pendenga. Mandou a polícia subir o morro e distribuir cacetadas e muito mais. Só naquele dia morreram 130 meliantes e apenas quatro valorosos escudeiros.
Acho que exagerou e até duvidou da voz que vinha das montanhas. Por conta disso, não lhe foi dada a graça de entrar na terra prometida.

Josué, Davi e Golias
Mas, aí surgiu um novo líder peitudo de verdade e resolveu a parada. Chamava-se Josué. Organizou uma força tarefa e determinou um ataque relâmpago à cidade do inimigo. Lembram da utilidade dos chifres de bode? Josué mandou tocar as trombetas com potência máxima. Foi um buzinaço de muitos decibéis. O chão tremeu e os murros que protegiam a cidade caíram. Com isso abriu caminho. Naquele tempo não se mediam os decibéis, mas foi um baita de um pancadão. Naquelas alturas, Moisés já estava morrendo de velho, mas ainda pôde ver de longe a terra prometida.
A verdadeira vitória só aconteceu tempos mais tarde, quando um moleque bom de estilingue acertou uma pedrada no meio do “zóio” de um grandalhão fanfarrão que desafiava todo o mundo. Foi “pá-buf.” O sujeito caiu ali mesmo. O guri “chegou chegando” e com a própria espada do grandalhão que pesava mais que dez quilos, decepou a cabeça do atrevido. Com isto o inimigo se apavorou e a vitória total.
Aquele moleque virou rei, fez guerra pra todo o lado reconquistou a terra prometida. Foi quando derrotou os Jebuseus. Os Jebuseus consistiam em várias tribos que formaram uma ONG sem fins lucrativos com a finalidade específica de se manter na posse. Resistiram ao máximo. O jovem rei Davi foi vitorioso e governou por 40 anos. Estabeleceu a capital no acampamento do inimigo, o mesmo morrinho em que Abraão quase sacrificou seu filho e o local passou a se chamar Jerusalém, que significa cidade da paz e também denominada cidade de Davi. O cara tinha estrela, por sinal de seis pontas. Ninguém sabe quem desenhou, mas ela é muito poderosa.


Salomão
Depois seu filho Salomão, segundo o que está escrito, reinou por quarenta anos e foi o rei mais sábio e mais rico que o mundo teve notícia. Foi um tempo de paz e bonança. (Tenho a impressão que os hebreus só sabiam contar até quarenta.)
Salomão mandou construir um grande e luxuoso templo com as seguintes medidas: 126 metros de comprimento, 104 metros de largura, 55 metros de altura com dois subsolos. Mais ou menos da altura de um prédio de 18 andares. Tudo na pedra entalhada e polida. A execução da obra ficou ao encargo do “Mestre Hiram Abifef”. O cara era o cara. Tinha conhecimento de tudo e só revelava o segredo para uns poucos que mereciam a sua total confiança. Em termos de conhecimento de ciência e artes nem Leonardo da Vinci foi melhor. O detalhe é que não deixou nada escrito ou desenhado. Aliás não há provas de sua existência.
Dizem que houve três sujeitos que quiseram receber os segredos na marra e tendo o Mestre se negado, assassinaram-no no canteiro de obras. Salomão ficou uma fera. Mandou sua tropa de elite atrás dos meliantes. Depois de muitas missões de buscas encontraram os assassinos os quais foram exemplarmente castigados e mortos. Um se chamava Jubela, outro Jubelo e o terceiro Jubelum.
Há quem afirme que os vassalos do Rei Salomão estiveram navegando pela Amazônia em busca de ouro e outras riquezas. Quanto a isto não me comprometo. Pior que tem uma galera no momento afirmando que em algum ponto da Amazônia tem uma cidade enterrada que seria muito mais esplendorosa que o templo do Rei Salomão e os Jardins Suspensos da Babilônia, o Vaticano e o Pentágono juntos. Ratanabá é seu nome. Mas deixa isso de lado, vai que seja “fake News”.
Nessas alturas os hebreus tinham um calendário próprio, meio copiado dos seus ancestrais, porém registram todos os acontecimentos desde o início do mundo e do primeiro homem feito de barro. Consta também que estava tudo anotado no cajado do irmão mais velho de Moisés. Talvez fosse um “Pen Drive”. Aí é “prá-cabá”. O calendário estaria certinho não fosse um pequeno erro de cálculo de no mínimo trezentos milhões de anos.

Os Gregos
A história como tal, excluindo os registros dos hebreus, somente começou a ser registrada com base em evidências, por volta do ano 450 AC, por um grego, chamado Heródoto. Quatrocentos anos depois da dramática reconquista da terra prometida. Não se pode, no entanto, ignorar a pedra de Roseta e milhares de tabulete de argila deixadas pelos Sumérios.
Heródoto, o pai da história, não disse quando o mundo começou. Muito embora tenha falado de deuses sábios e túmulos. Depois um outro, conhecido por Platão, contou lendas de uma cidade onde tudo era perfeito, por ele denominada Atlântida. Até hoje tem gente procurando a suposta cidade pelo mundo afora.
A questão é que Platão era platônico. Aliás seu nome nem era Platão. Platão era apelido, que significava “ombros largos”. Em outras palavras, costa quente, é que quando jovem era gladiador, mas parece que não se deu bem e daí resolveu filosofar. Pertencia à aristocracia, portanto não tinha muito que se preocupar com o dia a dia. O negócio era filosofar. Depois dele vieram os neoplatônicos, sempre escorregando na maionese. E como já dito supra, os arqueólogos pós modernos, aqueles que pesquisam pela internet, estão por aí para contar a verdadeira história da carochinha. Agora que estamos na era da IA tudo será esclarecido.
Antes de Platão teve um outro chamado Pitágoras. Também muito sábio. Propôs um teorema que diz: “o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos.” Tudo muito lógico, o difícil é entender. Se bem que dizem que os Egípcios conheciam isso muito bem, só não escreveram. Vai que qualquer dia desses os desenterradores de múmias desenterrem também essa fórmula matemática.
Alexandre, o Xandão
O pai da história, pouco disse sobre um povo que se desenvolveu na escravidão no Egito e que após quatrocentos anos atravessou o Mar Vermelho sem molhar os pés. Tudo bem, até mesmo porque no tempo de Heródoto aquele povo estava novamente na escravidão, desta vez na Babilônia. Foi quando o rei Nabucodonosor resolveu tomar para si a Terra Prometida. Heródoto nem mesmo falou de Salomão, que segundo a lenda foi o mais sábio e poderoso rei de todos os tempos. Mera desinformação.
Depois disso tudo, apareceu outro grande aventureiro que conquistou o mundo. Se chamava Alexandre, o Grande. “Não era o Xandão”. Queria conquistar o mundo, e conquistou. Seu período foi curto. Ainda bem. Morreu com trinta e poucos anos. Parece que ele não era careca.
Não vão querer os incautos leitores que eu fale dos egípcios, etruscos, espartanos, gregos e troianos. Seria abusar da paciência do leitor apressado e impaciente e que está cansado de saber que a mulher do Ulisses foi a mais fiel de todas as mulheres da história.
Os Romanos
Quanto às Sabinas que foram raptadas pouco sei. Só digo que esse rapto nunca ficou esclarecido, mas dizem que só sequestram as raparigas e sapatões. A partir dali surgiu o Império Romano. E como se sabemos os caras eram fodões.
Fato é que surgiu um novo império. Este foi grande de verdade. Ficou tudo dominado. A terra prometida consistia apenas num foco de confusão. Algo parecido com o “Favela do Alemão”. Tanto é que na metade desse grande império nessa terrinha, apareceu um sujeito diferente de tudo o que já havia acontecido, o qual mudou a história do mundo.

Jesus
Segundo dizem os pais dele moravam em Nazaré, mas por uma circunstância especial tiveram que ir para Belém, distante mais de cento e cinquenta quilômetros e, foi ali que Ele nasceu. Um lugarejo próximo de Jerusalém onde dizem tinha sido a casa de campo do Rei Davi.
Deram o nome de Jesus, e este viveu praticamente toda a sua vida em Nazaré, fora o atropelo que seus pais tiveram quando tiveram que fugir pra o Egito. É bom ressaltar que Nazaré sequer existia. O que existia era uma seita hebreia que tinha seu ritual e coisitas mais o que não era bem aceito pelos bambans de Jerusalém.
Não se sabe ao certo, mas no Egito Jesus teria ficado alguns anos, e há quem diga que tenha ido pra Índia e outros lugares onde havia gente que pensava diferente de seus conterrâneos. Verdade é que quando resolveu dar as caras acabou por aprontar as maiores confusões. Dizem que com 12 anos já entendia das escrituras, das leis e debatia com os bons da boca.
Não se sabe muito da sua vida, apenas que transformou água em vinho, ressuscitou mortos, fez discursos e protestos. Criticava aqueles que só viviam na mordomia. Um dia foi preso, condenado sem provas, morto e sepultado, tudo em um final de semana, na madrugada de quinta para sexta feira sem o devido processo legal foi condenado, morto e sepultado. O sábado era reservado para glorificar Javé, o Deus de Abraão. No primeiro dia da semana, bem cedo constataram que seu corpo não estava no sepulcro. Foi um corre-corre. Depois disso ele teria aparecido e conversado com algumas pessoas do seu convívio. Passado uma lua e meia, desapareceu de vez. Segundo relato de seus apoiadores, subiu aos céus na presença deles. Falam em 40 dias, mas tudo bem, uma lua e meia está de bom tamanho.

Paulo e o Concílio de Niceia
Tendo deixado seguidores, alguns anos mais tarde foram escritos os primeiros relatos de sua existência e feitos. A história conforme conhecemos hoje foi ajustada no ano 325, no Concilio de Niceia por ordem do Imperador Constantino. Foi o jeito que ele encontrou para apaziguar o seu império que tava uma verdadeira balburdia.
Um homem que sequer o conheceu, depois de ter caído do cavalo, passou a ser seu seguidor. Chamava-se Paulo. Foi Paulo quem mais veementemente fez doutrinação de suas mensagens e de sua origem Divina. A partir destes relatos o mundo ocidental mudou da água pro vinho. Se bem que um vinho suspeito. Tantos eram os seguidores que surgiu uma nova religião chamada de Cristianismo, a qual no ano 325, foi decretada religião oficial do império que o havia condenado. Gosto do ditado: ” É com o andar da carruagem as abóboras se acomodam”.
Queiramos ou não, Jesus mudou a história da humanidade. Logicamente que para haver tanta mudança, muitas guerras e matanças ocorreram. Até hoje ocorre muitas desavenças por conta de sua doutrina. E pelo que se apresenta, assim vai continuar por séculos. A base da sua doutrina é a fé a esperança e a caridade. Crença em um ser superior. Esperança de uma vida pós morte, que tanto pode ser no céu como no inferno e respeito ao próximo. Querer ao outro aquilo que queremos para nós mesmos. Esse terceiro princípio é condicionante dos dois anteriores. De nada vale a fé e a esperança, se não houver a caridade. Tudo o quanto mais se diz a respeito dele é irrelevante ou periférico.
Tem-se como certo que a data do seu nascimento foi 25 de dezembro. Quanto ao ano…? Trata-se de uma convenção, e, por conseguinte é uma data incerta e improvável. Mas é o marco zero da nossa era. A era cristã.
Apolônio de Tiana
Contemporaneamente teria existido outro sujeito que pregava a mesma doutrina. Chamava-se Apolônio Tiana.
Devido a algumas semelhanças entre a doutrina de Jesus de Nazaré e Apolonio de Tiana nos séculos seguintes Apolonio foi jogado para o ostracismo. Como e porque, é só lembrar que no ano 325 o Imperador Constantino convocou o Concilio de Niceia. A questão era ter uma unidade de pensamentos.
“Você já ouviu falar de Apolônio de Tiana? É provável que não, visto que esse grande sábio se tornou uma figura obsoleta ao longo da história. Porém seus contemporâneos foram capazes de reconhecer e quase venerar esse filósofo. Nascido na cidade de Taina, no século I d.C., esse sábio peregrinou pelo Império Romano difundindo sua filosofia. Dizem que tinha o poder de controlar os mares, os ventos e até ressuscitar os mortos. Ele seria ainda elevado, por alguns biógrafos, como um ser tão próximo ao divino que se assemelharia aos próprios deuses. Devido à época em que viveu e os seus feitos, por muito tempo se especulou que as narrativas sobre a história de Jesus Cristo e Apolônio fossem a mesma, pois qual a “chance” de existirem dois grandes sábios em um período tão curto de tempo?” (https://feedobem.com/artigos/inspirar/apolonio-de-tiana-um-sabio-misterioso-da-antiguidade/)
Os Bispos, os Calendários e o Fim das Eras
Colocados todos esses elementos históricos — ainda que destituídos de referências bibliográficas —, o tema “Marco Zero” visa mostrar como aconteceu o início das eras.
Poder-se-ia simplesmente seguir o calendário Judaico, com marco zero 3.760 anos antes de Cristo. Desta feita, estaríamos no ano 5.782. Enfim, nosso calendário atual, chamado gregoriano, foi estabelecido no ano de 1.582, pelo papa Gregório XIII. Antes havia o Calendário Juliano, ainda hoje seguido pelos Cristãos Ortodoxos. Na verdade, a contagem dos anos e dias estava bagunçada. O ano iniciava dia primeiro de abril, após os festejos em homenagem ao deus Baco. Era uma semana de bebedeiras e libertinagens.
Buda estabeleceu para seu povo princípios de vida bem semelhantes aos da Lei de Moisés, que por sua vez guarda similitude com os princípios de Zoroastro, que viveu na Pérsia cerca de 600 anos antes de Cristo.
Já os Incas tinham um calendário de 12 meses e dias da semana com 10 dias, sendo o último o dia da feira. A grande produção pertencia ao chefe, que armazenava e distribuía conforme a necessidade do povo. A segurança alimentar estava em primeiro plano. Não existia fome, nem desperdício.
O esperado é que haja um Marco Zero sobre o entendimento de Deus. Um Deus que não prometeu terra pra ninguém. Um Deus de entendimento entre os homens, ainda que com suas diferenças étnicas e culturais.
Os conceitos de tempo e espaço, de dualidade, do bem e do mal, do forte e do fraco, foram criados pelo homem. Espécie diferenciada com capacidade de racionalização — ou seja, capacidade de justificar, explicar, fundamentar, defender, organizar e complicar.
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” (João 1:1)
Para não ser prolixo, e citando o polêmico comunicador brasileiro da terceira quadra do século XX, Abelardo Barbosa, ou simplesmente Chacrinha:
“Não vim para explicar e sim para confundir.”
Estamos simplesmente entrando na era digital, do “metaverso”, um conceito de espaço virtual 3D online que conecta tudo a todos e em todos os aspectos. Uma nova era, diferente para permanecer tudo igual. Estamos na era da Inteligência Artificial, onde tudo é facilitado, podendo-se adotar a lei do Menor Esforço e por consequência voltarmos ao marco zero da pedra lascada.

Prêmio da Vida
Por vales e campinas,
Viagens além da colina.
Doce infância campesina.
Devaneios e sonhos de menino
Brincando com seu cachorrinho.
Que, sei lá… sumiu no caminho.
Quanta saudade do pobrezinho.
A vida segue em frente.
Tudo muda de repente.
O tempo cobra do vivente.
Mesmo forte, enérgico e bravo
O tempo bate em seu costado;
Cobra pelos serviços prestados
E certifica com comprido cajado.
Não indaga como foi o começo;
Das circunstâncias ou endereço.
Se do lado direito ou do avesso.
Apenas mede, pesa e põe preço.

Tempos de Antanho e de Agora
Gosto do meu tempo. Oito de fevereiro de 1950, segundo o calendário gregoriano, apenas um acontecimento de relevância. Nasci. De resto a Wikipédia registra para esta data magistral, o mesmo dia e mês, em 1828 o nascimento Júlio Verne e em 1931 nascimento ator de cinema James Dean. “O ator se imortalizou como um ícone cultural, representando o ceticismo e desilusão dos jovens do pós-guerra”, ao passo que Julio Verne escreveu A Volta ao Mundo em 80 Dias. E assim criou o gênero literário Ficção Científica.
Gostaria de comemorar um aniversário na companhia desses dois ícones vez que de alguma forma instigaram-me na juventude com Volta ao Mundo em 80 Dias e o filme Juventude Transviada.
Com o passar dos dias, os romances deram lugar à realidade da vida. Buscando respostas em meio às turbulências. Andei e perambulei. Repito. Gosto do meu tempo. Saímos da pedra lascada para a era digital. A mais curta das eras, a mais pacífica e mais transformadora. Ter vivido neste tempo é ter participado de um momento ímpar da história da humanidade. — Talvez isto não seja importante. — “O importante é viver, e viver bem.” (Sêneca)
Vale salientar que de 1950 até hoje, muitas pontes foram construídas, podemos citar a Rio-Niterói; poucos rios secaram. Não sei de nenhum, mas lá pelo oriente médio com certeza secaram muitos. Com certeza foi o melhor período após as águas do dilúvio terem baixado. As narrativas das eras são de guerras e tragédias.
Nesse curto período da história o homem foi à lua e outros planetas, evoluiu do telefone discado para o celular e a internet. Constatou a grandiosidade do universo e que a terra não passa de um grão de areia; contudo é azul.
Não sabemos a origem do universo, ou a origem do próprio homem. Sabemos de um diferencial entre as criaturas, que é a capacidade de raciocínio e de rir. Acreditamos em um ser superior que tudo criou. Aprendemos a distinguir o bem e o mal, concebemos a ideia de vida eterna e que estamos aqui de passagem, porquanto, devemos respeitar toda a criação. Enfim, vale o tempo de agora.
De antanho havia um mundo que era igual ao de agora. Diferente era o modo de vê-lo. Talvez fosse grande.

Agora é o de agora. Nem grande nem pequeno, o suficiente para viver, sentir as estações e fazer as coisas à duas ou quatro mãos. Conforme a canção, interpretada pelo cantor do século, Frank Sinatra:
MY WAY
Eu vivi uma vida completa
Eu viajei por toda e qualquer estrada
E mais, muito mais que isso
Eu fiz isso do meu jeito
Arrependimentos, tenho alguns,
Na verdade, poucos para citar.
Fiz porque entendi ser bom fazer
E vivi por completo sem isenção.
Planejei cada curso traçado,
Cada passo ao longo do atalho.
E mais, muito mais que isso…
Vivi e fiz isto do meu jeito.
12/03/2026
O Caminhãozinho de Mudança
Das brincadeiras em italiano no vale gaúcho à fronteira de Rondônia, passando pelo fandango, pela bodega do papai e pelo coração que parou para ouvir o sabiá…
Minhas recordações levam-me ao tempo de infância. Dos então sete, eu era o quarto. Brincávamos entre arvoredos e pedregulhos. De pega-pega e esconde-esconde: “Guiri, guiri gaio… escampa sotto il gaio.” Há capito? — “Alora fatte furbo.” — “Sete tu in cielo, ora piu belo, secondo marino, para andare in pescaria, tre narance e tre limone, pinfete, pinfete, mandolo via.”
Não sabíamos o significado, mas brincávamos de esconde. (Você no céu será o mais bonito. Segundo o marinheiro para ir na pescaria, três laranjas e três limões, pimfe, pafe te mando embora.)

Do topo da campina, via-se ao longe, além do vale, uma vila. Imaginávamos como seria. Uma igreja grande, muitas carroças, uma bodega com caramelos e brinquedos. O sonho era atravessar o vale e com alguns passos chegar lá. De uma feita, calçamos as botas de papai, imaginando que com elas nossos passos seriam longos e lá chegaríamos num instante. Sequer conhecíamos a história do Pequeno Polegar e do Gigante com botas de sete-léguas. Quem nos poderia contar? Tudo o que ouvíamos era a história do Negrinho do Pastoreio. Pobre Negrinho do Pastoreio. Nossa sina era melhor que a dele. Não tínhamos que procurar cavalos na escuridão. Porém, tínhamos o desejo de transpor o vale num passo de mágica.
Um dia, no começo do inverno, papai nos disse: — vamos mudar, vamos embora. — O que seria isso? Ir embora, mudar?… Lembro apenas que certa manhã apareceu um caminhão e tudo foi carregado. Camas, panelas, galinhas, porcos, uma vaca, o burro e até os dois cachorros. Ficou o gato, que foi pro mato, que o fogo queimou, que a água apagou, que o boi bebeu, que foi puxar milho, que o padre levou e foi por ali foi e por ali sumiu.
Partimos por volta do meio dia. Todos os seis, mais papai e tio Ângelo acomodados sobre a carga. Na cabine, além do chofer, foi mamãe com o maninho menor de apenas dois anos e mais um na barriga. Logo chegamos na sonhada vila. Tudo que lembro: uma bodega, algumas pessoas, abraços de despedida e de alguém que nos deu um punhado de caramelos.

Seguimos viagem. Logo mais transpomos o rio Uruguai. Subimos a encosta e já noitinha chegamos em uma cidade. Um assombro. Casas com luzes que não se pareciam com velas ou lamparinas. Papai nos disse ser luz elétrica. Pousamos em um hotel. No quarto, além de camas, uma bacia, um jarro com água e ao pé da cama o conhecido pinico.
A viagem seguiu logo no clarear do dia. Passamos por descampados cobertos de geada. O frio era cortante, todavia, estávamos bem agasalhados, enrolados nos acolchoados de penas de galinha. Tão curiosos quanto nós, estavam os dois cachorros encoleirados, o burro e a vaca confinados na traseira do caminhão. Já não lembro do quanto mais vimos, além de o vento ter arrancado o chapéu da cabeça do tio Ângelo que nos acompanhava. Jamais imaginara ir além do vale, além da vila.
De repente, outra cidade, maior ainda, muita gente, filas de caminhões e automóveis. Fogos de artifício e nós no caminhãozinho em meio a tudo aquilo. Senti o coração bater forte. Vi os cachorros ganindo aturdidos pelos fogos. O burro agitado, de orelhas erriçadas, e, apertados no mesmo cercadinho, a vaca e o bezerro. Alguém disse que a cidade se chamava Pato Branco. Era dia de São Pedro, o padroeiro da cidade e aquele era o momento da procissão. Precisamente dia 29 de junho e o ano era 1957. Eu tinha sete anos.
Não demorou e tudo ficou para trás. O caminhão embrenhou-se por uma estrada estreita sombreada pela mata coberta por pinheiros. Um cenário nunca visto. Por volta da meia tarde chegamos ao destino. Em meio ao quase nada, um rancho de tábua lascada, que sequer coube a pouca mobília.
Um longo passo dado por papai e nós ali agarrados em suas botas. Papai era um gigante.
O rancho do tio Eurico
O rancho que morávamos era do tio Eurico. Mal coube a pouca mobília que tínhamos. O fogão a lenha ficou do lado de fora. Também emprestou um pedaço de terra para plantar. Havia uma capoeira. Fizeram um mutirão. Pela manhã compareceram mais de vinte peões com foices e facões. Foi lindo ouvir o “vapete-vapete” das foices, o mato caído e os peões gritando, capoeira!… auia!…
Ao meio dia, almoço para a peonada. O pagamento era o fandango. Na outra semana, à noitinha, apareceram os violeiros, uma gaita e um pandeiro. Peões alinhados, botas lustradas, cabelos na brilhantina, moças e mulheres de lábios pintados, ruge nas bochechas, perfumadas e sandálias moreninha. Só lembro do começo da cantoria. As crianças tinham que dormir enquanto o fandango corria pela madrugada.

Chegou a primavera e com ela mais um guri, agora éramos nove. Chegou a colheita do trigo. A aparelha de burros se assustou e disparou com a carroça. Foi caco pra todo o lado. Papai saltou e não se machucou.
Preparamos os chapéus com capim para o burrinho do Papai Noel. No amanhecer o capim havia sumido e nos chapéus alguns caramelos e não mais que três bolachas maria.
Mais alguns dias mudamos mais acolá, e de repente estávamos dentro de uma bodega. Não aquela da vila, mas uma instalada dentro da nossa casa. Papai agora era bodegueiro. Havia de tudo um pouco. Cachaça, fumo em corda, rapadura, chumbo, pólvora, ferramentas, tecidos e armarinhos, caramelos e bolacha maria. Tudo fluía na base de troca. Cereais, galinhas e até serviços. Era uma freguesia bem eclética. Os caboclos, a italianada, e alguns polacos. De quando em vez uma confusão, sempre apartada por papai que era o conciliador. Não podia espantar a freguesia.


Eu, guri, observava tipos como o Theodoro, viciado no baralho, e o Pedrinho Facão, sempre alegre contando lorotas. Mas ninguém causou tanto bafafá quanto o João Madalena.
Ninguém sabia de sua origem. Por ali chegara, montado em um cavalo bem encilhado, com uma mulher e dois filhos, e se acomodou num rancho já abandonado. Seguidamente comparecia na bodega mais para tomar um trago do que para fazer alguma compra. Uma feita, já noitezinha, solicitou ao papai que lhe entregasse um punhal que havia depositado na chegada. Papai, sabendo que ele não havia depositado faca alguma, mesmo assim esforçou-se e procurou. Entreguei, não entregou — e a prosa azedou. João Madalena foi enrolando a açoiteira no cabo, em claro sinal de ataque. Papai arremessou o peso de balança que pegou de raspão na testa do sujeito.
Foi aquele ba-fa-fá. As portas foram fechadas e nós corremos para o sótão, tremendo de medo. O homem estava vivo — apenas com um pouco de sangue. Montaram nos cavalos e sumiram na escuridão.
Não demorou e ouviu-se o tropel parando em frente à bodega. Alguém gritou: — Abre a porta senão vamos arrombar na bala! Mamãe viu quando papai empunhou o revólver. Num golpe de coragem, tomou a arma da mão dele e abriu a porta dizendo:
— Atirem, seus covardes!

Houve entre eles alguém de bom senso: — É uma mulher! Mesmo assim fizeram papai prisioneiro. Mamãe montou num burro manso e partiu noite adentro rumo à autoridade. Era meia-noite quando acordaram o delegado. Na madrugada cercaram o rancho. Todos se entregaram sem resistência.
O delegado declarou solenemente: — Todos estão liberados, mas proibidos de frequentar bodega por 30 dias. Mais: voltem agora para suas casas, a pé e no sol quente.
O Velório da Velha Sebastiana

As histórias não se davam só no balcão — seguiam pelos velórios até a beira da cova. No velório da velha Sebastiana, a paz durou pouco. Seus filhos, Manezinho e Emiliano, já não se bicavam. Emiliano, embriagado, provocou tanto que Manezinho puxou do facão em pleno velório. Para não ser retalhado, o Emiliano arrancou a cruz que guarnecia o caixão da própria mãe e usou-a como escudo, protegendo-se do facão que reluzia naquele lusco-fusco. O velório prosseguiu pela madrugada, sob o olhar atravessado dos irmãos por cima do corpo da falecida.
O Rabo-de-Tatu
De outra feita, Emiliano provocou um cunhado chamando-o de ladrão de cano de fogão. O cunhado, munido do rabo-de-tatu, desceu o mango que fez um estrago na paleta. Emiliano com o lombo ardido continuou: — Ladrão, sem vergonha! E lá se foi mais um laçaço, retrucando: — Podem me chamar de ladrão, mas não de sem vergonha! Mas logo tudo se acalmou — exceto Emiliano, que pediu que lhe massageassem com cachaça. Fizeram. Mas aí o berro foi maior.
A escola e o mundo lá fora
A menos de dois quilômetros, uma escola que também servia de capela. Lá íamos para a reza aos domingos e durante a semana para prender o ABC. Sol, chuva, barro, geada e apenas chinelinhos nos pés e “guarda-passo” à tiracolo — e dentro um lápis, uma borracha, um caderno, a cartilha e uma batata cozida para o lanche. Era assim. Aprender a ler, escrever, fazer continhas, as cores da bandeira e catecismo. Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil e Jesus nasceu em Belém numa manjedoura. O que seria uma manjedoura? Uma palavra esquisita. Tão esquisita quanto os reis magos e Herodes. José e Maria, tudo bem — mas Herodes?… Não dava nem pra imaginar alguém com esse nome.
Corria notícias de jagunços e de revolta. Gente que ia e que vinha a cavalo, com revólver na cinta. Falavam de um levante dos colonos e que gente havia morrido. Depois, que veio o exército e tudo voltou à normalidade. Depois um Movimento pela Legalidade e de um plebiscito onde o povo tinha que votar Sim ou Não — e ninguém sabia o que era. A maioria seguiu o conselho do padre. Venceu o Não.
Passaram-se alguns anos e o tempo de criança. Papai preocupado. Vejo agora como ele era um gigante. Transpôs o vale, as campinas, enfrentou os sertões e correu riscos. Os filhos, onde fazê-los estudar? Colégio de padres seria um caminho seguro. Aos doze anos, reiniciado o primário, porque a cartilha era diferente — aliás, tudo. Chorei, sem saber porque. Foi quando alguém me disse que era por causa da saudade.
De vez em quando ouvia as pessoas falarem da nova capital. Quando já dava para entender alguma coisa do Brasil e do mundo, lembro que os padres diziam que a Rússia era comunista. Os nomes mais falados eram Jango, Brizola e revolução. Finalmente a notícia de que o exército havia tomado o poder. O nome agora era Castelo Branco.
Aos dezesseis anos, um ano de admissão para iniciar o ginasial. Aos dezoito, alistamento e inspeção militar. Fui dispensado.
Como se estivesse na sobrecarga do caminhãozinho de mudança, ousei calçar as botas de sete léguas. Aos trancos e barrancos fiz o científico e ingressei na faculdade, entremeio aos alardeados anos de chumbo e o Milagre Brasileiro.
O novo eldorado

O Brasil se estendeu pelas trilhas rasgadas pelos bandeirantes, tropeiros, garimpeiros, seringueiros, aventureiros. Metas ambiciosas traçadas pelo governo para a integração da Amazônia.
No início dos anos oitenta, como tantos outros, fui em busca do alardeado novo eldorado. Rondônia. Por entre as nuvens contemplei a mata quase infinita. Em terra: rios, brejos, atoleiros, picadas. Antas, onças, tatetos, pico-de-jaca e pernilongos. Peixes, ariranhas e jacarés. Papagaios, arraras, garças e o irritante biscateiro. (Passarinho quase invisível e de forte assobio.) Malária, leishmaniose e verminoses. Cidades surgindo do nada. Serrarias, barracos, bolichos e peões. Acidentes, assassinatos e tragédias. Gente com mochila nas costas — “cacaio” — levando apenas sal, farinha, pólvora e chumbo. Carabina à tiracolo, terçado na cinta e foice na mão. Auia!… lá vem madeira!
Migrantes do sul, nordeste e sudeste em busca da terra prometida, da sobrevivência e da riqueza. Exploração e madeira. Ganância, bravuras, aventureiros e gente humilde. Todos juntos e misturados. Agricultores, comerciantes, profissionais liberais, médicos, engenheiros. Coragem, suor e resiliência. Nada muito diferente da canção que veio do tempo de antanho — e no caminhão de mudança, reescrita por Vinícius de Moraes:
Tem certos dias em que eu penso em minha gente e sinto assim todo o meu peito se apertar.
Porque parece que acontece de repente, feito um desejo de eu viver sem me notar.
Igual a como quando eu passo no subúrbio, eu muito bem vindo de trem de algum lugar.
E aí me dá como uma inveja dessa gente que vai em frente sem nem ter com quem contar.
São casas simples com cadeiras na calçada e na fachada escrito em cima que é um lar.
Pela varanda flores tristes e baldias como a alegria que não tem onde encostar.
E eu que não creio peço a Deus por minha gente. É gente humilde que vontade de chorar.
Vida de gado, povo marcado, povo feliz. — Zé Ramalho
Parece que aconteceu tudo de repente. Lá estava eu no meio dessa gente, com meu sal e a esperança de poder ir além do vale. Mais de três décadas vivenciando a transformação da paisagem, participando do florescer de cidades e vendo crianças se fazendo adultos e dando continuidade àquele sonho.
O coração engolindo caroço
Um dia, já na bela idade, próximo ao dia da procissão de São Pedro, subindo o barranco do igarapé, senti o fraquejo. Bastou o encosto do estetoscópio para saber que o coração estava “engolindo caroço.” Lá “vai nóis.” Madeira…; corre “que o bicho pega.”
Botas de sete léguas e subir no caminhãozinho de mudança. Agora não mais pela viação Taba, mas por um moderno. Voando por cima da quase extinta floresta, retornei para a terra das araucárias. Curitiba e ao seu costado uma campina. Campina Grande do Sul.
Naquela campina vi muita gente em busca de um novo eldorado. No corredor, parecendo uma procissão do padroeiro, uma fila de macas. Cada qual em busca de seu sonho e milagres. Eu ali em meio a tudo aquilo, com o “cacaio” jogado de banda. Foi um instante em que pensar na vida não fazia o menor sentido.
Foi só uma agulhada e, como se fosse um esturro na floresta, tudo silenciou. Acordei no clarear do outro dia. Pela janela do hospital vi a copada de um pinheiro e ouvi o cantar de um pássaro. Não era o pio do biscateiro. Reconheci o harmonioso canto do sabiá.
Ainda sob os efeitos da anestesia, entendi que meu coração pulsava. Depois, mirando o teto, senti o frio. O frio do mês de agosto. Tive a sensação de estar no topo do caminhãozinho, vendo os campos cobertos de geada. A geada fria que queima o assa-peixe, que rebrota na primavera, para florir e produzir o melhor dos pólens e o mais gostoso mel.


Continuidade
No caminho natural das pedras, dei entrada no INSS e logo veio a aposentadoria. Natal. Oh, oh, oh. Coração batendo e a vida continuou. Não é um começo, nem recomeço, simplesmente continuidade.
Ver os filhos transpondo os vales e netos brincando de “Sonic” dá uma alegria esquisita. Alegria por saber que além do vale existem campinas e outras coisas que a vida ensina. Alegria esquisita de saber que o que se começa, de alguma forma termina.
Por vezes, vem a saudade. Saudade do caminhãozinho de mudança e até daquilo que gostaríamos ter vivido. Sentir saudade é a certeza de estar vivo. É o prêmio da vida.
“Vós me chamaríeis e eu responderei, teríeis saudade da obra de vossas mãos.”
(João 14,15)
13/03/2026
A Lenda dos Paititis
Os sonhos de ouro, diamantes e o pássaro de fogo no coração da Amazônia brasileira.
A LENDA DOS PAITITIS: OURO, DIAMANTES E O PÁSSARO DE FOGO
Diz a lenda que quando Pizarro saqueou os Incas, parte do povo fugiu para a selva levando um tesouro colossal. Onde o esconderam? Entre Vila Bela da Santíssima Trindade e Guajará-Mirim, na margem direita do Rio Guaporé. Seria o lendário Paititi, o Eldorado que bolivianos, peruanos e colombianos seguem buscando.
Em 2001, o arqueólogo Mario Polia, pesquisando os arquivos do Vaticano, encontrou um manuscrito de um jesuíta espanhol dos meados do século XVI, Andres Lopes. Nesta carta, relata uma viagem com uma duração de muitos dias pela selva a partir de Cusco, em busca de um reino ou uma cidade onde havia mais ouro do que em Cusco. Seria esta cidade “Paititi”?
Marechal Cândido Rondon e Theodore Roosevelt na expedição pelo Rio da Dúvida (Rio Roosevelt).
DE ROOSEVELT À RESERVA
Certo é que “Cabeza de Vaca” jamais ouviu falar desse tesouro e a lenda possivelmente motivou o Marechal Rondon a fazer um ângulo de noventa graus no traçado da linha telegráfica quando chegou na região de Vilhena. Mais tarde, juntamente com Theodore Roosevelt, empreenderam uma expedição pelo Rio da Dúvida, hoje Rio Roosevelt. Nada encontraram além do próprio rio.
Diria, nada encontraram porque não procuraram direito. Isso porque no fim do século XX, oitenta anos após a lendária expedição, foi descoberta uma grande mina de diamante, uma das maiores do mundo, justamente na reserva Roosevelt. Não por acaso, está encravada na reserva indígena dos Cinta Larga. Desde então, muitas ocorrências de contrabando, corrupção e assassinatos. Para todos os efeitos, não pode ser explorada. A reserva Roosevelt, de onde os diamantes eram extraídos pelos criminosos, tem uma área de 231 mil hectares e fica localizada entre a divisa de Rondônia e Mato Grosso. Na área existem dois povos indígenas, entre eles o Cinta Larga.
A MULHER NUA E O URUCUMACUÃ
A lenda das minas de Urucumacuã diz que, para alcançar o tesouro, o viajante cruza o cerrado e avista uma mulher nua e linda que indica o caminho. Mas logo surge o pássaro de fogo Urucumacuã e põe tudo em fuga. Tamanho tesouro não seria entregue ao primeiro forasteiro. É preciso coragem, sorte e um pau-de-fogo na cinta para enfrentar o guardião amazônico.
Supõe-se também que a expedição Roosevelt tenha encontrado vestígios da mina, todavia, entretanto, corria o ano de 1915, não demorou e sobreveio a primeira grande guerra, e tudo ficou no mais profundo silêncio. De outro lado, Rondon, que era mais “caxia” que o próprio Caxias, se falou alguma coisa sobre os diamantes, não falou para nenhum aventureiro. Fato é que logo após sua morte em 1956, a região passou a ser visitada e explorada por aventureiros e garimpos ilegais. Mas aí a novela é outra. O presidente Juscelino determinara a abertura da BR 364. Rodovia essa, sem a qual nada seria factual.
Enfim, Paititi, Eldorado, Urucumacuã, Fawcett, Serra do Roncador, Reserva Roosevelt, Rio da Dúvida — é tudo um mistério. Mas diamantes e ouro por lá tem, e muito.
13/03/2026
Cabeza de Vaca
A épica e irônica jornada do conquistador espanhol que nunca conquistou nada — do naufrágio na Baía de Babitonga até o pé na bunda em Asunción.
No primário, além de lendas dos bandeirantes, como de Borba Gato, disseram-me que o primeiro que se atreveu atravessar território Paranaense de leste a Oeste foi o espanhol Núñez Cabeza de Vaca. O que se sabe é que em 1544 o capitão espanhol Domingo Martínez de Irala foi proclamado governador do Paraguai, após prender Núñez Cabeza de Vaca, sujeito que havia se apoderado do posto de mandatário da então espelunca que surgia à margem do Rio Paraguai a qual veio a se tornar a belíssima cidade de Asunción.
Até então não existia a província do Paraguai, tão pouco o Paraná. Tudo era terra de ninguém ou dos índios nativos e que pouco a pouco foram dizimados pelos conquistadores. Segundo Darci Ribeiro, mais de um milhão deles existiam pelo Brasil, espalhados e agrupados e com suas culturas diversas.
O tratado de Tordesilhas partilhou as terras do Novo Mundo entre portugueses e espanhóis, sem plebiscito ou audiência pública, tudo assim na mão grande, na cara dura e com as bênçãos da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana.
O continente americano já tinha um povo de elevada organização sócio-política, tanto é que ingenuamente, interagiram com os conquistadores. Daí, já viu. Saíram pelados com as mãos no bolso.
O causo do momento é sobre um sujeito batizado por Alvar Nunes Cabeza de Vaca, ou simplesmente, Cabeça de Vaca.
Os registros dão conta de um aventureiro conquistador que nunca conquistou nada. Explico: Sua saga de conquistador teve início na América Central, porém por lá se deu muito mal. Hernan Cortes já havia fincado o pau da bandeira por lá. Mesmo assim o infeliz não se deu por derrotado, pudera, era “pau mandado” da decadente nobreza e crescente burguesia espanhola abençoadas pela cúria romana e assim fez nova expedição, dessa vez para a América do Sul. Sua missão era encontrar ouro e prata. Ficou sabendo que Francisco Pizarro já tinha passado o rodo e levado o ouro dos Incas. Mesmo assim montou uma estratégia. Chegaria aos Andes pelo outro lado. Costeando as terras pertencentes aos portugueses chegou na parte sul, Cananeia, mas ali já tinha um Certo Bacharel, bem ambientado e que apenas lhe passou algumas informações por ouvir dizer.
O dito Bacharel de Cananeia foi um degredado português e posteriormente traficante de escravos, intérprete e guia de navegação. Foi levado para o Brasil, no litoral sul do atual estado de São Paulo onde passou a viver entre os indígenas carijós. Foi apalpando, foi apalpando até chegar na Baía de Babitonga, Ilha de São Francisco. Porém diz a lenda que por ali naufragou tendo perdido duas ou três naus, homens e cavalos, mas conseguiu se salvar nas calmas águas da baía.
Enquanto pensava na vida, ficou por ali conversando com os índios Carijós, senhores da região, até que um dia chegou ali na praia um índio com panca de cacique, sujeito de boa lábia, tipo Silvio Santos, que “ablava espanhol, pero no mucho” e cochichou na orelha do mui ilustre Cabeça de Vaca apontando para a floresta: “mucha plata”.
De pronto Cabeza de Vaca arregalou os olhos, consultou o mapa de Piri Reis que estava guardado no fundo do baú e após minucioso exame concluiu que poderia se apoderar da “Tierra de los Mojos”, sem ter que passar por Buenos Aires, até mesmo porque não apreciava tangos e milongas.
Mas o combinado não é caro. Paraguá reuniu tudo o que era índio que tinha por ali e, devidamente armados de tacapes e zagaias, partiram de mala e cuia. Na verdade, levavam a cuia posto que a mala era o Cabeza de Vaca, um verdadeiro mala sem alça.
O problema era encarar a mata. Cabeça de Vaca já tinha levado uma esfrega no deserto do México, portanto estava meio “veiaco”. Topou porque o cacique disse que conhecia muito bem o caminho. Acontece que mal conhecia um pedacinho da Trilha de Peabiru que subia a serra e se estendia para o infinito da floresta.

Subiram a serra, e nas nascentes do Rio Iguaçu construíram alguns caícos de garuva e se atracaram rio abaixo. Foi quando Cabeça se viu no mato sem cachorro, mesmo porque se quer “cusco” tinham. Havia muito cachorro do mato que Paraguá chamava de graxaim.
Quando já pensavam estarem no fim da viagem embocaram na correnteza e despencaram nas cataratas. Foi um “Dios nos acuda”. Cabeça de Vaca, vendo novamente a viola em cacos, exclamou: “Salve-me Jesu Cristo, que lhe darei dez por cento de toda la plata que conquistarei!” Conseguiu se agarrar num galho de sarandi e ali ficou pendurado berrando feito bugio, balançando dois pra cá e dois pra lá; bem no estilo gauchesco. Ao seu lado estava seu fiel escudeiro Paraguá que, antevendo a desgraceira, pulou do barco e por sorte se agarrou numa taquara, subiu a barranca para acudir o “mala sem alça”.
Passado o susto, Cabeça de Vaca sentou-se numa pedra e ali permaneceu teso, abichornado, escutando o barulho da água. Sentiu-se tão azarado que se auto definiu como “esgualepado”, ou seja, mal pago. Na verdade, o combinado entre Cabeza de Vaca e Paraguá não se deu por contrato registrado em cartório, portanto sem efeitos jurídicos.
Foi naquele momento de baixo astral que seu ajudante de ordens, Paraguá, catou folhas de uma planta, socou na cuia de pau — que acabara de resgatar entre as pedras —, misturou com água e deu para o chefe beber e, murmurou em perfeito tupi-guarani: “Te-Rê-Rê”, ou seja, fica frio. Cabeça de Vaca já estava engrunhido de frio e ter que escutar palpite do índio desgraçado foi demais. O sangue ferveu na veia de Cabeça de Vaca, com vontade de esguelhar seu fiel escudeiro. Paraguá, liso como um serelepe, se embrenhou no taquaral e sumiu. Só voltou quando Cabeça de Vaca já estava rouco de tanto gritar. O índio apareceu de “esgueio”, ressabiado. Ao vê-lo, Cabeça de Vaca conversou: “E no se puede mas acer una brincaderita?”
No outro dia, no alvorecer, Paraguá começou a juntar os cacarecos e recarregar o caíco que ficou encalhado entre as pedras. Tudo ajeitado, partiu rumo à tríplice fronteira, que até então era conhecida por “curva de rio”. Acontece que Cabeça de Vaca ainda estava meio tonto com tanto barulho de água e determinou: “Adalante!”
Seguiram remando e perceberam que estavam num outro rio cujo nome desconheciam. Então, em homenagem ao seu obstinado ajudante, Cabeça de Vaca o denominou de Rio Paraguai. Por ele subiram até chegar numa espelunca onde encontraram alguns castelhanos. De cara foi lhe exigido uma propina, aliás coisa normal naqueles tempos. Como não tinha nenhuma “plata”, penhorou a única ceroula que lhe restara, coisa mui útil para aquele tempo.
Foi recepcionado por um indivíduo conhecido por Mendoza. Mesmo não sabendo onde estava, Cabeça de Vaca deu uma de “João sem Braço”. Percebendo que o anfitrião era um zé ninguém, disse que estava ali por ordem do Rei e assim se intitulou chefe da zona, quer dizer da região, e por ali ficou cantando guarânias.
Passados uns dias, Mendonza perguntou: — Don Nunhes Cabeça de Vaca; que quieres usted a lá cá? — La Plata! Donde está la plata?
Mendonza apontou para o norte e disse: “No se puede, es mui peligroso”; ao que Cabeça de Vaca retrucou: “Posso si!” Paraguá, que não entendia patavinas do que os dois discutiam, deu uma risadinha e murmurou: “POTOSI”.
Numa bela tarde, Cabeça de Vaca estava navegando pelas águas serenas do Rio Paraguai quando deu de cara com uma chalana onde um sujeito com cara de poucos amigos lhe esfregou no nariz um “catatau” assinado por El Rei da Espanha e meteu um pé na bunda de Cabeça de Vaca, mandando-o à lá cria, para nunca mais querer conquistar bulhufas.
…e a chalana foi sumindo na curva do Rio.
Para não dizer que foi um completo azarado, retornou à Espanha feito prisioneiro sob a acusação de improbidade administrativa, mesmo sem prova alguma. Ficou quinhentos e quarenta dias preso, mas depois foi libertado e teve seu processo anulado. Ainda tentou reconquistar o prestígio de outrora, mas não teve apoio. Ficou até com medo de sair na rua. Virou monge onde escreveu suas memórias, convicto de sua honestidade. Não demorou e bateu as botas. Enquanto monge, examinou documentos oficiais e acabou por descobrir que o cara que estava na proa da chalana não tinha competência alguma, razão pela qual seu processo foi anulado.
Especula-se também que tenha navegado pelo Rio Amazonas e Rio Madeira onde foi barrado por uma cachoeira, então atracou num antigo porto já utilizado pelos índios. Malditas cachoeiras que o impediam de chegar por águas no interior da Bolívia. Atracou por ali um tempo e depois se mandou para o sul, onde naufragou na entrada da Baía de Babitonga, onde encontrou os Karijós e seu fiel escudeiro Paraguá.
Cerca de trinta anos depois de Cabeza de Vaca ter descoberto as cachoeiras do Rio Madeira, também conhecidas por cachoeiras do Teotônio, outro espanhol conhecido por Nuflo de Chaves teria relatado a existência das cachoeiras do Rio Madeira. Esse espanhol atracou num antigo porto de uso dos índios Caripunas e denominou de Porto Velho. Ali encontrou uma lamparina ainda acesa deixada por Cabeça de Vaca, bem na foz de um rio que passou a se chamar Candeias por conta do lampião deixado por Cabeça de Vaca.
O nome Cachoeira do Teotônio se deve a um português aventureiro que, por volta de 1750, fundou a primeira vila no local hoje conhecido por Porto Velho. Esse tal de Teotônio, que na verdade era paulista, é uma história à parte. Podemos adiantar que navegou pelos rios da Amazônia e também no estuário da Prata; dizem que foi cofundador da Vila Bela da Santíssima Trindade no Mato Grosso, juntamente com Don Antônio Tavares de Rolim de Moura, conde de Azambuja.
Moral da história: o tal Cabeza de Vaca quase deu uma volta ao mundo para, em Asunción, levar um pé na bunda. Um verdadeiro CABEÇA DE VACA.
Quanto ao Cacique Paraguá, depois dessa experiência mal sucedida decidiu dar uma parada. Tendo retornado com Cabeza de Vaca sem direito algum, nem mesmo ao trabuco que tanto sonhara ao chegar nas nascentes do Rio Iguaçu, decidiu ficar por ali. Ali havia muitos pinheiros e um rio piscoso que o denominou de Piraquara. Por ali pescava, colhia pinhões, estaqueava couro de veado e quando seus conterrâneos, os Carijós, subiam a serra pela Trilha de Itupava, trocava por sal, chumbo, pólvora e até um trabuco. Aquele mesmo do Cabeza de Vaca, que ao embarcar esqueceu o mesmo na beira da praia.
Diz a lenda que nunca mais voltou para a Baía de Babitonga, com receio de ser esfolado pelos parentes que restaram na região. Acabou se acostumando com o clima frio e úmido da terra das araucárias. Quando entediado, olhava para o pico das montanhas da Serra do Mar, onde havia um morro bem alto. Fitava o morro e gritava “anhangava”, que significa morada do diabo. Paraguá morreu de velho e, por óbvio, sem atestado de óbito, posto que não tinha cartório de registro.
De acordo com Rafael Greca, a câmara de vereadores de Piraquara estará aprovando um monumento em homenagem ao índio Paraguá, que sem sombra de dúvidas foi o primeiro habitante da região.
No final das contas, o vencedor foi o Paraguá.
O Paraguá com o trabuco — o sonho finalmente realizado.
13/03/2026
Causos do Vovô Franquelim
Cinco causos do gaudério Franquelim da Silva Portela — o homem do pala cinza, da mula baia e das histórias que não tinham fim.
Cinco causos do gaudério Franquelim da Silva Portela — o homem do pala cinza com orla preta, da mula baia e das histórias que a coxilha guardou por décadas.
Um gaudério fora de seu tempo
Eu o conheci quando menino, em 1956. Gaúcho, nascido e criado nos campos de Soledade. Já passado dos sessenta, migrou para o Paraná. Como veio não sei — acredito que como tantos outros, pelas trilhas abertas pelos ervateiros e outros migrantes. Comboios de carroças, acampando nas beiras de sangas, sesteando na sombra das árvores e repontando alguma tropita. Família grande, moças e rapazes.
Vovô Franquelim — o gaudério das coxilhas.
Instalou-se no interior do município de Pato Branco. Um lugar onde quase nada havia, apenas uma serraria e começo de roças. Lembro do dia. Era dia santo, por volta das três da tarde. Mamãe levava um guri no colo e outro na barriga e, meio me empurrando, disse: — Peça benção do teu vô. Estendi as mãos juntas e ouvi a resposta: — Deus te abençoe. E foi só. Guri educado não se mete em conversa de gente grande.
Tenho na memória o seu tipo. Alto, cabelo liso e grisalho, bota, chapéu de aba larga. Nem sempre usava bombacha e sim calça de brim bem folgada e uma guaiaca de couro de anta com fivelas de prata. Faca na cintura, sempre no jeito para picar o fumo de corda e aparar a palha. Em casa, um “faisqueiro” dos antigos para acender o pito — combuca de porongo, tocha de algodão que acendia pelo atrito de um pedaço de ferro e uma pedra de quartzo. Semblante sério, porém camarada, prestativo e ao mesmo tempo caçoador. Tudo servia para puxar uma prosa e contar um causo. Mamãe contava muitas de suas histórias.
Circunstâncias da vida. Uns vão para um lado e outros para outro. Quando o vi pela última vez, eu já tinha dezesseis anos. Cheguei solito no cavalo alazão. Quando me viu, já chasqueou: — Esse piá tem a cara do pai dele! A visita era pra saber de sua saúde. Estava doente, acamado. Uma cirurgia mal sucedida e tinha que usar bolsa de colostomia. Por vezes conversava, por vezes gemia. Após um silêncio, olhando-me com semblante tristonho, falou:
— Estou aqui deitado sem poder fazer mais nada. Às vezes parece que estou cavalgando pelos campos com o pala soprado pelo vento e vendo o revoar dos quero-queros, mas quando me dou conta estou aqui. Veja aí meu chapéu e a guaiaca sem serventia. Quando faz um friozinho me cubro com o pala, que já não passa de um trapo mijado. Acho que a finada Amantina, tua vó, deve estar me esperando com a cuia na mão. Logo bato o pé na soleira e me apresento.
Saí com os olhos lacrimando e compreendendo a realidade da vida. Não demorou mês e ele partiu pro rancho eterno. Passados quarenta anos, visitei o túmulo. Um cemitério abandonado com algumas cruzes de madeira corroídas pelo tempo, sendo impossível qualquer identificação. Deixou uma geração e muitos causos.
A última campereada
Já descrevi o tipo do Vovô Franquelim. Do pouco que com ele convivi (1956–1967), na fase de guri, guardei muitas lembranças. Impossível relatar com precisão, assim, valho-me da verve para compor crônicas e causos, o que sem dúvida retratam realidades vividas. Sem falsa modéstia, guardo recuerdos da infância e das minhas andanças pelo Sul e pelo Norte.
Quero cá dizer que, dos doze irmãos, tive a oportunidade de ver Vovô Franquelim em seus últimos dias. Era um sábado, último dia do ano. Tinha eu dezesseis anos, já na trave dos dezessete. Estava de férias. Mamãe disse: — Vai saber do vovô, que sei que não está nada bem. Por que eu? Porque naquele momento só poderia ser eu.
Encilhei o cavalo alazão pela manhã e parti da beira do Lajeado a Bonito, onde morávamos. Atravessei os rios Santana e Marrecas na pequena balsa e trotei. Passei pelo Joaquim Barriga Verde, Seu Vergílio, também conhecido por “Vergílio Costela” — diziam que tinha esse apelido por conta de um trato que fizera: dá peleia, quem vencesse deveria tirar a costela do outro, assar e comer. Vergílio cumprido a promessa e ganhou o alcunha, um apelido no mínimo curioso.
Subi a serra passando pela Vila Belé e depois pelo picadão até a estrada do Verê. Até aí eu conhecia. Havia percorrido essa estrada muitas vezes para ir nos moinhos, montado no burro Macaco, levando milho ou trigo — isso quando eu tinha dez anos.
Em Alto Verê, na encruzilhada, segui rumo Maracajá. O cavalo era bom, mas o sol estava de rachar. Por volta do meio-dia cheguei na Boa Esperança.
O sesteio na Boa Esperança — pão, queijo, salame e o balde pingando água fresca.
Sesteei na sombra de um cinamomo ao lado da igrejinha. Desencilhei o cavalo que já estava lavado de suor. O Alazão se espojou na grama e começou a pastar. Sentei sobre os pelegos para comer a merenda que mamãe havia colocado no pessuelo. Pão, queijo e salame. Ao lado da igreja tinha um poço, um balde e uma corda — acho que mais de cinco metros. O balde subiu pingando água fresquinha. Bebi uns goles e o resto dei pro cavalo. Bebeu todinha.
Prossegui a viagem. Faltava ainda um bom trecho. Muita pedra brotando do chão. A marcha era lenta. Os morros estavam ponteados de roças de feijão e milho. Perto das casas, potreiros e encerra de porcos. Galinhas soltas no terreiro. Por vezes alguns guaipecas latiam, o que forçava o trote.
Em certo trecho da estrada, fiquei na dúvida numa encruzilhada em forquilha. Mesmo na dúvida, fui no palpite. Não demorou, avistei alguém montando num cavalo baio. No encontro, erguendo a aba do chapéu, pedi informação. — Sim, é por aqui. Eu estava certo.
Para quem já tinha troteado mais de vinte quilômetros, já estava chegando. Foi quando uma nuvem de verão se formou e caiu água.
“…e a água escorria pela aba do chapéu de feltro.”
Estendi a capa que estava na garupa e a água escorria pela aba do chapéu de feltro. Segui sentindo o zunido do vento e ouvindo o ploc, ploc das patas do cavalo pisando no barro. Foi só um aguaceiro. Logo a chuva parou e o sol voltou a brilhar. Já beirava as três horas quando cheguei no Empossado.
Ali, Tio Alaíde tinha uma bodega. Mal chegando, me reconheceu: — É um piá do compadre Vitório, falou pra Tia Maria que estava na cozinha.
Informando das coisas, mostrou não estar contente. Tio Vitório Faré insistia que Vovô ficasse na casa dele, mas Tio Alaíde queria que ficasse na bodega, sede do povoado. Não houve acordo. Vovô ficou na casa de Tio Vitório Faré.
Nessas alturas, Vovô já era viúvo. Vovó Amantina havia falecido não muito tempo antes. Com ele morava Tia Aurora, a Lola, e Tio Geremias, o caçula — mais folgado que garrão em chinelo de couro.
‘Buenas’, todo o causo tem que ter um fim. Encerro dizendo que ali conversei com Vovô e ouvi lembranças e saudades dos filhos espalhados. Pareceu-me que o que ele mais gostaria era vê-los todos reunidos, mesmo que fosse só para tomar umas cuias de chimarrão e comer uma galinha ao revirado.
Era dia primeiro do ano e um domingo. Encilhei o Alazão e me bandei. Apertei o passo. Tinha que levar o “RECADO A GARCIA”. Dizer pra mamãe que o Vovô não estava bem.
Na subida da Boa Esperança, percebi que o cavalo estava muito suado. Apeei na sombra de um pé de “soita”, espalhei os arreios e deitei no pelego. Não deu tempo para nada. O cavalo bufou e espichou o cabo do cabresto, espantado. Olhei ao redor e vi a colônia de formigas correição. Acudi o cavalo, para depois buscar os arreios e os pelegos já impregnados das terríveis formigas. Foi uma luta, mas me virei.
Cheguei na Barra do Marrecas, na casa do mano Ari, exausto, com sede e esfomeado. O mano Darci — aquele que foi gerado no Rio Grande e parido no Paraná em 1956, agora com oito anos — montou o Alazão levando-o para beber na sanga. Comi o requento do meio-dia e saí logo em seguida. Faltavam só dois quilômetros.
Cheguei. Só estava mamãe, os demais tinham ido pra reza. Quando me viu entrando na porteira com o cavalo suado, quis saber das notícias. Contei. Entre lágrimas, balbuciou: — Eu sabia.
Deitei amuado. Trotar mais de sessenta quilômetros não é serviço pra piá.
Não demorou muitos dias e veio a notícia: Seu Franquelim da Silva Portela havia falecido. Foi sepultado no cemitério do Empossado, município de Dois Vizinhos.
Negócio da Vaca
“Encordoado nada, foi só dois. Um atrás do outro.”
Nos rincões do Rio Grande, de légua em légua sempre havia um bolicho para a venda de cachaça, fumo e coisas de precisão nos ranchos e estâncias. Por ali se encontravam e se reuniam peões e estancieiros, tratavam de negócios, combinavam carreiradas e fandangos.
De uma feita, mais pela tardinha, seu Franquelim apeou por ali e deu boa tarde para os presentes. Ali estavam alguns gaudérios abichornados. Parecia um velório. Só faltava o defunto. Sem rodeios, perguntou se tinha morrido alguém.
Parecendo ter acordado de um cochilo, um dos viventes se aprumou: — E “vois mece”, não viu os teco-tecos de manhãzinha? Acho que é a guerra que tá chegando por cá.
Seu Franquelim viu de cara que dava pra aprontar uma das suas. — Que guerra que nada, amigo Gaudêncio. Estou sabendo há três “ontonte”. Desde o dia em que o padre esteve aí pra fazer os batizados. Inclusive do Veridiano que já tá querendo “casá” e ainda não tava batizado.
— De fato veio, mas e daí? Como diz o ditado, “o que tem a ver o cú com a calça?” Tamo preocupados com os teco-tecos que passaram bem rente às copadas das árvores, hoje cedo.
— O que tem a ver um com o outro, não sei bem, mas acho que só o peido. Eu leio “jornár”, seu Gaudêncio, quando posso — é verdade, porque nem sempre tem. Dessa vez o padre esqueceu um jornal Correio Riograndense lá na capela, então levei pra casa, até mesmo por causa da serventia: pra embrulhar alguma coisa, acender o “borraio” e também na patente, porque quando acaba o milho no “paió” o sabugo fica em falta e com grimpa de pinheiro é que não dá. Mas antes sempre leio as notícias.
— Mas então desembucha, homem, que o povo tá querendo saber desse troço de avião que passou encordoado!
— Encordoado nada, foi só dois. Um atrás do outro. “Entonces” como eu ia contando: tá escrito lá no jornal. O que sucede é o seguinte — o Dr. Getúlio vendeu uma vaca de cria para um estancieiro lá do Rio de Janeiro ou das Minas Gerais. E o combinado foi que o estancieiro das Minas vinha buscar a vaca. Foi por causa disso que vieram os aviões, rumo a São Borja.
“Parado aí! Isso é patacoada e das grandes!”
— Parado aí! Isso é patacoada e das grandes!, gritou o velho Gaudêncio.
— Só estou contando o que está escrito no jornal. E olha bem, seu Gaudêncio — o jornal foi escrito pelos padres, e padre não mente.
— Tá bom, apartou o velho Neco, estancieiro respeitado e desfazedor de encrencas. — Só quero saber: como vão manear a vaca no avião?
— Não vão botar a vaca no avião. Vão levar repontada.
— Te acalme, amigo Gaudêncio. Aí que tá o causo. Foi tudo bem combinado. Um avião vai de vaqueano e o outro vai repontando, tudo bem no estilo campeiro.
Só então que Aparício, abancado no canto enrolando o “criolo”, assuntou que era só mais uma das patacoadas de seu Franquelim. E caiu na gargalha.
Gaudêncio, arrenegado, começou a soprar o bigode. Não fosse o velho Neco, a coisa podia ter virado entrevero de carreirada.
Seu Franquelim, pra contornar o acontecido, falou pro bodegueiro: — Bota um trago aí pro amigo Gaudêncio se “acarmar”.
Nunca ninguém explicou o porquê dos dois teco-tecos. Dizem que tinham ido buscar o Getúlio para disputar a eleição de 1950. Apesar de não possuir o apoio da mídia, Vargas obteve a maioria dos votos.
A Caçada de Onça
“Mal clareou o dia, mais de trinta peões arrojados se achegaram com suas garruchas e cartucheiras, além da cachorrada barulhenta.”
A pampa se estendia pelas coxilhas interrompidas apenas pelos capões de mato, como se fossem sentinelas a observar a “gadaria” que crescia ao relento e ao sopro do minuano. No entre meio, os alarmistas quero-queros e discretas perdizes a ciscar no capinzal à cata de besouros e gafanhotos.
Toscos ranchos sustentados por esteios de guajuvira, cercados de taquara e cobertos com folhas de macega. Ao centro do rancho, o fogo de chão. Pendurada por uma corrente, uma panela de ferro onde fervia dia e noite a misturança de carne de queixada e feijão. Era a boia que sustentava o dia a dia dos viventes da lida campeira.
Sempre há um dia pra ser diferente daqueles que fazem a monotonia das coxilhas. Bibiano viu de longe e não gostou do que viu. O campo amassado e o rastro de sangue que já chamava o moscaredo. O animal fora arrastado e urubus já repousavam na copada das caneleiras. Num estalo, se bandeou para a estância. E foi explicando do acontecido.
Gaudêncio, o dono da estância, deu ordem pro capataz reunir a peonada. Mal clareou o dia, mais de trinta peões arrojados se achegaram com suas garruchas e cartucheiras, além da cachorrada barulhenta que chegava a espantar urutau em palanque de cerca.
Naquele alvoroço, se achegou seu Franquelim montando uma mula baia, num passo troteado. Sua velha cartucheira na garupa e uma dúzia de cartuchos na guaiaca.
O velho estancieiro gritou: — Por aqui, onça, mão pelada, leão baio e jaguatirica não se cria. Quero essa fera espichada no terreiro.
Seu Franquelim ficara solito no trote da mula baia, vendo a peonada sumir nos descampados. Chegou na beira de um pequeno capão rejeitado pelos peões. O sol estava a pino e o suor espumava na peiteira da velha mula.
A mula, de rédea solta, rumou pra beira da sanga para matar a sede. — Se a mula bebe, porque não eu. Apeou, desamarrou do arreio a velha caneca de prata, abanou a água e a caneca subiu pingando. Bebeu a se fartar.
Em seguida, colocou a cartucheira no chão e sentou-se na raiz da gameleira. Acendeu o pito e levantou a cabeça para a primeira baforada.
“Ali estava ela, deitada, bem na sua frente, não mais de dez braças.”
Ali estava ela, deitada, bem na sua frente, não mais de dez braças. Como se fosse coisa do dia a dia, empunhou a cartucheira, firmou no peito, mirou bem na fuça. Bumm… Dentro do “zoio” e entremeio as orelhas. O bicho esperneou ali mesmo.
Já lhe veio na mente uma das suas. Isso não pode ficar barato. Puxou o facão e simulou a peleia. Sapateou até o mato ficar bem amassado. Até a toceira de urtiga ficou tosquiada. De quebra, deu uma meia dúzia de talhos na cara e no costado da fera. Esfregou um ramo de capim forquilha na “sangria” e, como se fosse o capelão na procissão do padroeiro, aspergiu o sangue pela roupa. Então disparou outro tiro e gritou: — Auia!…
Depois de dez minutos, chegaram quatro ou cinco peões no galope. — O que aconteceu, seu Franquelim?
— Que companheiro de caçada são vocês?… Eu grito por ajuda e não aparece ninguém. Se não me atraco no facão, quem estava morto agora era eu.
A fama correu. Seu Franquelim peleou de facão com uma onça pintada.
Os anos passam. Mas há um dia, sempre há um dia. Não mais ali, mas bem longe, à beira do fogo de chão, seu Franquelim contava seus causos enquanto revirava os pinhões no braseiro. O “Nego Terêncio”, que a tudo assuntava, entrou na prosa: — Mas conta aí, seu Franquelim, como foi mesmo aquela caçada de onça?
— Mas como tu sabes, Terêncio?
— Eu sou o “negrinho da estância”, filho do Maneco, capataz do velho Gaudêncio. Meu finado pai sempre repetia o causo e dizia que era verdade, muito embora ele mesmo por vezes duvidava.
Seu Franquelim pigarreou e se mexeu meio arrenegado. — É bem desse jeito; depois de tanto, sempre tem um pra pôr defeito. O que se há de fazer? Embora o mundo seja redondo, sempre tem solavancos.
Mas continuou o Nego Terêncio: — O velho pai, no outro dia do acontecido, foi lá no capão da onça — que assim passou a ser chamado — sentou na raiz da gameleira e encontrou uma caneca de prata ali jogada. Nunca entendeu como aquela caneca foi parar ali.
— Ué… interveio seu Franquelim. Eu me abaixei para encher a caneca quando a onça veio pro meu lado. Puxei o facão e peleamos. Era fera contra fera. Ela pulou pra me agarrar, e aí dei de prancha bem na cabeça e ela “testaviou”. Foi o tempo para pegar a patrona e atirei bem de frente — não dava mais de três braças. Foi um tiro de misericórdia. O outro tiro foi só pra chamar a companheirada. Depois acabei esquecendo a caneca lá na beira da sanga. Por sinal, ela me fez muita falta em minhas campereadas. Nunca mais encontrei uma caneca igual àquela. Na verdade, ela pertenceu a um sujeito chamado Bento Gonçalves, do tempo das revoluções. Aquela caneca era especial — pertenceu ao famoso Tenente Portela, que lutou na fronteira contra os castelhanos.
Nego Terêncio estendeu a cuia: — Mas antonces, quer dizer que o fandango foi grande naquela noite?
— Na verdade, não lembro bem, porque virei a noite churrasqueando e mateando pelos fundos do rancho. Só lembro que no clarear do dia montei na mula baia que ficou noite toda amarrada no toco. Acho que o neguinho da estância tava se pelando de medo da onça.
“…a mula baia que ficou noite toda amarrada no toco.”
Vô Franquelim e a Farofa de Viagem
“Era o que me faltava! Fazer galinha na farofa para o bem bom vir comer solito na sombra de uma árvore!”
Se tinha uma coisa que seu Franquelim apreciava, era montar em sua mula baia e andar pelas estâncias — mais pra saber das coisas do que fazer algum brique.
Sempre que empreendia uma andança, vó Amantina fazia uma galinha na farofa e colocava numa matula enfiada no pessuelo.
Já fazia mais de mês que seu Franquelim não saía de casa, e isso lhe apoquentava as ideias. Um dia falou pra Amantina que no dia seguinte iria sair cedo para ir na estância do Amarante, que fica cerca de trinta quilômetros. — Me contaram que Amarante está se desfazendo de umas éguas parideiras e vou ver se faço algum brique.
Vó Amantina já deu olhada nas galinhas e escolheu uma bem gorda. Já era meia-noite quando ela anunciou: — Está pronta a farofa, espero que seja do teu agrado.
Mal clareando o dia, seu Franquelim encilhou a mula e se ajeitou para partir. Bota, bombacha, chapéu de aba larga e pala no ombro. Nunca se desfazia do pala — era cinza com uma orla preta. Coisa de patrão. Antes de montar, olhou para o piquete: — Não te esqueça de observar a vaca, que ela está para criar. Montou e saiu na marcha troteada da mula baia, desaparecendo na curva da estrada.
Amantina, para não se ver sozinha, decidiu visitar uma comadre na estância lindeira. Logo após o meio-dia, apanhou o inseparável guarda-chuva e pôs-se a caminho. Ao chegar numa mata, escutou o pio de uma perdiz e o cantar dos quero-queros. Tudo estava tranquilo. Foi quando percebeu as orelhas de um animal próximo de uma frondosa figueira. Pareciam as orelhas da mula de seu Franquelim.
Estranhou. Se esgueirou por entre os arbustos e não teve dúvida. Era a mula do Franquelim. Já era quase uma hora da tarde. Andou mais, olhou pra todos os lados e, chegando no pé da figueira, viu seu Franquelim estirado sobre os pelegos dormindo no maior dos sossegos.
— O que foi, homem de Deus? — Estou fazendo a sesta. — Mas que sesta, se estás perto de casa? — Deixa eu explicar. Quando saí de casa, lembrei que seu Amarante tinha dito que nesta semana iria para São Borja cuidar de uns negócios. Seria perder tempo ir até lá. — Mas então, porque não retornou para casa? — Sabe como que é… eu não podia perder a galinha na farofa. Então resolvi sestear por aqui mesmo.
— Era o que me faltava! Fazer galinha na farofa para o bem bom vir comer solito na sombra de uma árvore e perto de casa!
Já tinha erguido o braço para meter o guarda-chuva nas ventas do folgado.
— Espera aí, mulher, eu explico melhor. A galinha não era grande e se tivesse que repartir não ia dar pra dois. Assim pelo menos um ficou satisfeito. Na maior calma, olhou pra mula e acrescentou: — Sorte a mula, que se livrou da longa jornada.
— E um velho folgado!, disse Amantina, já rumando pro lado da estrada.
— Folgado nada — evitei de dar uma pernada à toa. Montou e, no passo manso, voltou para o rancho.
13/03/2026
Cavalo Javali
O causo do tordilho que comeu abóboras — 36 quilos numa noite, duzentos na outra — e do gaudério de Soledade que quase contou o resto da história, não fosse…
Talvez fosse o ano de 1958. Já fazia um tempo que morávamos ali onde papai se estabelecera com a bodega. Fieiras de bois arrastando madeiras. Caminhões com reboque e homens puxando catracas. Apitos de serrarias. Para onde ia tanta madeira? — São Paulo, Brasília, uma cidade que se expandia e outra que nascia.
Verdade é que essa epopeia nada tem a ver com o cavalo “Javali”, embora emblemático. O novo cotidiano era quase o mesmo do Rio Grande do Sul.

Logo após o anoitecer e do jantar, ficávamos nos aquecendo em torno do fogão, enquanto batatas eram cozidas para o café da manhã. Isso durava mais ou menos quarenta minutos, por vezes uma hora, em conformidade com o tamanho das batatas. Havia batatas enormes, ou pra lá de grandes. A lavareda alimentada com nó-de-pinho avermelhava a chapa.
Ficávamos todos ali na vigília tagarelando sobre os frequentadores da bodega. Mais das vezes só para um trago. Outros vinham para comprar do básico: farinha, açúcar, erva, ferramentas; por vezes senhoras e moças em busca de panos brins, chitas, pelúcia e adereços. Não raro apareciam uns piás apressados e estrafegados em busca de cibalenas, xaropes, elixires etc. Lembro de alguns: Emiliano, Gumercindo, Veio Bento, Theodorão, Pedrinho Fação. A lista seria enorme, porém no momento não interessa — porque o causo é outro.
Conforme disse e reitero “hic et nunc”: estávamos ali ao redor do fogão, e justamente naquele dia assávamos pinhões na chapa enquanto as batatas ferviam expremidinhas na panela, quando alguém comentou do “Cavalo Javali”. Um cavalo que papai possuía no Rio Grande do Sul — na verdade um matungo. O cavalo talvez seja a lembrança mais marcante dos meus tempos de guri.
Queria saber por que papai havia vendido o cavalo. Papai que assuntava as prosas enquanto enrolava “o pito”, pigarreou e passou a dar as devidas explicações:
— Certo, eu vendi o cavalo. Era um cavalo bom, mas tive que vendê-lo quando resolvi mudar para o Paraná. Meu plano era ter uma pareia de burros, apareceu uma oportunidade e “briqiei”. Esse burro que está aí — o Macaco. O outro, o Mico, eu comprei aqui no Paraná e daí formei a pareia. São dois burros muito bons. Com essa pareia vou pra todo o lado, busco sortimentos para a bodega, de vez em quando carrego noivos, padrinhos para batizados e até defunto para o cemitério. Se for preciso vou à Pato Branco ou no Marrecas. Essa pareia de burros é de grande serventia, é um capital. O “Javali” era um cavalo bom, manso, mas já meio velho. Fiz um bom negócio — aliás, como já tinha feito as outras vezes.
— Que outras vezes? — perguntou um dos piás, mais interessado no assunto.
— Bem, é que aquele cavalo já tinha sido meu quando eu ainda era solteiro. Tinha vinte anos e arrendei uma terra para fazer uma roça pra mim e plantei trigo. Semeei junto, mas já meio “tarde” — já tinha passado a crescente da lua certa. Mesmo assim aquele trigo cresceu que foi um espetáculo. Era mais ou menos três quartas de terra, quase beirando um alqueire, e rendeu mais de cem sacas. Na verdade, cento e três sacas e uma quarta… Olha, se tivesse prêmio eu teria tirado o primeiro lugar. Nunca vi coisa igual.
O piá mais velho questionou:
— Mas, cento e três e uma quarta?
— Sim. Pra que eu iria mentir para vocês por conta de quinze quilos?… A gente sempre tem que falar a verdade.
E continuou:
— Vendi a produção por um preço muito bom. Pensei: “Tô rico!” Como eu era solteiro, só pensei numa coisa: comprar um cavalo e um revólver. O revólver foi até fácil — um 38, cano longo, niquelado, coisa de estancieiro. Já o cavalo foi mais complicado. Quem tinha cavalo bom não vendia. Fui pra lá e pra cá, especula daqui e dali, tenteando, até que encontrei um. Não era cavalo novo, mas ainda muito esperto e aguentava o tranco. Era até marchador. Comprei, montei e saí a galopito, sem mesmo perguntar qual era o nome do cavalo. Acontece que cavalo tem que ter nome. Observando bem o pelo do animal — meio tordilho, nem preto nem vermelho, quase acinzentado — comparei com o pelo de um porco do mato e dei o nome de “Javali”. E assim ficou.
Muito pachola, vez e outra dava umas volteadas pela redondeza, e numa dessas arrumei uma namorada. Não vou dizer que era bonita, mas era. Um sábado, como de costume, me bandei pra casa dela. Cheguei no entardecer. O pai da moça me recebeu muito bem e mandou soltar o cavalo no piquete.
Naquilo chegavam da roça os irmãos da moça, dois rapazotes muito trelas, e conforme foram chegando anunciaram:
— Olha o tamanho da abóbora que achamos!
Se bem que eles falaram em italiano desse jeito: “guarda la zucca che abbiamo trovato”. — “Cozi si parla in italiano, magari, no parlo molto bene, perche fa tempo che no parlo con nessuno.” — Porca miséria.
De fato, era uma baita de uma abóbora. Um deles disse: vamos pesar. Vieram com uma balancinha que alcançava só vinte quilos e daí não teve jeito — tivemos que cortar a abóbora em três pedaços. Somamos e deu trinta e seis quilos e quatrocentas gramas. Coisa de se admirar. A noite chegou, todos se recolheram, ficando a abóbora ao relento sem que alguém se desse conta que o cavalo estava solto por ali. Depois do jantar e algumas prosas, todos foram dormir.
Mal clareando o dia, acordei com o trololó dos rapazes. Pulei da cama e, chegando pra perto, perguntei do acontecido, ao que um deles falou:
— A abóbora, cadê? A abóbora sumiu!
Olhei pra todas as bandas e, meio ressabiado, falei:
— Na madrugada escutei o “grute-grute”, imaginei que o cavalo estivesse comendo um pedaço de abóbora, mas que tenha comido toda, acho que não.
Ficou o mistério. Quem mais poderia ter comido aquela abóbora se ali só estava o “Javali”?…

Sucedeu que aquele namoro não deu certo. Passou um tempo e arrumei por namorada a mãe de vocês. Resolvemos casar e tive que vender o revólver e o cavalo para comprar as coisas mais necessárias. Comprei uma vaca, uma porca, dois terneiros, os quais depois fui amansando — e deu uma boa junta. Só anos mais tarde é que comprei uma carroça, essa que está aí. Antes eu pegava emprestado do vizinho que tinha duas.
Enquanto o causo não terminava, “tava nóis” ali revirando os pinhões na chapa, descascando um e outro e atiçando o fogo pra aumentar a fervura da panela. Alguém ainda querendo saber da verdadeira história do cavalo “Javali” perguntou:
— Mas e daí… o Javali não tinha sido vendido?
— Sim tinha. Mas, depois de uns dois anos de casado, boas colheitas e já ter engordado alguns leitões — na verdade oito porcos de oitenta quilos, fora um que reservei pra carnear e fazer banha, salame, carne na lata pro gasto —, me sobrou um dinheiro e então resolvi comprar um cavalo. Até mesmo porque fazia uma falta danada. Mas, como eu ia dizendo: cavalo bom só por um bom dinheiro. Campeei, procurei, até que um amigo me informou: “O fulano lá da Coxilha Seca tem um cavalo pra vender.” Fui lá — por sinal pedi emprestado o cavalo do vizinho, porque era meio “lonjote”.
Lá chegando, o dito fulano me apresentou o cavalo. Olhei bem e falei:
— Conheço esse cavalo. Ele já foi meu; por sinal o nome dele é “Javali”.
O sujeito me olhou meio ressabiado, talvez pensando que eu não quisesse o negócio, e continuou gabando o cavalo:
— Está para venda, mas eu quero três contos de réis.
Rodei. Ranhei e arranhei:
— O cavalo já tá meio velho. Se quiser dois contos eu lhe dou.
O homem renegou, sapateou, mas depois de uma boa pechincha fechamos negócio por dois e trezentos. Levei pra casa no cabresto. Cavalo manso de verdade. A mãe de vocês montava com nenê no colo. E você — apontando para o guri mais velho — com oito anos ia no moinho com mais de sessenta quilos de “moagem”.
Aconteceu que um dia, quando eu voltava da roça, já tardinha com a carroça puxada pelos boizinhos, vi que havia muitas abóboras graúdas e maduras espalhadas na resteva do milho. Resolvi colher algumas. Junta aqui e ali, e quando me dei conta a carroça estava cheia. Sei lá — talvez uns duzentos, trezentos quilos. Eram mais de vinte, todas acima de dez quilos. Cheguei em casa, tirei os bois da canga e deixei as abóboras na carroça. Já estava escuro, começo do mês de junho. Estava frio e fui pra dentro de casa. Até pensei: o cavalo tá solto — no entanto, se comer uma abóbora não tem problema. Abóbora era o que mais a gente tinha. Jantamos e dormimos. No outro dia cedo, olhei para a carroça: nem uma abóbora dentro.
Nessa, o mano mais velho não se aguentou:
— E o pai acha que o “Javali” comeu aquele tanto de abóbora?
Bem — disse ele, novamente pigarreando. — Aqueles trinta e seis quilos e quatrocentas gramas que nós pesamos, não tenho certeza. Mas os duzentos que estavam na carroça, eu garanto!
Ainda há pouco ele havia dito que não se deve faltar com a verdade. Não nos restou outra alternativa senão aceitar.
O tempo passou e eu vez que outra lembrava do “Javali”. De uma feita, cerca de quarenta anos depois, em Rondônia, numa roda de amigos numa festa junina, sentados à beira da fogueira, todos jogando conversa fora, contei a história do “Cavalo Javali”.
Face ao princípio de que tudo é verdadeiro até prova em contrário, o causo foi levado na mais alta consideração — exceto por alguns “miserentos” que fizeram comentários graciosos, somente admissíveis em festividades juninas.
Na ocasião ali se encontrava um vivente já passado dos setenta: gaudério esfolado de alça de gaita, nascido nos campos de Soledade, criado na costa do rio Uruguai, não longe da referida Coxilha Seca, que depois se alongara para o Paraná e visitava parentes em terras rondonianas. Atentamente ouvia o causo. Sujeito de boa prosa, caborteiro, ajeitou-se no cepo em que estava sentado e entrou firme na conversa:
— Eu conheci o “Cavalo Javali”! Inclusive, de uma certa feita, numa “carreirada” lá para as bandas de Coxilha Seca, deu entrevero por causa desse cavalo…
Nesse momento, um gaiato jogou um petardo na fogueira e foi aquele esparramo. Cinza e fumaça pra todo o lado — e o povo se arredou.
Diante dessa barbaridade, termino o causo, lamentando que aquele respeitável e honrado senhor foi cerceado no seu legítimo direito de dar testemunho de outras proezas daquele afamado tordilho também conhecido por “Cavalo Javali”.
UPA CAVALINHO
Upa, upa Cavalinho,
Galopando pela estrada.
Upa, upa cavalinho;
Noite escura, madrugada.
Upa, upa cavalinho,
De volta pra minha casa,
Foi só um burburinho;
Água na beira da estrada.
Upa, upa cavalinho;
Sobe morro desce serra.
Muitas flores no caminho,
Suave brisa da primavera.
Upa, upa cavalinho;
Do jeitinho que eu quiz.
Tem cabelo enroladinho.
Olhos verdes, boca e nariz.
13/03/2026
Por ali fui e por aqui estou
Com 31 anos e uma mala, parti de Curitiba rumo à Amazônia. O ônibus não chegava, o avião era da guerra e o cacique decidia se a gente passava ou não.
Ao contrário do Cabeza de Vaca, fui do Sul pro Norte. Com 31 anos, era hora de buscar outro rumo. Por uma referência aleatória, me bandei para Rondônia. A Amazônia estava sendo ocupada, no cumprimento do objetivo do governo: “Integrar para não Entregar”. O destino era Cacoal, cidade que surgiu na margem da BR 364, na década de 70. Até então, Rondônia era uma densa floresta cortada por uma estrada aberta por Juscelino Kubitschek, mais precisamente de Cuiabá a Porto Velho. O traçado já fora feito pelo Marechal Cândido Rondon em 1910, quando construiu a linha telegráfica Cuiabá-Porto Velho.
Em março de 1981, parti de Curitiba com uma mala e uns pacotes. De um só lance, a Viação Andorinha partindo de Maringá atravessou o cerrado mato-grossense. Uma viagem um tanto monótona. Por vezes a paisagem era quebrada pela presença de seriemas, casebres, barracas de lona e tratores que já começavam a rasgar o cerrado. Foram 24 horas de viagem até Cuiabá. Era praticamente o início da viagem; seriam mais mil quilômetros por uma estrada inimaginavelmente precária. Em 1972, o Governo Federal criou o projeto de colonização do Território Federal de Rondônia. Migrantes de todas as partes do Brasil passaram a ocupar a banda oriental da Amazônia.
“O POLONOROESTE tinha como principal finalidade o atendimento à região do entorno da rodovia Cuiabá-Porto Velho (BR 364). Tal programa visava criar condições para a efetiva colonização da região, através da pavimentação da rodovia, como também pelo apoio aos projetos de colonização iniciados na década de 70.”
O primeiro choque de realidade aconteceu ao descer do ônibus em Cuiabá. Na rodoviária, uma tabuleta informava o local de vendas de passagens para Cacoal. Aproximei-me do guichê para comprar a passagem. De pronto, o atendente informou que era necessário aguardar o retorno do ônibus que estava com um atraso de 15 dias. Foi uma ducha de água fria despejada em meu corpo suado, cansado e empoeirado. Era uma outra realidade. Tinha ônibus, mas, ao mesmo tempo, não tinha. Foi bom, dado que do contrário teria sucumbido no deserto verde e lamacento. Permaneci em Cuiabá por uma semana na casa de um amigo que se formara em medicina veterinária e havia migrado para lá.
Após conhecer algumas particularidades da região, consegui uma vaga no voo semanal da TABA (Transportes Aéreos da Bacia Amazônica). Uma aeronave do tempo da guerra — talvez tivesse cumprido missões jogando bombas sobre redutos nazistas ou transportando o brigadeiro Eduardo Gomes. Bimotor de dezesseis lugares, passageiros acomodados em assentos espremidos por malas, caixotes e bugigangas. Até uma gaiola com um filhote de cão de caça! O avião partiu às 14:30. Da janelinha dava para contemplar o infinito da floresta e, por vezes, sumíamos entre as nuvens encasteladas. Por volta das cinco da tarde, a nave aterrissou na cidade de Pimenta Bueno. A pista era um lamaçal ladeado pela floresta. Restavam 50 quilômetros para o destino final.

Ali mesmo, na pista, apareceram táxis. Lotamos um fusca e partimos. O taxista alertou: “Tem um atoleiro ali no Riozinho. Vai ser noite e, para seguir, tenho que pedir autorização do Cacique da tribo para passar por dentro da aldeia. Se não deixar passar, teremos que voltar.” Parece que naquele dia o cacique estava de bom humor ou o pedágio havia sido pago com antecedência. Via de regra, um litro da boa.

Não demorou e chegamos ao destino sob uma forte chuva. O táxi parou na porta do único hotel da cidade, o “Hotel Decolares”. Janta, pernoite e café da manhã. Era dia 22 de março de 1981. O bom da história é que o dinheiro acabou.

Adi Baldo no escritório em Cacoal — início dos anos 1980.
Clareou o dia e fui em busca da única referência que tinha daquele lugar: um paranaense nascido em Santa Catarina que havia migrado para Rondônia há alguns anos e era dono de serraria. Não foi difícil encontrá-lo. Recebeu-me muito bem, conforme os costumes. Forasteiro tem que ser tratado com o pisca de alerta. Em seguida, apresentou-me a um advogado seu conhecido de nome Francisco Rufino. Simples assim. Às oito da manhã eu estava acomodado em seu escritório. Estava tudo certo. Ali era o fim da picada. Só faltava dinheiro para comer e lugar para dormir.
Cada um com suas sinas. Pais e mães de famílias apenas com alguns pertences em busca da sobrevivência e sonhando com o futuro. Era dia 22 de março de 1982.
Passados mais de quarenta anos, aos trancos e barrancos, lutando com as armas que se tinha — armas de um advogado em busca de um lugar para ficar e muita resiliência. Por vezes vendo as oportunidades passar em frente à porta. Não por medo, mas por prudência. Os atoleiros me ensinaram a dar a volta, para poder seguir o caminho.

13/03/2026
Forte Príncipe da Beira
A história da maior fortificação militar portuguesa na Amazônia, construída para firmar a posse das terras e proteger a fronteira.
Em 1994, logo após a recuperação da BR 429 (Costa Marques/Presidente Médici), conheci o Forte Príncipe da Beira. Construído na margem direita do Rio Guaporé, nas proximidades da cidade de Costa Marques, é um lugar antigo, porém somente a partir dos anos 80 ocorreu acesso por terra. Dantes, apenas navegando à jusante pelo Rio Guaporé, a partir da cidade de Vila Bela da Santíssima Trindade (MT), ou à montante, a partir de Guajará-Mirim.
Vista aérea do Forte Príncipe da Beira, às margens do Rio Guaporé.
A importância do Rio Guaporé na fixação da fronteira do Brasil com os espanhóis, ou com a Bolívia, é um capítulo à parte. Vamos ao centro da novela. O propósito era conhecer a BR 429, até Costa Marques, atravessar o Guaporé de “chata” e comprar umas quinquilharias na Bolívia e, obviamente, visitar o Forte Príncipe da Beira. Dista mais ou menos vinte quilômetros de Costa Marques. Uma estrada de chão batido conservada pelo Exército Brasileiro, que ali tem um destacamento.
Bom esclarecer quem era o Príncipe da Beira. Era nada mais nada menos que D. João VI, filho do rei de Portugal D. José I; pai de D. Pedro I e, portanto, avô de D. Pedro II. Trata-se de uma fortificação militar construída no Reinado de D. José I, sob o comando do Marquês de Pombal. Este designou D. Antônio Tavares de Rolim de Moura para construir a cidade de Vila Bela da Santíssima Trindade na divisa com a Bolívia, atualmente pertencente ao Estado de Mato Grosso.
A finalidade de tudo isso era proteger as divisas da colônia, estabelecidas pelo tratado de Madri (1750) conforme princípio jurídico do UTIS POSSIDETIS, ou seja: dono é quem detém a posse. Desta feita, o objetivo principal era confirmar a posse. Ressalte-se que pelas águas do rio Guaporé remavam tanto espanhóis quanto portugueses.
Talvez não houvesse o perigo iminente de invasão, dado que o que mais havia por ali era onças, jacarés e malária. Diga-se de passagem, que o engenheiro responsável pela construção do forte Príncipe da Beira, Domingos Sambuceti, foi vitimado pela malária. Centenas morriam acometidos pela doença.
Trata-se da maior fortificação militar portuguesa construída no Brasil, a qual foi abandonada com a proclamação da República, talvez logo após a Guerra do Paraguai. Um século depois ou mais, o Marechal Cândido Rondon o redescobriu e, na década de 80, foi revitalizado pelo então governador do Território, o Cel. Jorge Teixeira. Do contrário, seria ruínas perdidas na selva.
Mesmo no período de exploração da borracha não teve importância, dado que havia um posto de compra de seringa na foz do Rio São Domingos (Costa Marques), por onde os seringueiros se embrenhavam na floresta na busca do látex. Da mesma forma, os seringueiros subiam pelos rios São Miguel e Rio Branco, Cantuária e outros afluentes com nascedouro em Rondônia.
Atualmente é fácil chegar lá. Quanto ao caminho percorrido por D. Antônio Tavares de Rolim de Moura, muito se conta e pouco se prova. Dizem que subiu pela região do Rio da Prata e do Rio Paraguai até a altura de Cáceres, seguindo depois por terra até alcançar o Rio Guaporé. Registro o causo, mas não me comprometo. De todo modo, foi figura importante da administração colonial portuguesa e ligada à fundação de Vila Bela da Santíssima Trindade. A partir dali, alguns anos depois (1776), Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres navegou rio abaixo até a primeira corredeira e ali construiu o Forte. Já existia algo por ali, que seria o Forte Bragança, porém danificado pelas enchentes. O local é conhecido por Baía da Conceição.
Em Vila Bela, a memória antiga também repousa nos livros. O titular do cartório de registro é Ademir Baldo, guardião desses volumes que atravessaram o tempo. Se muito da história se perdeu em lendas, outra parte ainda dorme nesses registros.
Por último e derradeiro parágrafo. Quer saber mais sobre o Forte Príncipe? Vá até lá, ou então consulte www.ebooksbrasil.org, onde encontrarás o seguinte, entre muitas outras coisas: — Luiz D’Alincourt, Memória sobre a Viagem do Porto de Santos à Cidade de Cuiabá — primeira expedição terrestre de reconhecimento determinada pelo Rei de Portugal.
Talvez seja mais importante saber sobre a Malária. A malária é uma doença causada por protozoário que é transmitida principalmente pela picada da fêmea de algumas espécies de mosquitos do gênero Anopheles… entretanto, é importante lembrar que existe tratamento eficaz, seguro e é oferecido gratuitamente pelo SUS.
Quanto a D. Antônio Tavares de Rolim de Moura, foi uma figura importante da administração colonial portuguesa e deu nome, séculos depois, à cidade de Rolim de Moura, em Rondônia.
Fica o convite: sente aí na frente do computador, consulte o Dr. Google e conheça um pouco mais sobre o forte, construído com a melhor tecnologia da época e que nunca serviu para muita coisa. Atualmente é uma atração turística do Estado de Rondônia e fonte de conhecimento da história do Brasil.
13/03/2026
Marechal Cândido da Silva Rondon: O Herói Pouco Conhecido
Um resumo da vida do Marechal Rondon: suas expedições, a expedição com Theodore Roosevelt, o Marechal que ligou o Brasil de ponta a ponta.
Cândido da Silva Rondon — baixinho, “tarracudo”, inteligente e destemido. Cruza de índio com francês. Não dominava o inglês, mas foi guia do presidente Theodore Roosevelt pela Floresta Amazônica.
Cândido Rondon jovem em expedição pela selva.
Nascido em Santo Antônio de Leverger, ao costado de Cuiabá, em 1865. Apreciador de peixe com piqui. Foi militar, tendo chegado ao posto de Marechal. Faleceu em 1958. Em sua homenagem, o Território Federal do Guaporé passou a se chamar Território Federal de Rondônia, hoje Estado de Rondônia.
Construiu a linha telegráfica estabelecendo a comunicação entre a capital da República, Rio de Janeiro, e a cidade de Rio Branco, no Acre, com o marcante trecho entre Cuiabá e Porto Velho.
“Durante o governo do presidente Washington Luís foi criado o Serviço de Inspeção de Fronteiras para vigiar e nacionalizar as fronteiras. Para chefiá-lo foi nomeado o general Cândido Mariano da Silva Rondon. Foram visitadas as fronteiras do Oiapoque, girando para oeste e para o sul através das fronteiras da Guiana Francesa, Guiana, Suriname, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai.” (Fonte: Brasiliana Fotográfica)
Como dito, Cândido Rondon foi guia de Roosevelt na Expedição de 1913 e 1914, quando seguiram o curso do Rio da Dúvida, antes denominado Rio da Confusão, hoje Rio Roosevelt. Na verdade, é um rio cheio de curvas que nasce em Rondônia, passa por Mato Grosso e termina no Amazonas. Foi denominado Rio Roosevelt em homenagem ao americano Theodore Roosevelt, que se mostrou tão interessado em descobrir sua nascente.
A expedição teve início em Cáceres com 15 pessoas. Certo é que não é um rio navegável a ponto de não ter despertado o interesse da marinha americana. Podemos admitir que Roosevelt era um aventureiro e queria ter uma experiência de selva. Para isso, nada melhor que convidar Cândido Rondon como companheiro de aventura.
Buscaram a nascente na Chapada dos Parecis, atual município de Vilhena. Descobriram que ele é afluente do Rio Aripuanã. Tudo bem. Devem ter matado algumas onças e caçado algumas borboletas para serem colocadas em algum museu de Nova York. O curioso é que, anos antes, Rondon ao construir a Linha Telegráfica, fez um ângulo de 70 graus seguindo rumo ao Rio da Confusão, para depois retomar seu trajeto rumo a Porto Velho. Diga-se, no entanto, que Rondon era “macaco velho” e conhecia cada pau daquele caminho. Não teria ele cometido um engano. Foi uma confusão, ou uma fusão de coisas. Para justificar denominou o córrego de Rio da Dúvida. Os trabalhos de Rondon já corriam o mundo, foi então que recebeu o convite de Roosevelt para juntos solucionarem o problema hidrogeográfico.
É aqui que a porca torce o rabo. Rondon, quando da construção da linha telegráfica, alardeou, para não dizer que relatou, espalhou uma “FAKE NEWS” sobre a existência de uma tribo de índios com flechas com ponta de ouro e enfeitadas com pedras de diamantes. Afinal de contas, ele também tinha direito de contar bravatas ou lendas.
Fawcett, explorador e aventureiro inglês, já tinha enfiado seu nariz pela Bolívia à procura de uma cidade perdida. Depois se enfiou pelo Brasil e acabou se perdendo na Serra do Roncador, MT. Sumiu e nunca mais se teve notícia. Verdade é que estava bem longe do Rio da Dúvida. A confusão deve ter sido outra.
Verdade é que não longe das nascentes do Rio da Dúvida existe uma das maiores minas de diamantes do mundo, justamente na reserva Roosevelt. A pergunta que não quer calar: não seria isso que Roosevelt estava procurando? Talvez Rondon não quisesse ensinar o caminho das pedras.
Não podemos falar de Rondon sem dizer do seu bom relacionamento com os povos nativos. Com certeza houve alguns atritos, porém ele era descendente dos nativos mato-grossenses e bem sabia como tratá-los. Defendeu o direito ou o princípio de que os povos indígenas têm o direito de se integrar aos costumes da nossa civilização e foi o propositor da criação de áreas indígenas onde fossem assegurados os seus direitos e as suas culturas.
Além de militar, foi um humanista. Teve indicação para o Prêmio Nobel da Paz. A indicação foi feita simplesmente por Albert Einstein.
“…uma carta do físico Albert Einstein, escrita em 1925, recomendando ao comitê do prêmio o nome do marechal brasileiro Cândido Rondon (1865-1958). Einstein redigiu a carta ao comitê do Nobel, sediado em Oslo (Noruega), a bordo do navio Capitão Polônio, depois de uma viagem de 51 dias pelo Brasil, Argentina e Uruguai, a maior parte dela passada no Rio de Janeiro.” (Fonte: Folha de S.Paulo)
Lembremos que em 1925, Einstein estava na flor da idade, e o Rio de Janeiro, com certeza, já oferecia alguns atrativos turísticos. Dizem até que deu pitaco sobre a construção da Estátua do Cristo Redentor.
13/03/2026
Na Luta
Os primeiros meses em Cacoal: o escritório do Dr. Rufino, o contratinho que garantiu o almoço, o quartinho nos fundos e a mudança para Rolim de Moura.
O Advogado a quem fui apresentado, Dr. Francisco Rufino, mostrou-se muito camarada e solidário. De pronto convidou-me para ir até seu escritório. Lá expôs sua vida:
— Tenho o escritório, todavia me ocupo com outros negócios como corretor de imóveis, compra e venda de veículos. Até mesmo porque esta cidade não tem fórum, não tem Juiz, apenas um delegado de polícia que vira e mexe dá voz de prisão sem mesmo haver flagrante delito. E os pobres cidadãos não têm dinheiro sequer para comer, que dirá para pagar advogado. A comarca fica distante cem quilômetros, mas também não tem juiz. É bom lembrar que aqui é território e as coisas são bem complicadas. Fique aqui e tome conta do escritório, faça de conta que é seu.
Tão rápido quanto chegou, saiu para as suas lides.
Que bom — mal cheguei e já tinha um lugar pra trabalhar. O problema estava em ganhar um dinheiro para almoçar, porque os últimos trocados foram gastos para pagar o pernoite no hotel.
Faltava pouco para as oito horas. Não demorou e chegou a secretária, que estranhou a minha presença. Era uma mocinha franzina, quase esquálida, que deixava transparecer sua origem humilde e carente.
Passado algum tempo chegou alguém para que fosse lavrado um contrato. Ela de pronto pôs-se a datilografar e ao final cobrou algum valor que guardou para si. Logo mais outro.
Percebi então que ali estava minha salvação. Fiquei na porta e quando chegou alguém procurando pelo advogado, apresentei-me e convidei-o para entrar no gabinete:
— Pois não, meu senhor, em que posso ajudá-lo? — É pouca coisa, doutor, apenas um contrato de venda e compra de um terreno.
Desta sorte ficou garantido o almoço e a janta.
Adi Baldo no escritório em Cacoal — início dos anos 1980.
No mesmo dia arrumei lugar para dormir. Um pequeno quarto nos fundos do escritório.
Por cinco meses permaneci naquele escritório, onde tive a oportunidade de conhecer a sede da comarca e atender alguns casos na delegacia. Foi quando fui convidado para trabalhar com outro advogado. As coisas melhoraram, porém apenas para ganhar algum dinheiro e, no final do ano, retornar ao Paraná — apenas para dar satisfação aos parentes e a uma namorada que deixara. Feita a visita, nunca mais a vi.
Retornei em fevereiro. Já estava decidido: não ficaria mais em Cacoal. Uma nova cidade despontava e prometia ser uma futura metrópole. Sua base econômica era madeira — mogno, cerejeira e garapeira — que abastecia os grandes centros do Brasil e do exterior. Uma centena de serrarias trabalhava noite e dia. Milhares de pessoas abriam clareiras na mata, alojando suas famílias em barracos e dando início às lavouras de arroz, feijão, café e pastagens.
A carência era visível. Falta de infraestrutura de estradas, escolas, hospitais. Centenas morriam vitimadas pela malária e outras doenças tropicais. Um pequeno hospital mais se parecia com um acampamento de guerra. A poeira e a fumaça ofuscavam o sol, mas o povo, sempre animado, ciente que viera para uma batalha na qual seria vencedor.
Assassinatos a toda hora, e apenas uma pequena delegacia com três agentes e nenhum delegado de polícia. Polícia militar não havia. Aquilo não era uma cidade, mas uma população que se instalava em um terreno com traçado urbano feito em papel cartolina. Era administrado por um “sacatrapo” nomeado pelo prefeito de Cacoal, a quem pertencia o distrito.
A única organização civil existente era o Lions Clube, que fazia arrecadação para a compra de cadeiras de roda para atender acidentados. Igrejas das mais variadas denominações cristãs erigiam seus templos. Lojas de toda a sorte, e uma agência do extinto Banco Bamerindus que atendia grande parte da movimentação financeira. Assaltos se davam com frequência e à luz do dia.
De repente o Território foi transformado em Estado e não demorou a emancipação do distrito. Eleição para o primeiro prefeito e vereadores. Comício misturado com o movimento das Diretas Já. O candidato do MDB venceu de lavada. Na qualidade de presidente do partido e na falta de outros, ocupei o cargo de Secretário de Administração da cidade e depois de Assessor Jurídico. Também foi criada a comarca — e no ano seguinte foi marcado o primeiro Júri.
Nesses quarenta anos, exerci a advocacia sempre preocupado com a ética. A natureza das lides era das mais elementares: execuções, divórcios, alguns inventários e processos criminais. Poucas apelações, notadamente por conta da singeleza das demandas. Foi relevante a atividade de assessoria jurídica para as prefeituras dos municípios que surgiam na região — Rolim de Moura, Nova Brasilândia, Alto Alegre dos Parecis e São Felipe do Oeste.
Não havia televisão, ou com quem trocar ideias a não ser as questiúnculas da política. Resiliência e fé. E assim vivi.
13/03/2026
O Primeiro Júri
Um barracão de pau-a-pique virou tribunal. O juiz era novo, o promotor era novo, o advogado era novo — e o réu também. Todos primários.
Município criado, instalado, prefeito eleito e empossado. Por decisão do Tribunal foi criada a Comarca. Fez-se a instalação por um ilustre e desconhecido desembargador, porém não foi designado juiz. Dada a competência territorial, centenas de processos vieram para a nova comarca. Por certo, houve um desafogo no escaninho do escrivão da comarca de origem.
Não há mal que sempre dure nem bem que sempre ature. Depois de meses de expectativa chegou o juiz. Juntamente com ele o Promotor de Justiça e auxiliares. Os poucos causídicos logo abarrotaram os escaninhos com novas demandas, ao tempo em que o Delegado de Polícia diariamente encaminhava novos inquéritos por fatos e ocorrências policialescas. Não demorou e o Juiz emitiu sentença de pronúncia. Sorteou o corpo de jurados e designou data para o julgamento.
Foi o primeiro júri da comarca. Também o primeiro do Juiz, do promotor, dos auxiliares e do advogado de defesa. Todos primários, inclusive o Réu.
O salão do Tribunal do Júri — um barracão pau-a-pique onde antes havia bailes e arrasta-pés.
O salão do júri: um barracão pau-a-pique onde rotineiramente a sociedade se reunia ao som de uma sanfona, um pandeiro e um violão para bailes e arrasta-pés. Quem diria que aquele salão serviria de palco para ato tão solene.
Debates acalorados entre a acusação e defesa. Ao final, o veredito. O corpo de jurados acatou a tese de legítima defesa com excesso culposo. O réu saiu em liberdade. Primário, de bons antecedentes. Um alívio geral. Não havia presídio para segregar o réu, caso a pena fosse privativa de liberdade.
O fato: a vítima foi atingida por um tiro de espingarda de caça, após supostamente ter ameaçado o réu com uma faca. A vítima tinha fama de matador, embora dos autos apenas constasse fotocópia de sua cédula de identidade, sabendo-se por ouvir dizer que era procedente do Mato Grosso. O réu, temendo pela sua própria vida e utilizando-se do único instrumento que possuía, puxou o gatilho e, sem a intenção de matar, atingiu a vítima pelas costas — momento em que esta tropeçou em um cipó e caiu em decúbito ventral. Tudo conforme laudo circunstanciado lavrado pelo policial que resgatou o corpo à beira de um rio em mata fechada — diga-se de passagem, floresta amazônica. O réu andou vários quilômetros por trilhas sinuosas a fim de comunicar o fato à autoridade policial.
Conclusão: o corpo de jurados não condenou, nem absolveu.
Primeiro júri da Comarca da cidade de Rolim de Moura.
Da esquerda para a direita: o Juiz Sérgio Nogueira de Lima, o promotor Jaime Ferreira, o advogado de defesa Adi Baldo e os serventuários da Justiça — Rolim de Moura, 1983.
“Recém-chegado a Rolim de Moura, a 483 quilômetros de Porto Velho, o juiz de Direito Sérgio Nogueira Lima trouxe o martelo da Lei para uma cidadezinha ainda sem recursos. No entanto, sofrimento maior teve seu antecessor, Aldemir, que permaneceu menos de um ano no cargo. Até para telefonar, ele tinha que ir à Prefeitura, onde estava instalado um dos poucos aparelhos em repartições oficiais; andava de bicicleta.” — Adi Baldo, advogado, que em 1983 participou do primeiro júri no salão de um clube.
13/03/2026
Rondônia de Verdade
Dos rios Guaporé e Madeira ao Marechal Rondon, dos seringueiros aos pioneiros — um manifesto de quem viveu e amou essa terra.
Quando se diz de uma terra que se banha nas águas dos Rios Guaporé e Madeira, receptores do Madre de Dios, Beni, Ji Paraná, e tantos outros que vertem de suas entranhas, para finalmente se derramarem no Amazonas, em busca do oceano, de onde vieram e por onde navegaram os destemidos portugueses em busca do Eldorado;
Quando se diz de um nobre denominado Don Antônio Tavares de Rolim de Moura, Conde Azambuja, que navegou pelo Estuário do Prata, Rio Paraguai, transpondo o divisor de águas em plena selva, e navegou pelo Rio Guaporé demarcando limites com os espanhóis e que, por ordem real, erigiu a cidade de Vila Bela da Santíssima Trindade e os flancos do Forte Príncipe da Beira, a maior fortificação portuguesa;
Quando se diz de um marechal que, ombreado com seus bravos, construiu a Linha Telegráfica Cuiabá a Porto Velho, rasgando a floresta, em harmonia com os índios Parecis, Nambiquaras, Suiruís e Cinta Larga, e outras etnias, estabelecendo a comunicação entre os extremos do Brasil;
Quando se diz de uma Ferrovia que transplantou as cachoeiras e correntezas do Rio Madeira para consolidar a paz com a Bolívia;
Quando se diz de seringueiros e “Soldados da Borracha” que permearam a selva em busca do látex, o ouro branco da era industrial;
Quando se diz do maior assentamento agrário do Brasil e quiçá do mundo;
Quando se diz de uma leva de migrantes que dominaram a selva e implantaram novas culturas;
Quando se diz de um Estado brasileiro com potencialidade hídrica e mineral quase que inexplorada;
Quando se diz de um povo que cresce, se desenvolve e se orgulha de tanta beleza —
Diga-se Rondônia.
Quando nosso céu se faz moldura Para engalanar a natureza Nós, os bandeirantes de Rondônia Nos orgulhamos de tanta beleza
Como sentinelas avançadas Somos destemidos pioneiros Que destas paragens do poente Gritam com força: Somos brasileiros
Nesta fronteira de nossa Pátria Rondônia trabalha febrilmente Nas oficinas e nas escolas A orquestração empolga toda gente
Braços e mentes forjam cantando A apoteose deste rincão Que com orgulho exaltaremos Enquanto nos palpita o coração
Azul, nosso céu é sempre azul Que Deus o mantenha sem rival Cristalino muito puro E o conserve sempre assim
Aqui, toda vida se engalana De beleza tropical Nossos lagos, nossos rios Nossas matas, tudo enfim
Composição: Joaquim De Araújo Lima.
“Grato pela lembrança do nosso velho INCRA, pois, realmente, teve enorme importância nos anos 70 e 80 do século passado, na organização da estrutura fundiária e consequente desenho geopolítico hoje vigente em Rondônia, além de viabilizar o acesso a terra a milhões de migrantes oriundos de todas as regiões do país, principalmente nos grandes Projetos de Colonização (PIC’s e PAD’s), implantados a partir de 1970, mais as demais formas de acesso a terra, como a regularização fundiária realizada no mesmo período, licitação de terras públicas, etc.”
— José Lopes de Oliveira
16/03/2026
A Morte do Gerente
A única agência bancária da cidade. Um gerente de cabelos grisalhos que morreu de madrugada. Um comerciante nordestino com corneta potente e pouco tato. E o…
Era a única agência bancária da cidade. Gente chegando e abrindo negócios de todo o tipo. Por vezes apareciam depósitos em sacos de estopa. Pobres dos funcionários — trabalhavam até a meia-noite datilografando, preenchendo fichas e controles. O gerente de cabelos grisalhos tudo supervisionava, além de à noite ter que comparecer nas rodas sociais, normalmente regadas de “uísque falsificado”. O stress e o cansaço eram visíveis.
A cidade tinha um comércio efervescente, a concorrência entre os secos e molhados era grande. Com destaque para o setor de vestuário e armarinhos. Duas lojas disputavam a hegemonia. Anúncios com carros de som e desfiles pela cidade empoeirada chamavam a atenção da freguesia, carente de tudo e sem dinheiro.
A Notícia
Uma certa manhã, quando o comércio se preparava para abrir as portas, alguém avisou que o gerente do banco sofrera um ataque cardíaco fulminante e acabara de falecer. A notícia era trágica e relevante — deveria ser anunciada.
O meio de comunicação era pelos alto-falantes móveis, fixados no teto de um veículo. De pronto um comerciante passou a anunciar respeitosamente o triste acontecimento. O povo que já esperava na porta do banco ficou atônito. O que fazer? Como seria? Não havia nem mesmo quem pudesse decretar feriado.
Com o intuito de contribuir com a comunidade — e ao mesmo tempo demonstrar força —, o outro comerciante, que era nordestino da “Gota Serena”, acionou as cornetas com potência total e passou a anunciar pelas ruas da cidade:
— Espetacular notícia! Acaba de falecer o Gerente do Banco! O velório será na própria agência, mas o banco vai estar fechado.
O Velório no Banco
Consternados, os clientes que já faziam fila na porta foram aos poucos se dispersando. Não demorou e chegou o féretro. As portas do banco se abriram. Em frente aos caixas foram realinhados os bancos de espera.
A boca miúda, cochichos:
— Logo hoje que eu iria receber uma ordem de pagamento. E eu que ia falar com ele para segurar meu cheque pré-datado. Veja como são as coisas. Ele era gente boa. Que Deus o tenha.

Naquilo entra o contumaz cachaceiro:
— E morreu mesmo?
— Psiu! Cala a boca!
— Cala a boca já morreu. Eu… não devo nada pro banco nenhum — só quero saber quem morreu!
Foi nesse dia que a cidade parou — porque o gerente não estava lá.
16/03/2026
A Primeira Carreteada
Era primavera, já quase de verão. Um piá na boleia, um vaqueano de guia, e uma barrica de boa canha. O perigo não tem endereço — ronda por aí, andejo e…
Era primavera, já quase de verão. Para atender a demanda de fim de ano, Mandou o guri e um vaqueano.
A carga era pouca; coisa do dia a dia, farinha, rapadura, fumo, latas de banha E de quebra uma barrica de boa canha.
Distância de apenas uma jornada, O piá, tem que ser falquejado, porque anos lhe bate no costado.
O tempo dá o traço e o traquejo. Na vida o que se aprende primeiro É o desenleio do pialo e o tiro certeiro.
No passo a passo, não se judia o animal. O piá na boleia e o compadre de vaqueano. E tudo estará bem no final de ano.
A tarde caindo e o sol já se escondia. Por volta, muito mato e pouca gente. Por vezes um rancho ou um vivente…
Quando se viu o luzeiro da freguesia. Marcar a presença e pedir um pouso E boia se não for muito custoso.
Recomeço da jornada no clarear do dia. Ajeitar a carga, a começar pelos corotes Ovalados, desajeitados e sem suporte,
Muito apreciado o seu conteúdo. Cachaça da boa é arte e segredo. Firma o pulso, espanta o frio e o medo.
Por causa dela até me desviei do causo. Não é benta, mas é um santo remédio. Anima a alma e espanta o tédio.
Pra que pressa, tem que fazer rodeio. É no floreio que a história é contada. Tudo arrumado para reiniciar a jornada.
Atento, não se sabe onde o perigo mora. O guri mostrou ser guapo e seguro; No descampado no claro e no escuro.
Embolado na moita feito velhaco. Para contar o causo do jeito certo Me aprumo para mais uns versos.
Conforme dizia: o perigo não tem endereço. Ronda por aí, andejo e esquisito; Provoca entreveros, e enguiços.
De repente na moita a beira da estrada… Um vespeiro, e daí o causo muda. Ouve um espanto, foi um Deus nos acuda.
Na disparada voou cachaça e rapadura. Junto foi o vaqueano se esfolando na pedreira mas o piá ficou firme segurando a regeira.
Cai fora que não tem mais jeito! De longe, gritava o vaqueano. E lá se foram os sonhos e os planos.
Montado num burro e puxando o outro. Tristonho esgualepado, disse do acontecido. Foi triste, por sorte não ter morrido.
E o vaqueano ficou juntando os cacos.

— Cuidemos dos vivos — disse o bodegueiro.
16/03/2026
Eleição na OAB/RO: Uma Traição em Causa Própria
A história da primeira eleição da OAB seccional de Rondônia — um voo de asa dura, um almoço de tambaqui e uma traição registrada em guardanapo de papel.
Era o ano de 1982 e as eleições aconteceram em 15 de novembro. Até aqui nem uma novidade — eleições gerais, menos para Presidente da República e governadores, isso por conta da revolução de 1964. Eu ainda era guri, mas lembro quando o diretor do internato, empunhando um jornal, disse: — Esse General merece uma estátua em praça pública. Chamava-se Amaury Kruel. Na verdade, ele retirou o apoio que dava sustentação ao então presidente João Goulart e assim não houve enfrentamento entre tropas do exército brasileiro. A partir de 31 de março daquele ano o país teve outros rumos.
A história aqui é outra. Um acontecido vinte e dois anos mais tarde, ou seja, logo após 15 de novembro de 1982. Foi por ocasião da primeira eleição da OAB/RO. Entre os decanos inscritos figuravam Odacir Soares, Rubens Moreira Mendes e Miguel Roumie, e outros.
Odacir fora eleito senador e procurou direcionar a eleição da OAB, apadrinhando Moreira Mendes. Na disputa entrou também Miguel Roumie, como e porque não sei. Acontece que o grande eleitorado estava concentrado em Porto Velho, vez que o interior contava com poucos causídicos — a grande maioria procedentes do Sul, em busca de novos horizontes e com poucos contatos na capital.
Moreira Mendes cumpriu com o seu papel de candidato visitando pessoalmente os colegas das cidades interioranas. Tanto é que, em um dia empoeirado, apareceu em Rolim de Moura em meu escritório um senhor engravatado, com os sovacos molhados de suor, pedindo-me o apoio para sua eleição. Na sede do município Cacoal, já labutavam creio que outros oito causídicos: Rufino, Roberto Naufel, Theotônio, José Albuquerque, Líbio Medeiros e Vornei Bernardes. Rufino e Francisco resolveram não participar da eleição.
Odacir, todo poderoso, para garantir a vitória do seu candidato usou das benesses do cargo de senador ainda não empossado e prometeu um avião ida e volta até Cacoal, para transportar o eleitorado da longínqua comuna. Os causídicos da “Zona da Mata” — assim definida a região pelos portovelhenses, pretensos cosmopolitas.
De acordo com o combinado, todos votariam em Moreira Mendes, até mesmo porque não se tinha notícia de outro candidato. Dia e hora marcados, aterrizou o “asa dura”.

Com mais horas de voo sobre a Amazônia que urubu cabeça-preta. Na fila de embarque, Líbio tomou a dianteira e, por auto-indicação, assumiu o posto de “copiloto”. Comentou-se depois que o ponto mais alto até então atingido por Líbio fora a Serra da Canastra, na busca de um queijo.
Naufel e José Albuquerque, vindos do Paraná, já eram mais mateiros — um tinha trabalhado na Caixa Econômica e o outro até fora vereador de uma cidade de dois mil eleitores. Theotônio, ferramenteiro da Petrobrás, fora expulso por participar de movimentos sindicais contra a ditadura. O dito conseguia polemizar o que fosse. Eu ali no meio, por sinal mais pra beira, no final do charuto. E Vornei, com jeitão de matuto, um tanto cabreiro, viera do interior de São Paulo — creio que de Araçatuba —, filho de boiadeiro que repontava tropas de Mato Grosso para Rondônia. Gente fina. Soubemos depois que ele sofria de aerofobia, ou “medo de avião”.
O Tambaqui da Traição
A viagem foi ótima, todos muito contentes e satisfeitos. Afinal, ir de Cacoal até Porto Velho por via terrestre, naquele momento, seria algo sacrificoso. Era o nosso primeiro voto na OAB. Iríamos eleger o primeiro presidente da Seccional. Tudo na mais estrita legalidade. Só alegria. Hotel Guaporé e um dia de folga. A eleição seria no outro dia, na parte da tarde.
Foi quando correu a notícia que haveria um almoço de confraternização no Mirante do Madeira — o Point. Lá fomos nós, atendendo ao honroso convite. Após servido o famoso tambaqui e alguns brindes, percebemos a ausência do candidato. Compromissos outros, talvez. Afinal, o Estado estava em polvorosa com a recente eleição de vereadores, prefeitos, deputados estaduais, federais e senadores. Era autoridades por todo lado, excelências tropeçando em excelência.

Alguém pediu um momento de atenção e, sem delongas, concedeu a palavra ao advogado interiorano Orestes Muniz — já nosso conhecido da cidade de Ji-Paraná, sede da comarca que abrangia várias outras cidades. Após os costumeiros cumprimentos, mencionando nomes anotados aleatoriamente num guardanapo de papel, lamentou a ausência do colega Moreira Mendes e disse de suas virtudes. Porém, no seu entender, naquele momento, lhe parecia que a entidade ficaria melhor representada na pessoa do também amigo e colega Dr. Miguel Roumie.
— Os advogados devem ser paladinos das liberdades democráticas massacradas pela Ditadura, porquanto devem atuar com independência e sem comprometimento político-partidário.
Roumie residia no Território do Guaporé há muitos anos. Com muito sacrifício cursou Direito em Manaus e, depois, qual sacerdote, exerceu a árdua advocacia ao longo da ferrovia Madeira-Mamoré — Porto Velho a Guajará-Mirim —, quando não viajando apinhado nas históricas gaiolas pelas barrentas e traiçoeiras águas do Rio Madeira até Humaitá, cidade do Amazonas, duzentos quilômetros de Porto Velho.
— Desta feita, tudo o que ele podia fazer era dar apoio ao nobre e brilhante colega em seu pleito para presidente da seccional, e assim bem nos representar perante o Conselho Federal.
Vivas e aplausos. Mais alguns copos e fomos todos para o escrutínio secreto. Venceu Miguel Roumie de lavada.
O Trem Não Baixou
No outro dia, bem cedo, todos no aeroporto. A nave nos esperava. Acomodados como dantes — Vornei no fundo do charuto.
Quando já no solavanco entre as nuvens, Theotônio, paraibano da caatinga, falando mais que o homem da cobra, não se conteve: — Meti o fumo no rabo do candidato dos milicos!
O voo seguia o traçado da BR-364. Líbio, ao lado do piloto, passou a mão no bigode e, mineiramente, falou: — O meu candidato venceu…
Ao que Albuquerque emendou: — O seu não, o nosso.
Vornei, encolhidinho lá no fundo, tenso feito bode embarcado, com voz cavernosa completou: — Foi uma lavada. Agora, falta só chegarmos em casa são e salvos.
Lá embaixo o panorama era o verde da mata, por vezes rasgada por trilhas abertas pelos madeireiros e migrantes que chegavam aos milhares vindos de todas as partes do Brasil. Passamos Ariquemes, Jaru, Ouro Preto, Ji-Paraná, Presidente Médici — sempre tendo por referência a BR-364, ponteada por caminhões que vagarosamente transitavam levantando nuvens de poeira.
Não tardou e o piloto anunciou: — Cacoal. Vamos aterrissar.
Já na cabeceira da pista, arremeteu. Naufel entrou em pânico de riso. Sem saber porque do riso e o que estava acontecendo, ouvi Líbio murmurar: — O trem não baixou.
— Eita Lasquera!
— Só podia ser um avião desse exército genocida!, exclamou Theotônio.
O ambiente ficou tenso, porém foi tudo muito rápido. Ao sobrevoar o Rio Machado, cheguei até pensar que poderia ser uma alternativa — porém a nave foi reconduzida e então escutei um barulho:
TRUM… Drum, drum, drum…
Pousou tranquilamente. Que alívio. Vencemos mais uma.
P.S.
- Miguel Roumie renunciou à presidência da Seccional quando teve seu nome aprovado pela Assembleia Legislativa para o cargo de Conselheiro do Tribunal de Contas.
- Orestes Muniz, mais tarde, foi Deputado Federal, Vice-Governador e Presidente da OAB/RO.
- Rubens Moreira Mendes foi Deputado Federal e Senador.
Por fim, todos foram felizes para sempre.
16/03/2026
Festa de Casamento
27 de janeiro de 1966. A melhor novilha, espetos de camboatá, vinho no barril e convidados que guardavam rancores entre si. O pai do noivo tinha a paciência…
Eu não vi. Sei por ouvir dizer.

Era 27 de janeiro — creio que 1966. O casório foi marcado para essa data. Noivos e padrinhos vestidos no melhor estilo. Convidados da noiva, do noivo e outros que por força de circunstâncias não poderiam ser olvidados em evento tão importante.
O pai do noivo providenciou um grande banquete. A melhor novilha, bolos e cucas. Na sobra do arvoredo, uma grande mesa de tábuas construída sobre cavaletes, forrada de papel jornal e bem posta com pratos, talheres e copos. Logo ali uma vala com braseiro de nó-de-pinho, espetos de camboatá e a carne na gamela temperada na salmoura. Na outra banda um balcãozinho com um barril de vinho e muitas garrafas de framboesa refrescadas em um caixote com gelo e coberto de serragem.
A comitiva dos noivos chegou e foi recepcionada por uma saraivada de fogos de artifício. O céu azul ficou levemente enfumaçado enquanto que os cavalos arreados e amarrados nos pés de guabiroveira bufavam espantados, e os cachorros que rodeavam os espetos prontos para serem estendidos sobre o braseiro fugiram aturdidos pelos pipocos. No portal feito com folhas de palmeiras e flores de bem-me-quer, os convidados fizeram calorosa recepção com o tradicional:
— Viva os noivos! Viva os pais dos noivos! Viva os padrinhos dos noivos!
O pai do noivo, anfitrião, sempre atento para que tudo ocorresse dentro dos conformes. Todos os convidados foram acomodados na mesa. Na cabeceira os noivos, ladeados pelos padrinhos, e em seguida os pais dos noivos e por fim os convidados — afora as moças e rapazes que conversavam na sombra das árvores e a gurizada que corria para todos os lados em grande alegria.
O pai do noivo sabia que entre os convidados havia aqueles que guardavam rancores entre si por picuinhas da vida — todavia acreditou que, em se tratando de uma festa familiar, não haveria quebra do decoro.
O Banquete
O banquete foi servido. Os churrasqueiros, empunhando os espetos e facas, ofereciam bons assados de galinha, porco, cabrito e gado. Senhoras com aventais bordados levavam tigelas com macarrão e saladas, enquanto outras serviam vinho e refrigerantes.
Quebrados os paradigmas, causos e anedotas eram contados entre os convivas, além de comentários sobre acontecidos na redondeza.
Sempre atento, o anfitrião de nada descuidava — inclusive dos convidados que supostamente guardavam seus rancores.
Conforme dizem as escrituras, “o vinho alegra o coração do homem” — e libera as inibições. Estando tudo a contento, era justo que o anfitrião também participasse dos festejos. Conforme os costumes da época, a cantoria teve início. Sempre há quem canta, quem aprecia e quem não dá a mínima e permanece com seus pensares.
A Paciência de Jó

Quando tudo já perfeito, eis que numa banda surge um burburinho — justamente entre eles, “os rancorosos”.
Vai o anfitrião, serena os ânimos, e tudo volta ao normal, seguindo a festa.
Não demorou e novamente um disque-que-me-disse — e lá vai o anfitrião com a paciência de Jó e acomoda as cousas:
— Hoje é festa. É dia de alegria. Estamos entre amigos.
16/03/2026
Nego Inglês
Um pistoleiro misterioso, um restaurante popular e uma tarde em que o advogado virou motorista — e saiu a pé no sol de torrar castanha.
Já estava me acostumando na nova cidade. Conhecendo uma pessoa aqui, um comerciante ali. Muitos vinham ao escritório com pendengas diárias, questão doméstica. Nas ruas muita poeira e ruídos de alto-falantes na ponta dos postes — conhecido como pau do fuxico — ou sobre veículos anunciando produtos e notícias do momento. Lojas e bares de sinuca.
Havia entre outros um restaurante popular chamado “Roda Viva”. Ali fazia minhas refeições. O proprietário Genésio não estava muito satisfeito com o negócio. Dizia ele: muito trabalho para pouco resultado.
Um dia chegou na cidade um sujeito tipo “lombrosiano”, conhecido por Nego Inglês, que não deixava claro qual sua verdadeira ocupação. Um rolista. Correu notícia que era pistoleiro, porém nada havia que pudesse incriminá-lo.
De outra feita apareceu na praça um sujeito forte, loiro, que dizia ter vindo do Sul e não demorou para receber o apelido de “Polaco”. Pretendia se estabelecer no ramo de bar e restaurante. Genésio viu a oportunidade e propôs a venda do Roda Viva. Ficou claro que o dinheiro do Polaco não era muito. O negócio se concretizou quando interveio o Nego Inglês, propondo uma sociedade.
Conversas e acordos — a transação aconteceu. Tomaram posse do estabelecimento e tudo bem. Porém nem tanto. Logo no segundo dia percebeu-se que a qualidade do serviço havia caído, muito embora já não fosse grande coisa. Certo é o ditado: nada é tão ruim que não possa piorar.
O Almoço do Terceiro Dia
No terceiro dia, chegando para o almoço, senti algo estranho no ar, sem saber o que poderia ser. Observei os comensais e ali estava o Ceilão — um senhor forte e muito respeitado por suas atitudes firmes. Mais alguém além de Genésio que ainda aguardava pelo pagamento do que fora acordado.
Busquei uma mesa e estava no aguardo, quando adentrou um conhecido. Intuitivamente perguntei-lhe se estava com fome.
— Muita, disse ele.
— Então coma e saia logo.
Quis saber por quê. Nada não, respondi-lhe — até mesmo porque não fazia sentido o meu alerta.
Foi quando escutei o grito:
— Polaco, não abra a boca porque te entupo de bala!
Era o Nego Inglês com arma em punho, apontando pro sócio.

Havia uma porta dos fundos que dava para um brejo tomado pela quiçaça e por ela vi meu amigo se jogando. Coisa de cinema.
Fiquei como se estivesse vagando no espaço. Naquele sufoco vi o Ceilão tentando amenizar a situação. O Polaco estava mais amarelo que ipê na florada. Indeciso, cheguei no costado do Ceilão e balbuciei:
— Nego Inglês… se você fizer alguma coisa, não vai ficar bom pra você. A polícia está aí pertinho e vai lhe prender.
Para aumentar meu espanto, o Nego Inglês baixou a arma e disse:
— Tá certo, seu dotô.
E jogando na minha mão a chave do Jeep velho sem capota, intimou-me a levá-lo pra fora da cidade. Não tive como recusar tão importante convite. Era meio-dia e meio, mais ou menos. O sol de torrar castanha. Acelerei na rua empoeirada. Já fora da cidade, Nego Inglês mui cordialmente falou:
— Aqui tá bom, seu dotô. Muito agradecido.
Assumiu a direção e sumiu na vicinal. Sobraram-me dois quilômetros no sol escaldante, sapecando a cabeça já com pouca cobertura.
O Que Ficou
Após meia hora de exaustante caminhada, cheguei no restaurante ainda pensando encontrar um prato de comida. Ali estava Genésio. Percebendo a minha presença perguntou:
— Cadê o Nego Inglês?
— Deve ter ido pros quintos dos infernos, resmunguei.
Genésio estava inconformado por ter que reassumir o negócio, visto que ninguém lhe dera um tostão.
— E o Polaco?, perguntei.
— O Polaco?… Acabou de subir no ônibus dizendo que estava retornando para Santa Catarina para nunca mais pôr os pés neste inferno.
Nunca mais vi o Nego Inglês. Muito menos o Polaco. Não demorou e o Roda Viva fechou as portas. Ceilão, tempos depois, sofreu um infarto — que Deus o tenha em sua infinita bondade. Genésio ainda permaneceu por lá um bom bocado. De um tempo não mais o avistei; afinal das contas é assim mesmo — as pessoas vão andando por esse brasilzão e somem como as notícias. Tudo fica no “ouvi dizer que…”.
Quanto ao amigo que chegara para almoçar naquela hora tão imprópria, por vezes o vejo. Continua firme e forte, mas não comenta sobre o fato.
De resto, conforme dizia uma certa pessoa cuja identidade desconheço:
— Não é da sua conta. Porém, em sendo relevante, posso até prestar esclarecimentos — todavia, por se tratar de fato público e notório, ficam dispensadas as provas.
16/03/2026
O Embalsamento
Como um advogado do interior de Rondônia virou ajudante de embalsamamento — com jornal do Figueiredo no lugar das vísceras e brilhantina no lugar da mirra.
Já fazia dois anos que eu estava na cidade, bem adaptado com aquele ambiente rústico e insalubre. Várias amizades e entrosamento com pessoas da indústria e do comércio. Quase que diariamente surgiam informações desencontradas de mortes por acidente de trabalho e vítimas da malária e outras doenças tropicais.
Aconteceu que um senhor de muitas posses de Curitiba resolveu fazer um empreendimento na Amazônia, na exploração de madeiras. Adquiriu bons equipamentos — serras, caminhões, tratores — e se instalou em Vilhena. Para tocar o empreendimento, contratou um parente distante da família que residia em Jaraguá do Sul, onde era professor.
Lamentavelmente, e por desconhecimento, escolheu um lugar onde o ciclo da madeira já se esgotara, principalmente porque o mercado só se interessava por madeiras nobres — como cerejeira, mogno e algumas outras variedades. O empreendimento nasceu morto.
Tentando contornar a situação, determinou que o gerente mudasse para Rolim de Moura, onde a madeira era farta. Farta era — centenas de serrarias competiam acirradamente. Não sobrou outra alternativa senão a de prestação de serviços, transportando madeira para as serrarias. Em que pese ter estrutura, era uma atividade de sobrevivência.
A Tora
Nessa jornada, um determinado dia foi trágico. Ao descarregar o caminhão, soltos os cabos de aço, a carga caiu de uma vez — e uma tora ricocheteou e atingiu o sujeito que ali mesmo ficou inerte.
Comunicado o patrão, este de pronto me procurou por telefone pedindo auxílio e deu as ordens:
— Quero transportar o falecido para Jaraguá do Sul, onde estão seus parentes. Resolva isto para mim.
De pronto saí para a missão. O corpo já estava na funerária, sem um cristão para acender uma vela. Me apresentei, dizendo que o corpo seria transladado para Curitiba.
— Pois sim, senhor — disse o agente funerário. — Temos caixão apropriado, mas não temos profissional para o embalsamamento.
Eis o nó górdio. Um médico seria a solução. Procurado o profissional, disse-me:
— Faço o serviço, porém preciso de um ajudante e não tenho.
Sobrou para o causídico.
— O que devo fazer?
— Simples. É só me acompanhar na atividade.
O Barracão
Transportado o corpo para o hospital, o médico disse:
— Depositem-no sobre a mesa que está lá no barracão.
Um espaço que se destinava a guardar ferramentas e outras coisas sem uso.

Logo chegou o médico com bisturi e outros aparelhos. Examinou superficialmente e traçou o corte.
— As vísceras vão cair e você acondicione nesse saco plástico e põe no caixote.
Até que não foi difícil.
— Agora vamos higienizar, com água e sabão.
Uma mangueira de água e sabão líquido. Feito isso:
— Vamos injetar formol em quantidade.
E com uma seringa gigante injetou formol do dedão do pé até o couro cabeludo, além de lavar todo o corpo internamente.
E lá vai o causídico com as mãos nas cavidades de peito e vísceras.
Preenchimento com algodão, conforme o manual. A questão foi que faltou material — e assim foi complementado o enchimento com folhas de jornal. Lembro bem de uma das manchetes da época:
“Presidente Figueiredo acena com a Abertura e a Anistia.”
Pensei comigo: esse não será beneficiado.
A Brilhantina
Encerrada a atividade, o corpo foi costurado e, seguindo o manual, deveria ser untado com óleos especiais com propriedades antimicrobianas, antifúngicas, antioxidantes e desodorizantes — substâncias que ajudam a retardar a decomposição, sendo a mirra um dos mais tradicionais.
Só que não tínhamos.
Lembrei o meu professor de medicina legal, o Dr. Romanó: “Use a criatividade. O sujeito já está morto.”
Foi o que sugeri:
— E se untarmos com brilhantina?
— Boa ideia! — disse o médico.
E partiu para a feirinha em busca da brilhantina. Lá veio ele com um frasco de 500 ml. Mãos lambuzadas e corpo untado.
A encomenda foi para o carro funerário e partiu para Cuiabá — e dali pra frente seria via aérea. O corpo chegou ao seu destino. Honorários na conta e mil agradecimentos pelos serviços prestados.
16/03/2026
Pé de Jaca
Um gaúcho recém-formado chega em Rondônia em 1978 e encontra na tia uma sábia lição: o político é igualzinho a um pé de jaca. Casca grossa, bagos melequentos…
Pelas lides forenses, em Rondônia encontrei um advogado que viera do Rio Grande do Sul. Estendendo a conversa, disse-me ele:
— Cheguei em Rondônia em 1978. Recém formado na faculdade de Passo Fundo, bolei a perna, e sentei os garrões no Território. Viagem cansativa. Já era escuro quando bati o pé na soleira da casa de uma tia que viera tempos antes.
Para não dizer que tudo era na base da luz de vela, a casa era guarnecida por um motor estacionário, o qual gerava energia até a hora de dormir. Umas prosas e todo o mundo pra cama.
— Acordei com o barulho de panelas. Titia já estava preparando um café reforçado.
Olhei para a porta dos fundos, e fiquei impressionado com uma árvore que havia no quintal. De pronto quis saber que espécie era aquela. Seria uma árvore típica?
A resposta foi quase que lacônica:
— Isso aí é um político.
Intrigado, busquei esclarecimentos — afinal eu já era advogado, e meias respostas já não me eram suficientes.
A Comparação
— Na verdade, é uma jaqueira, mas eu chamo isso de político.
— Como assim, não estou entendendo.
— Mera comparação, mas eu explico. Veja bem: é uma árvore bastante frondosa, produz uma boa sombra, tem um belo fruto — além de outros atributos, como casca grossa e bagos melequentos.
— Sim, e daí? Como se diz no Rio Grande: o que tem a ver um causo com outro?
— Como disse, mera comparação. O político é meio parecido com um pé de jaca. Ele sempre se mostra vistoso, importante e bonachão.
— Verdade, o político tem que mostrar suas qualidades, mas o que tem a ver com esta árvore que não existe no Rio Grande?
— De fato por lá não tem, mas tem alguma coisa meio parecida.
— O que tem de parecido por lá?
— O pinheiro. Alto, bonito, casca grossa, uma fruta lá pela ponta dos galhos — que se cutucada com uma taquara se debulha e se esparrama pelo chão, e dá um trabalho danado para juntar os pinhões no meio das grimpas e samambaias, e a gente sai todo arranhado.
— Verdade. Até aí tudo bem, mas não vejo que seja igual essa dita jaqueira.
— Não é igual, mas é tudo meio parecido. Estás vendo a fruta? Até se parece com uma pinha. Tudo cheio de “não me toque”, e bem grudada no pau. Agora, experimente pegar uma. Se tá verde, larga um leite pegajoso. Se está madura, vira uma meleca de cheiro duvidoso. Mas é fruta e você tenta aproveitar. Tem que rasgar a casca, e você fica todo lambuzado. Mesmo assim a gente experimenta. Depois de umas duas bagas, dá enjoo — e tem que tirar do quintal porque atrai muita mosca. E se jogar para os porcos, eles recusam.
— Tudo bem parecido com um político.

Debaixo não Cresce Nada
— Mas báh tchê! E eu que vim para esse Território pensando em resolver minha vida, ser útil para a sociedade, me candidatar a vereador, prefeito, deputado — e quem sabe até mais que isso. Assim, tia, você me desanima logo na chegada.
— Não meu sobrinho, vai com calma. É cedo, vamos tomar um chimarrão e prosear. Pra tudo se dá um jeito. É de vagar se tropeia.
— Ainda bem, porque já estava pensando em voltar para o Rio Grande.
— Por aqui tem muitas vantagens. As coisas acontecem rápido. Por exemplo: se você plantar um pé de jaca, com três anos já vai estar produzindo.
— Mas onde vou plantar um pé de jaca se não tenho um palmo de chão?
— Em qualquer lugar. Pode até ser na beira da estrada. Mas muito cuidado.
— Cuidado com quê?
— Que debaixo de um pé de jaca não cresce nada. Nem capim.
— Sei. Estou entendendo.
O sol já estava alto e eu por ali, sapateando, indeciso e ao mesmo tempo curioso. Foi quando minha tia me falou:
— Por aqui ninguém fica sem um pé de jaca. Então, vai lá — fala com o prefeito. Ele é gente boa.
Me bandei. Mal mostrei minhas credenciais e ele me disse:
— É de gente assim que estamos precisando. “Vamo” ali na sombra da jaqueira para a gente conversar melhor.
16/03/2026
Tudo Passa por Guarapuava
Um paraguaio, um ônibus para Curitiba e uma única certeza: passa por Guarapuava. O motorista chegou ao limite — e a confusão virou história.
Todo o paranaense sabe onde fica Guarapuava. Uma cidade localizada quase na região central do Estado. Cidade de clima agradável e muita história e tradições. Povo de estilo ímpar. Paranaenses com estilo gaúcho, mas de sotaque caipira por conta dos tropeiros que iam de São Paulo ao Rio Grande, passando pelos campos de Guarapuava.
Antigamente, quando a enxó usava bainha, um paraguaio querendo ir para Curitiba tomou um ônibus e, desconhecendo completamente o trajeto, ainda na rodoviária abordou um cidadão e perguntou:
— Esse vai para Curitiba?
— Vai sim, passa por Guarapuava e outras cidades e chega lá.
— Muchas gracias, senhor.
Um pouco confuso com as informações, embarcou — mas lembrou que o sujeito disse que passava por Guarapuava.
A Dúvida que não Passa
O ônibus partiu e logo chegou em Laranjeiras. O paraguaio, para ter certeza, perguntou ao motorista:
— Esse ônibus vai para Curitiba?
— Sim — respondeu gentilmente o motorista.
— E passa por Guarapuava?
— Sim, passa por Guarapuava.
O paraguaio sentou e ficou atento.
Logo mais o ônibus parou no entroncamento de Cantagalo. O paraguaio se levantou:
— Esse ônibus vai para Curitiba?
— Vai. Vai para Curitiba.
— E passa por Guarapuava?
— Sim, passa por Guarapuava.
O paraguaio sentou e ficou atento.

Cansado, o paraguaio dormiu — enquanto o ônibus passava por Guarapuava.
O Inferno Fica em Curitiba
Logo mais o ônibus parou em uma vila e o paraguaio perguntou novamente:
— Esse ônibus vai para Curitiba?
— Vai pra Curitiba — disse o motorista.
— E não passa por Guarapuava?
O motorista, já de saco cheio, respondeu:
— Esse ônibus vai pra Curitiba, passa por Guarapuava e pro inferno!
O paraguaio, que não entendia bem o português, sentou na poltrona, tentando ficar atento.
Clareava o dia e o ônibus encostou na rodoviária de Curitiba. Um frio de lascar. O motorista, que não havia vestido sua japona, exclamou:
— Curitiba dos infernos!
Ao que o paraguaio respondeu:
— Bueno… ¡mas no passa por Guarapuava!
— Buenos días, señor.
17/03/2026
Comedor de Bananas
Uma banana com garfo e faca, talheres de prata e porcelana fina — o direito inalienável de comer o que bem lhe prover.
Sofisticada fruteira posta sobre a mesa e enfeitada com um belo arranjo de gerânio de matizes diversas. Com dáctilos arqueados, como se fossem garras aquilinas, firmemente retirou daquela fruteira um espécime paradisíaco que aguçava suas glândulas degustativas. Acomodou-a leitosamente no prato de fina porcelana posto à sua frente, ladeado por magníficos talheres de prata.
Seus lábios, encimados por volumoso e grisalho bigode, abrigado sob adunco nariz, sustentáculo de um par de óculos estilo vitoriano, e atalhado por sobrancelhas “lobatianas”, denunciaram um discreto sorriso. Descontraiu a grande testa enrugada e exalou um profundo e longo suspiro como que tomado por grande alívio.
Empunhando os finos talheres — garfo na mão esquerda e faca na direita —, cortou as extremidades, em seguida traçou um corte longitudinal dividindo a fruta em duas partes simetricamente iguais. Singelamente subdividiu em nacos e um a um lentamente passou a degustá-los.

Concluído o lauto banquete, acostou-se na cadeira e disfarçadamente levou a mão à boca para ocultar a eructação.
Satisfeito, contemplou o teto e as sanças ornadas de arabescos dourados, para logo em seguida baixar o olhar sobre as cascas daquela fruta pertencente à família das musáceas.
Ato contínuo, pôs-se em pé, apanhou seu chapéu panamá pendurado no cabideiro do hall de entrada, cordialmente acenou para o garçom que visivelmente aguardava por uma gorjeta.
Pisando o patamar revestido de mármore, ganhou a calçada de paralelepípedos de rocha magmática. Com passos firmes deu início à sua caminhada, em clara e inequívoca demonstração de que todo indivíduo tem direito de comer o que bem lhe prover, independentemente das circunstâncias.
Por oportuno, vale salientar que a banana não é uma espécie nativa. E quando alguém diz que uma mulher é uma musa, poderá estar fazendo alusão à Musa ornata — ou seja, uma bananeira, espécie asiática e invasora da mata atlântica.
Para quem não sabe ou nunca ouviu falar, Carmem Miranda gravou e fez sucesso nos States. Em inglês. Yes.

Eu sou Chiquita Banana e vim para dizer Bananas têm que amadurecer de uma determinada maneira Quando elas estão pintadas de marrom e têm uma cor dourada Bananas têm o sabor melhor e são melhores para você Você pode colocá-las em uma salada Você pode colocá-las em uma torta De qualquer maneira que você pode comê-las
17/03/2026
História do Povo Ucraniano
Do meu jeito de contar: fronteiras, cossacos, vodka, CTU e a guerra que continua até hoje.
Do meu jeito de contar.
Segundo dizem, e numa dedução linguística, ucrânia é um sinônimo ou derivado de fronteira. Assim como os gaúchos se diziam da fronteira, porque separavam os invasores portugueses dos invasores espanhóis na América do Sul, os ucranianos ficam na fronteira entre os povos eslavos e europeus, itálicos, germânicos etc.
Até aqui e talvez, somente isso é o que há em comum entre os gaúchos e os ucranianos, afora a bombacha, as botas, o pala e demais adereços utilizados pelas prendas sempre mui enfeitadas.
Tudo começou lá pelos idos do ano 400, quando uns gaudérios — sujeitos alegres — vindos mais do Norte, se acamparam à beira de um rio, em uma colina coberta de neve e por ali ficaram até que se formou um vilarejo e deram o nome de KIEV em homenagem ao chefe da tribo. Só mais tarde é que criaram o CTU. (Centro de Tradições Ucranianas.)
Um tempão depois disso, lá pelo século IX, os VIKINGS, uns caras metidos à besta, que queriam ser donos do mundo, passaram por ali, e foi que sucedeu o maior entrevero. — Entrevero significa “meia verdade”. — O causo não ficou bem contado, mas os ditos invasores saíram na base do empurrão e no bico da bota. Pra comemorar o feito, os ucranianos fizeram uma baita bailanta. Por conta disso, que os gaúchos se inspiraram para celebrar a Semana Farroupilha. Uma semana de festa.
Quando já bem tragueados pela VODKA, os ucranianos realizavam um campeonato de dança denominado de KAULA, uma dança só pra macho, por riba de uma lança de três metros. E pra variar faziam a dança dos facões. Era de sair faísca. Também faziam a dança conhecida por CHULA. No fundo trata-se de um exercício para testar o equilíbrio.
Alerto que quem quiser saber mais sobre os migrantes ucranianos e outros que vá pesquisar. Ou como dizia o falecido vovô Franquelim: “Vá te afumentá.” Traduzindo: Acenda o palheiro e fique jogando fumaça pro vento. Na verdade, o que descrevo aqui não é nada. A Ucrânia tem uma história milenar e de grandes feitos.
Tudo ia bem entre os ucranianos, lá no velho mundo, até o ano de 1300, quando um bando de fuzarkeiros, de olhos puxados, montados em cavalos, por lá chegaram e fizeram o maior esparramo. Ainda bem que não durou muito tempo. O chefe deles, conhecido por Genginskham, era chegado numa bebida conhecida por Varenukha, produzida pelos ucranianos, e acabou morrendo de bêbado — ou seja, na maior manguaça.
Acontece que tudo o que é bom dura pouco e lá pelas tantas, ou mais ou menos pelos idos de 1750, uma tirana — Catarina a Grande —, e segundo os ucranianos, “grande sem vergonha”, invadiu o país e proibiu até o idioma ucraniano. Não carece dizer que ela era russa. E põe russa nisso.
O pior mesmo aconteceu por volta de 1917, quando surgiu um movimento político liderado por três cabras safados: Trótski, Lenin e Stalin. Esses três eram amigos, mas não amarravam as éguas no mesmo pau. Com suas ideologias, provocaram a maior desgraceira não só na Ucrânia como pelo resto do mundo. Isso pra não dizer genocídio — que envergonha a história da humanidade —, conhecido por Holodomor (DEIXAR MORRER DE FOME).


Pra não espichar o causo, que já está mais cumprido que “chimarrão de polaco”, a partir de 1890, os ucranianos começaram a vir pro Brasil.
Vieram de bota e bombacha, faca e guaiaca. E o gaúcho gostou.
Quando da chegada dos primeiros no sul do Brasil, a cultura gaúcha já estava se espalhando pelos interiores catarinenses e paranaenses, graças aos tropeiros e à ferrovia que interligava São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. Por aí os ucranianos também foram se espalhando — inicialmente como serviçais, depois passaram às práticas agrícolas no cultivo de fumo, batata, exploração da erva-mate e outras culturas. Criaram várias cidades, como Papanduva em Santa Catarina, e Prudentópolis no Paraná, esta conhecida como a capital da Ucrânia no Brasil.
Quanto à cultura e tradições, os mesmos conservam suas festas típicas, porém o estilo musical dos gaúchos bateu na veia — inclusive os trajes, que de longe lembram suas tradições. Quanto ao chimarrão, dizem que o chimarrão gaúcho é o melhor que há, desde que seja de Papanduva.
Pra encerrar: a Ucrânia teve um breve período de independência entre 1917 e 1921, quando foi absorvida pela União Soviética. As atuais fronteiras foram fixadas apenas em 1954. Recuperou sua independência em 1991, com a desintegração da URSS.
Terras férteis e detentora de tecnologias. Em fevereiro de 2022, foi invadida pela Rússia.
A guerra continua até hoje.
17/03/2026
O Povo Está Enfezado
Da nobreza colonial jogando fezes pela janela aos palácios sem janelas de hoje — o povo continua enfezado.
Agora que dos pratos só sobram os cacos, já dá pra falar do que se aproxima.
O período mais conturbado da história do Brasil foi o encontro da sujeira com a arrogância e o deboche.
Um escândalo do mensalão parecia que tinha servido de alerta da necessidade de uma limpeza na Administração pública.
Pouco pode fazer um juiz quando lhe é apresentada uma denúncia-crime pelo Ministério Público, se não intimar o acusado para que faça a sua defesa, seja quem for: políticos, empresários, diretores de estatais, partidos políticos e até chefe da Nação.
Cabe ao juiz analisar as provas e julgar. Aí começa o dilema.
Como deve se portar o juiz para se inteirar dos fatos? Além de examinar as provas, inquirir as testemunhas e ouvir os acusados. O acusado não está obrigado a responder aos questionamentos do juiz, sendo certo que o silêncio poderá ser interpretado em seu desfavor.
Refiro-me à Lava Jato, quando uma dezena de pessoas foram condenadas. Coisa nunca vista antes no Brasil. As provas ficaram estampadas.
O caso, no entanto, se tornou emblemático. A acusação contra o presidente da república da época dos fatos. O Ministério Público afirmava que a prova era um apartamento que o presidente teria recebido a título de propina. No entanto, o referido apartamento não estava registrado em nome do acusado ou de seus familiares. Nele nunca o presidente habitou, em que pese ter feito visita quando estava em obras.
É óbvio que uma visita ou mera intenção de possuir não caracteriza fato delituoso. Já dizia o jurista italiano: “Pensiero non paga gabella” — ou seja, pensamento não paga imposto.
O juiz julgou e condenou. Houve recurso. A defesa, entre outros argumentos, alegou a imparcialidade do juiz. Nada foi acatado pelo Tribunal Recursal, que em suma firmou: “Ao tratar do mérito, o relator disse entender que provas indiretas e indícios são válidas se houver convergência entre os elementos de prova.” Por fim, o Tribunal confirmou a sentença e aumentou a pena. Teria havido um erro judicial?
O presidente foi encarcerado, bem como a corja que o acompanhava.
Expediente pra cá, recurso pra lá, falcatruas jurídicas — e um desembargador federal de plantão na madrugada acatou um pedido de habeas corpus, e o ex-presidente ganhou liberdade. Como diz o ditado: onde passa um boi passa uma boiada. Não demorou e todos os envolvidos ganharam liberdade, até que um ministro entendeu por bem anular o processo. Foi o fim da Lava Jato.
As gastanças e desvios tomaram corpo e, como disse alguém, voltaram à cena do crime.
Está aí a CPI do Crime Organizado e do INSS. Para coroar a patifaria, vem o escândalo do Banco Master. Pelo que se apresenta, não se salva ninguém. Membros dos três poderes atolados no escândalo.
E o povo, já acostumado com a roubalheira, pouco faz — por estar entediado de fazer protestos que não dão em nada.

Para justificar o título, lembro que no período colonial, a nobreza e a burguesia comiam caviar e jogavam pela janela as fezes coletadas nos penicos. Usavam perfumes para disfarçar a sovaqueira. Tudo isso deixava o povo enfezado.
Atualmente, no Brasil independente, os palácios sequer têm janelas. Apenas portas, saídas subterrâneas e exaustores para sugar a fedentina. Quanto ao povo — continua enfezado, ou seja, suportando o fedor da merda palaciana.
Pra finalizar, nas palavras de Martin Luther King Jr.:
“Pessoas oprimidas não podem permanecer oprimidas para sempre. O anseio pela liberdade eventualmente se manifesta.”
E Maquiavel, sempre atual:
“O primeiro método para avaliar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta.”
“Tornamo-nos odiados tanto fazendo o bem como fazendo o mal.”
Os donos do poder traçam metas e as realizam, salvo percalços insuperáveis.
Enfim — quem sou eu para discutir sobre quem traça metas objetivando o bem-estar social e o progresso da nação?
19/03/2026
A Saga dos Cacaieiros
Saco nas costas, espingarda a tiracolo e foice na mão: o retrato vivo do pioneiro de Rondônia.
Saco nas costas, espingarda a tiracolo e foice na mão. Essa é a expressão que define o cacaieiro — o verdadeiro desbravador das matas de Rondônia. Não era só uma forma de trabalhar, era o uniforme de quem ia pra mata enfrentar o desconhecido.
A mata não era pra amadores. O cacaieiro entrava com o essencial para a sobrevivência e para a lida, enfrentando o mato fechado, a incerteza e a força bruta da natureza. Cada passo era uma conquista, cada roça aberta, uma vitória contra o tempo e o isolamento.

Os Heróis Anônimos
Milhares de pessoas abriam clareiás na mata, alojando suas famílias em barracos e davam início às lavouras de arroz, feijão, café e pastagens. Esses heróis anônimos se embrenhavam na floresta em grupos de até dez pessoas carregando ferramentas, utensílios de primeira necessidade, foice, fação, espingarda e cartuchos carregados. Na mochila: sal, açúcar, café e farinha para os dias na mata.
Ganharam o apelido de cacaieiros, porque na verdade o que carregavam eram cacos, como panela velha, rede para dormir, sal, açúcar, café e farinha, e até cachaça da boa.
É uma honra registrar essa parte da história, seu Adi. O senhor sempre diz que “o que não se escreve, o vento leva”, e esse povo que carregou o progresso nas costas merece ter sua saga preservada nos nossos alfarrábios.
19/03/2026
Prefácio e Intróito: Eita Lasqueira
Prolegômenos para os meus alfarrábios — onde explico por que resolvi rabiscar essas memórias.
PREFÁCIO — INTROITO OU PROLEGÔMENOS
Com estes alfarrábios me proponho colocar à disposição dos incautos leitores algumas “coisas” que fui digitando ao longo da vida. Melhor dizendo, a partir do momento em que me senti inútil para a sociedade. Além de lavar pratos e eventualmente, pilotar um fogão, pouca coisa sobrou para este vivente.
Reuniões de confraria para alguma reflexão, já que não há mais estratégias ou planos para o futuro. Está tudo consumado.
Não pretendo realizar mais nada. Diz o velho ditado que o homem deve na vida plantar uma árvore, ter filhos e escrever um livro. Rabugices a parte, família sempre foi o mote de viver. Desde o ano de 1950. Melhor dizendo desde 1960, quando com dez anos, comecei a tomar ciência da realidade de vida. Disciplina, trabalho e amigos. Aos 75 anos vejo que dessas três coisas, ainda resta alguns amigos. Amizades são decorrentes do trabalho. Quem nada faz não merece ter amigos. Assim, com eles convivo, na certeza de ter feito o que deveria ser feito. E valeu o esforço e a disciplina.
Saindo do fundo da grota, aos trancos e barrancos fui daqui e ali e aportei em Rondônia. Aqui constitui família e fiz amigos. Aqui participei da construção de um Estado e de cidades. A densa floresta transformou-se em terra de riquezas e bom ambiente para viver.
Sobre tudo isso digo alguma coisa. Não se trata de uma biografia, mas de temas espaços que acabam por revelar momentos do passado. De início denominei esta obra de “Passa Tempo”, mas depois percebendo que se trata de uma mistureba, denominei “EITA LASQUEIRA”.
Está prefaciado ou queriam que eu falasse de coisas que possa comprometer meu passado probo e impoluto?
PUBLICO OU NÃO PUBLICO — EIS A QUESTÃO
Vivo a escrevinhar coisas. Um montão, que até dá para publicar um livro. A questão é publicar pra que? — Seria uma temeridade fazer uma publicação na esperança de que alguém venha ler ou comprar. Bancar os custos e fazer distribuição gratuita seria uma boa opção. Presentear os amigos e vê-los recebendo-o com ares de paisagem. — Você que escreveu? — Sim eu mesmo. — Interessante. E, vai o livro para a estante.
Há uma pesquisa que diz que o brasileiro lê cerca de quatro livros por ano, enquanto o canadense lê cerca de 12. Acredito que esses dados não são do IBGE. Até mesmo porque no último censo ninguém me perguntou sobre isso.
Mas eu tenho um sonho. “I Have a Dream”.
A dúvida Shakespeareana permanece insolúvel. Desta feita, tudo é uma questão de coragem. “Alea jacta est”. O bom de tudo isso é que existem editoras que se propõem a publicar, assumindo os encargos de organização como: folha de rosto, competindo ao autor evidentemente a dedicatória, agradecimentos, prefácio e os elementos textuais, restando combinar a Capa e o preço. É questão de coragem ou de atrevimento.
Para decidir sobre a tiragem consultei Osvaldo Montenegro e fiz a lista de amigos de dez anos atrás. Lamento, mas a editora não fará uma grande tiragem.
Caso o amigo e bom camarada leitor tenha lido esta parte, recomendo ler tudo o que mais consta dos autos e assim poder fazer um arrazoado, tecer comentários e dar aquele LAIKE que nos enche de satisfação.
Agora se uns míseros cruzeiros lhe fazem falta a ponto de regatear o preço ou simplesmente achar que é caro, lamento, mas o leitor terá que mudar de emprego, abrir um quiosque na praça e vender cachorro-quente. A propósito, o preço sugerido é R$ 100,00, no PIX ou no cartão em até três vezes.
DEDICAÇÃO E APRESENTAÇÃO
Dedico a quem escreveu, portanto a mim mesmo. Outra pessoa não merece tamanha desfaçatez.
Não que a presente seja um impropério, porém ninguém mais que eu dispensaria horas e horas rabiscando, apagando e reescrevendo até que ficasse do meu gosto. Outros poderão gostar, coisa que duvido. Prefiro não correr o risco de dedicar o presente cartapácio a alguém e depois saber que sequer leu. Já não se faz mais leitores como antigamente. Leitor voraz daqueles que começavam logo após o jantar e só largavam na madrugada. Também pudera, as mensagens de whatsapp ou de outras mídias são muito mais interessantes. “Oi amigo, não visualizei porque estava lendo um livro…kkk”. É ruim!? Só por isso não me atrevo a fazer uma dedicação.
Caso leiam, dediquem seu tempo a este que, além do tempo, perdeu dinheiro. “Time is Money” — Não perdi meu tempo, talvez algum dinheiro. Quem faz de graça? Revisão, diagramação e impressão? Quando eu partir, não lhes deixarei dinheiro, apenas estes rabiscos. Então dirão: Tão gente fina que era. Que Deus o tenha. Haja paciência. Cá comigo, eu mereço.
Antes que eu esqueça: Vão se lascar!
Apresentação: Desse Jeito
Nasci tosco, assim desse jeito. Humano, com muitos defeitos. Cresci, perambulei, fiz andanças, Tive peleias, por vezes nada mansas. Seguindo o rito, dei o primeiro passo. Maço, cinzel, esquadro e compasso. Olhos vendados e peito descoberto, Fui conduzido pelo primeiro esperto No silêncio da câmara de reflexão; O derradeiro testamento foi feito. Ainda vedado, ocorreu a iniciação. Após jurar, dobrando o joelho direito Foi me dada a luz e conheci os irmãos. Fiquei em pé à ordem. Assim, desse jeito!
Acrescento que nasci no Rio Grande do Sul, município de Barão de Cotegipe, lá na roça, no topo de uma colina, onde era possível vislumbrar alguma coisa no horizonte. Disseram-me que era a torre de uma igreja. Tudo se deu a partir de 8 de fevereiro de 1950 até meados de 1956, quando papai resolveu se mudar para o Paraná. Dali para frente o leitor saberá o que aconteceu, lendo este cartapácio. Que Deus te ajude e me resguarde dos impropérios.
Daquele marco zero, setenta e cinco anos se foram e no limiar dessa jornada, decidi registrar um “mínimo minimorum”, inclusive para dizer que tive algumas aulas de latim, além das decorebas das orações. “Agnus Dei qui tollis peccata mundi”.
O soneto supra pode parecer obscuro e enigmático, porém muitos saberão que é assim desse jeito.
NOTA EXPLICATIVA
Se por acaso alguém, completamente desocupado, vier tomar conhecimento do presente, saiba desde já e para todos os fins, que não se trata de um trabalho literário, acadêmico, ficção, proposta herética, homofóbica ou qualquer coisa semelhante. Muito pelo contrário, não há aqui proposta alguma.
Uma proposta deve estar embasada, estruturada e ser factível. Aqui não haverá nada disso. Até mesmo porque após a invenção da rede e da roda pouca coisa sobrou. A partir de então a humanidade passou a viver cada vez mais enrolada. A roda procura dar velocidade enquanto a rede só atrapalha.
O primeiro rascunho intitulava-se PASSA TEMPO. — O tempo passou e mudei de ideia. Preferi o título “EITA LASQUEIRA”, por ser essa uma expressão popular para dizer que está tudo confuso, junto e misturado. É o caso. Tá tudo junto e misturado. Falo de mim mesmo, de causos de antanho e histórias mal contadas e outras com lampejo de seriedade.
Já é público e notório que quem conta um conto, aumenta um ponto, sempre puxando o braseiro para o seu assando. Aqui sirvo cru, ou simplesmente sapecado. Não é restaurante gourmet onde a comida é feita de forma criteriosa, com produtos de qualidade, perfeitamente preparada e artisticamente apresentada.
Posso ser interpretado como useiro e vezeiro, mas não mal-intencionado. A intenção é boa, muito embora maldosos digam que delas o inferno está cheio. (infernus plenus est.)
“Aforante” isso, fica patente que a presente “obra” é totalmente despretensiosa, porém tão necessária quanto à patente. — Fui claro ou tenho que desenhar?
Na verdade, a presente nota explicativa não tem nada a explicar. No universo existem coisas inexplicáveis. Por exemplo, quem arranjou papel para Moisés escrever o Pentateuco? — Isso não impede que alguém conte, reconte e outro registre como verdadeiro. Tudo é um conto, com o devido desconto.
Finalmente, e enquanto mexo o doce no tacho, conto de mim, e de “patacoadas”. Ler ou não ler. Eis a questão.
Por falar nisso, Shakespeare escreveu tragédias e nem por isso a humanidade ficou melhor ou pior. — Freud explica.
(Lucas 12): “26. Considerando que vós não podeis fazer nada em relação às pequenas coisas da vida, porque vos preocupais com todas as outras? 28. Ora, se Deus veste assim uma simples erva do campo, que hoje vive e amanhã é lançada ao fogo, muito mais dará a vós, vestindo-vos de glória, homens fracos na fé.”
Isto posto, e tudo bem explicadinho, vamos ao miolo. Quer dizer; ainda não, porque vou falar da finalidade.
Finalidade
O tempo é mensurável, por ser matéria. À despeito de Aristóteles ter dito que o tempo não poderia existir, já que nenhuma das suas partes existe. Pergunto: - Quais seriam as partes do tempo? Começo, meio e fim? Possivelmente nem parte tenha. Não existe uma parte de tempo. Ele é simplesmente infinito. Tão eterno quanto Deus. Dele tudo podemos fruir sem mesmo haver prova da sua existência.
No meu pensar, o tempo é concreto, tem utilidade e deixa marcas. É nome próprio e tem sobrenomes: passado, presente e futuro. Tem qualificativos: bom, feio, útil e perdido. Nele podemos nos encontrar ou nos perder. Enfim, o tempo é bom. Ruim seria se não existisse.
A FINALIDADE é sorver o tempo. Lentamente, percebendo os seus sabores e cheiros. Fazer da vida o “dolce far niente”. Sempre tive o desejo de escrever um opúsculo qualquer, contudo, só o desejo não basta. Tem que haver uma finalidade ou uma necessidade. Quanto a isto, questiono: - Necessário pra quem? - Afinal existem milhares de livros, jamais lidos e outros tantos escondidos. O que seria da humanidade se não existissem os livros? Há quem passe a vida escrevendo um único livro, e outros querendo entender o conteúdo, ou simplesmente não sabendo do que trata.
Preocupa-se o homem em dizer do acontecido, o que é e o que pode ser. Todos cheios de boas intenções e boas razões. Possivelmente quem mais sabia nada escreveu. Tal como Sócrates e Jesus, se é que disseram alguma coisa.
Sim, de Sócrates, falou Platão e Jesus, nem Deus sabe, porque dele só tem os disque-disque dos evangelhos. Está aí uma coisa que nem Deus sabe, quanto menos quem é seu filho. Não há, no entanto, como negar que tenham mudado o pensamento da humanidade.
Por certo a finalidade não é mudar a humanidade. Pretendo apenas usufruir o tempo. Mas há um dilema nisso tudo. Esse dilema me remete ao mestre de direito, Haroldo Valadão, que do alto de seus oitenta anos, na VII Conferência da Ordem dos Advogados do Brasil, em 1978 na UFPR, enquanto juristas de renome expunham suas pretensiosas teses nas salas de conferências, ele, nos corredores daquele edifício lindo por fora e tosco por dentro, aconselhou os jovens gazeteiros que perambulavam pelos corredores: “Não percam tempo fazendo hoje aquilo que pode ser feito amanhã, porque amanhã poderá não ser necessário”. – Assim, faço apenas pela minha necessidade.
No futuro poderá haver alguém com necessidade de ler. Que leiam. Leia quem quiser e se puder compartilhe, deixe seu “like”. Se tenho inimigos não sei e tão pouco pretendo criar algum por conta deste cartapácio. Mas uma coisa eu lhes garanto: Não é Fake News, ou desinformação que atenta contra ao Estado Democrático e de Direito. O “pancrácio Xandão” arrumou muitos inimigos por conta dessa tese atabalhoada que ficará por muito tempo encrustada na mente dos patriotas.
Também não escrevo sob pressão de uma Delação Premiada. Resta-me, no entanto, a vã expectativa de ser anistiado pelos meus crimes não cometidos. De qualquer forma, data vênia, me declaro inocente perante ao impoluto Poder Julgador.
Caso não gostem, paciência. Tem quem gosta de coisas menos interessantes. Nesse caso, vão plantar batatas, visto que foram elas que efetivamente já salvaram a humanidade. A despeito disso recomendo que plantem mandioca, aipim, macaxeira, maniva, que é tudo a mesma coisa, a legítima cultura tupiniquim. Não por acaso, a mandioca foi solenemente saudada pela presidenta do Brasil: “Então, aqui, hoje, eu estou saudando a mandioca”.
Machado de Assis disse: “Ao vencedor as batatas”. Tivesse se ocupado com a cultura tupiniquim ao invés do humanismo, teria dito: “Ao vencedor a mandioca”.
Segundo o Google, Machado de Assis com a frase “Ao vencedor, as batatas”, no romance Quincas Borba, é uma metáfora que ironiza a filosofia do “Humanismo”, defendida pelo personagem Quincas Borba. Está patente que na luta pela sobrevivência, quem vence tem direito aos despojos, mesmo que seja um simples balaio de mandioca.
Agradecimentos
Agradeço primeiro a quem Orientou os meus passos, Abrandou minhas dores, Estimulou os meus atos E no chão semeou flores. Agradeço a quem me deu e carinho, Razão para lutar e viver. A quem iluminou meu caminho Dando-me esperança e saber. Aos pais, irmãos esposa e filhos; Aos amigos que já não lembro. A todos que me prestaram auxilio Mestres, vizinhos e parceiros; Extensão dos meus braços. Todos, do último ao primeiro. Aqui digo: Sou deveras grato!
“Agradeço a meu Deus toda vez que me lembro de vocês” (Filipenses 1.3).
Agradecimento Especial
Às vezes rabisco algumas linhas as quais podem ser entendidas como crônicas. No momento meu desejo é escrever algo que não seja um simples relato descompromissado. Desejo fazer uma manifestação de agradecimento.
De repente aos 65 anos o médico me diz que meu coração estava debilitado e a solução seria a substituição de válvula. Eu?…que me achava cepo de aroeira, cerne puro?… Foi um baque de 7 X 1. Aquela coisa que te deixa mudo, de garganta seca e olhos lacrimosos.
Encarar os fatos. A vida é viver. Trajetórias de altos e baixos, onde os desejos e as paixões se entrelaçam. Este foi um momento baixo, um momento confuso e tenso, mas, só um momento. Não seria eu o primeiro nem o último. — Se é pra ser, assim será. Não valeria a pena aqui discorrer sobre detalhes. Buscados os caminhos, correndo e batendo cabeça, em 30 dias a válvula mitral foi substituída.
Segundo disseram uma válvula biológica vinda da Alemanha, onde suínos são criados especificamente para isso.
“A insuficiência mitral, também chamada de regurgitação mitral, acontece quando existe um defeito na válvula mitral que é uma estrutura do coração que separa o átrio esquerdo do ventrículo esquerdo. Quando isso acontece, a válvula mitral não fecha totalmente, fazendo com que um pequeno volume de sangue retorne para os pulmões ao invés de sair do coração para irrigar o corpo”.
Fui reabilitado com limitações. Cito o verso do poeta gaúcho: “Palanque que não timbra; porque o tempo enraizou” - Se é porque Deus assim quer assim tem que ser.
Todavia, o carinho e atenção das pessoas fazem a diferença. — O coquetel de comprimidos com certeza estabiliza e tonifica, no entanto, o ingrediente da vida vem do amor dos familiares, esposa, filhos, noras, genro, irmãos, cunhadas, sobrinhos, netos e do apoio dos amigos e dedicação dos profissionais - Aquela sensação de incerteza deixa de existir e a vida continuou com seus altos e baixos.
Desta feita, agradeço aos profissionais da saúde, aos familiares, aos velhos amigos e novos que tive a graça de encontrar nesta jornada.
Sou muito grato ao cirurgião Dr. José Augusto Moutinho, de Curitiba pelo seu profissionalismo, competência e simplicidade o qual me encaminhou ao Hospital Angelina Caron onde realizou a cirurgia. Creio que não considerará ofensivo incluí-lo no meu seleto grupo de amigos. Passado algum tempo disseram-me que ainda não estava tudo cem por cento. A válvula funcionava, porem com disfunção grave. A recomendação foi a instalação de um Marcapasso, CDI tricúspide. Afora os atropelos, a ponto de internação na UTI, tudo pareceu ser fácil visto que estava em hospital público, em Porto Velho onde o problema seria resolvido. De fato, foi, porém permanecendo em uma fila de espera, até que o Estado providenciasse a aquisição do aparelho, e diga de passagem, custou mais de cem mil reais. Vencida esta parte tive que aguardar mais alguns dias até que fosse regularizada a contração o médico especialista. No caso o Médico foi o Dr. Marcos Rosa e ao que me consta é profissional altamente qualificado.
Ao todo 72 dias. Estar internado por tanto tempo é desgastante em que pese o profissionalismo e atenção da equipe técnica, médicos, enfermeiras auxiliar de enfermagem e zeladoras.
Tudo foi menos traumático, graças o acompanhamento contante, da minha esposa Valdete. O hospital exige acompanhamento, porém não oferece qualquer conforto ao acompanhante. Foi necessário improvisar. Um colchão estendido no chão e camuflado durante o dia. Era mais ou menos assim, não pode, mas faz de conta que eu não vi. Essa parte pode-se dizer que é desumano. Ali fiz amizade com muitos. Uns partiram para o Oriente Eterno e outros que retornaram felizes para seus lares.
Tudo melhorou, porem máquina é máquina e nada substitui o órgão natural. Periodicamente as revisões devem ser feitas. A vida passa a ser limitada. Ora uma tontura seguida de cansaço, ora sentido o marca passo fazer o seu trabalho.
O progresso tecnológico faz parte do plano de Deus. “Honra ao médico, porque ele é necessário, pois foi o Altíssimo que o criou”. (Eclesiástico 38.1) Foi Deus quem fez vocês.
NOTA EXPLICATIVA
Se por acaso alguém, completamente desocupado, vier tomar conhecimento do presente, saiba desde já e para todos os fins, que não se trata de um trabalho literário, acadêmico, ficção, proposta herética, homofóbica ou qualquer coisa semelhante. Muito pelo contrário, não há aqui proposta alguma.
Uma proposta deve estar embasada, estruturada e ser factível. Aqui não haverá nada disso. Até mesmo porque após a invenção da rede e da roda pouca coisa sobrou. A partir de então a humanidade passou a viver cada vez mais enrolada. A roda procura dar velocidade enquanto a rede só atrapalha.
O primeiro rascunho intitulava-se PASSA TEMPO. — O tempo passou e mudei de ideia. Preferi o título “EITA LASQUEIRA”, por ser essa uma expressão popular para dizer que está tudo confuso, junto e misturado. É o caso. Tá tudo junto e misturado. Falo de mim mesmo, de causos de antanho e histórias mal contadas e outras com lampejo de seriedade.
Já é público e notório que quem conta um conto, aumenta um ponto, sempre puxando o braseiro para o seu assando. Aqui sirvo cru, ou simplesmente sapecado. Não é restaurante gourmet onde a comida é feita de forma criteriosa, com produtos de qualidade, perfeitamente preparada e artisticamente apresentada.
Posso ser interpretado como useiro e vezeiro, mas não mal-intencionado. A intenção é boa, muito embora maldosos digam que delas o inferno está cheio. (infernus plenus est.)
“Aforante” isso, fica patente que a presente “obra” é totalmente despretensiosa, porém tão necessária quanto à patente. — Fui claro ou tenho que desenhar?
Na verdade, a presente nota explicativa não tem nada a explicar. No universo existem coisas inexplicáveis. Por exemplo, quem arranjou papel para Moisés escrever o Pentateuco? — Isso não impede que alguém conte, reconte e outro registre como verdadeiro. Tudo é um conto, com o devido desconto.
Finalmente, e enquanto mexo o doce no tacho, conto de mim, e de “patacoadas”. Ler ou não ler. Eis a questão.
Por falar nisso, Shakespeare escreveu tragédias e nem por isso a humanidade ficou melhor ou pior. — Freud explica.
(Lucas 12): “26. Considerando que vós não podeis fazer nada em relação às pequenas coisas da vida, porque vos preocupais com todas as outras? 28. Ora, se Deus veste assim uma simples erva do campo, que hoje vive e amanhã é lançada ao fogo, muito mais dará a vós, vestindo-vos de glória, homens fracos na fé.”
Isto posto, e tudo bem explicadinho, vamos ao miolo. Quer dizer; ainda não, porque vou falar da finalidade.
Finalidade
O tempo é mensurável, por ser matéria. À despeito de Aristóteles ter dito que o tempo não poderia existir, já que nenhuma das suas partes existe. Pergunto: - Quais seriam as partes do tempo? Começo, meio e fim? Possivelmente nem parte tenha. Não existe uma parte de tempo. Ele é simplesmente infinito. Tão eterno quanto Deus. Dele tudo podemos fruir sem mesmo haver prova da sua existência.
No meu pensar, o tempo é concreto, tem utilidade e deixa marcas. É nome próprio e tem sobrenomes: passado, presente e futuro. Tem qualificativos: bom, feio, útil e perdido. Nele podemos nos encontrar ou nos perder. Enfim, o tempo é bom. Ruim seria se não existisse.
A FINALIDADE é sorver o tempo. Lentamente, percebendo os seus sabores e cheiros. Fazer da vida o “dolce far niente”. Sempre tive o desejo de escrever um opúsculo qualquer, contudo, só o desejo não basta. Tem que haver uma finalidade ou uma necessidade. Quanto a isto, questiono: - Necessário pra quem? - Afinal existem milhares de livros, jamais lidos e outros tantos escondidos. O que seria da humanidade se não existissem os livros? Há quem passe a vida escrevendo um único livro, e outros querendo entender o conteúdo, ou simplesmente não sabendo do que trata.
Preocupa-se o homem em dizer do acontecido, o que é e o que pode ser. Todos cheios de boas intenções e boas razões. Possivelmente quem mais sabia nada escreveu. Tal como Sócrates e Jesus, se é que disseram alguma coisa.
Sim, de Sócrates, falou Platão e Jesus, nem Deus sabe, porque dele só tem os disque-disque dos evangelhos. Está aí uma coisa que nem Deus sabe, quanto menos quem é seu filho. Não há, no entanto, como negar que tenham mudado o pensamento da humanidade.
Por certo a finalidade não é mudar a humanidade. Pretendo apenas usufruir o tempo. Mas há um dilema nisso tudo. Esse dilema me remete ao mestre de direito, Haroldo Valadão, que do alto de seus oitenta anos, na VII Conferência da Ordem dos Advogados do Brasil, em 1978 na UFPR, enquanto juristas de renome expunham suas pretensiosas teses nas salas de conferências, ele, nos corredores daquele edifício lindo por fora e tosco por dentro, aconselhou os jovens gazeteiros que perambulavam pelos corredores: “Não percam tempo fazendo hoje aquilo que pode ser feito amanhã, porque amanhã poderá não ser necessário”. – Assim, faço apenas pela minha necessidade.
No futuro poderá haver alguém com necessidade de ler. Que leiam. Leia quem quiser e se puder compartilhe, deixe seu “like”. Se tenho inimigos não sei e tão pouco pretendo criar algum por conta deste cartapácio. Mas uma coisa eu lhes garanto: Não é Fake News, ou desinformação que atenta contra ao Estado Democrático e de Direito. O “pancrácio Xandão” arrumou muitos inimigos por conta dessa tese atabalhoada que ficará por muito tempo encrustada na mente dos patriotas.
Também não escrevo sob pressão de uma Delação Premiada. Resta-me, no entanto, a vã expectativa de ser anistiado pelos meus crimes não cometidos. De qualquer forma, data vênia, me declaro inocente perante ao impoluto Poder Julgador.
Caso não gostem, paciência. Tem quem gosta de coisas menos interessantes. Nesse caso, vão plantar batatas, visto que foram elas que efetivamente já salvaram a humanidade. A despeito disso recomendo que plantem mandioca, aipim, macaxeira, maniva, que é tudo a mesma coisa, a legítima cultura tupiniquim. Não por acaso, a mandioca foi solenemente saudada pela presidenta do Brasil: “Então, aqui, hoje, eu estou saudando a mandioca”.
Machado de Assis disse: “Ao vencedor as batatas”. Tivesse se ocupado com a cultura tupiniquim ao invés do humanismo, teria dito: “Ao vencedor a mandioca”.
Segundo o Google, Machado de Assis com a frase “Ao vencedor, as batatas”, no romance Quincas Borba, é uma metáfora que ironiza a filosofia do “Humanismo”, defendida pelo personagem Quincas Borba. Está patente que na luta pela sobrevivência, quem vence tem direito aos despojos, mesmo que seja um simples balaio de mandioca.
29/03/2026
A OAB-RO e a Advocacia Pioneira em Rolim de Moura
O causo de como a advocacia chegou nas bandas de Rolim de Moura, nos primórdios de Rondônia
Meus amigos, a memória é que nem aqueles caminhos de chão batido no interior: às vezes a poeira baixa, a brisa sopra mansa e a gente enxerga longe. O olhar atravessa os anos e alcança o passado, justo naquela época em que as coisas ainda tavam se formando na lida e no suor, a casco de cavalo e na força bruta. Quero puxar aqui um causo, desatar esse nó da garganta e contar de quando a advocacia em Rondônia ainda era mato, literal e figurativamente.
A gente fala hoje do Estado de Rondônia com toda a pompa e circunstância. Mas quem é daquela época — a gente que amassou o barro e tomou poeira — sabe muito bem como era o tranco. No começo dos anos 80, antes até de virar Estado de fato, ali pelo finzinho de 1981, as coisas no então Território Federal de Rondônia não eram pra qualquer um não. A peleia era grande, meus senhores, a encrenca era mato grosso adentro.
Lá pra banda de 1974, pra ser exato no dia 18 de fevereiro, fincaram os pilares da Ordem dos Advogados do Brasil, a nossa OAB-RO. Gente do quilate do Dr. Fouad Darwich Zacharias e do colega Francisco Arquilau de Paula — o dono da carteira número 01, veja só! — botou o peito na frente, empunhou a bandeira e foi organizar a classe lá em Porto Velho. Lá, com todo respeito aos companheiros, a prosa já tinha uns contornos mais arrumados, um cheiro de tribunal, um assoalho mais liso e de gabinete.
Mas e pra quem se meteu pro interior, pra essas bandas da Zona da Mata? Ah, meu amigo, aí o causo era bem outro. A lei chegava montada no lombo da precisão.
Eu, na condição de primeiro advogado de Rolim de Moura, cheguei justo quando a coisa toda tava fervendo, parecia panela no fogo de lenha. O Projeto de Colonização, desenhado lá por 1979, largou aquele mundaréu de famílias que vieram espremidas lá do Ji-Paraná pra abrir clareira. Era gente com esperança no peito, foice e machado na mão, rasgando o mato pra construir a vida. A emancipação de Cacoal, pra se ter ideia, só veio ali em agosto de 1983. E no meio daquela muvuca de gente chegando, de picada nova sendo aberta na floresta, de rancho de pau a pique sendo erguido em cada curva de rio e de colono disputando cada palmo de terra com unhas e dentes, adivinha quem tava no meio do tiroteio? E o tiroteio, muitas vezes, não era nem no sentido figurado. Era tiro mesmo. E lá tava o advogado.
Pra nós, que fincamos o pé no eixo de Rolim de Moura, as “distâncias amazônicas” não eram força de expressão bonita pra botar em livro. Era chão mesmo. O sujeito vestia o terno e a gravata e ia amassar barro. No tempo da seca, que castigava sem dó, era uma poeira que não tinha fim. Subia aquele poeirão que entupia até os pensamentos, deixava a gente com a vista cega e a garganta seca. Mas quando caíam as águas da chuva, meu Deus do céu… a lama virava um atoleiro que engolia jipe, caminhonete, e se duvidar, engolia até cavalo destreinado. As comarcas eram longe que só o diabo, não tinha luz elétrica direito, não tinha telefone que prestasse, muito menos asfalto pra gente se deslocar com decência.
Ser advogado nessas bandas não era ficar despachando em gabinete refrigerado, com ar-condicionado e secretária servindo café. Não, senhor. Era mediação de conflito fundiário bruto, era o colono de mãos calejadas brigando pelo lote de terra dele pra não perder o sustento da família. A lei, meus amigos, a gente levava na garupa. Era o código embaixo do braço e a coragem no peito. Cada petição assinada, cada audiência feita naquelas “linhas” poeirentas ou nas vilinhas enlameadas, era um jeito teimoso de puxar a civilização e a justiça pro meio da floresta. E era quase no braço. A gente tinha que ser advogado, diplomata, psicólogo e, de vez em quando, meio que pacificador de ânimos mais quentes.
A gente suava muito o terno. A poeira manchava o pano, a lama sujava o sapato, e a distância cansava o corpo. Mas no fim do dia, a satisfação de ajudar a firmar o direito do trabalhador, de ver o caboclo garantir seu teto e de ver uma cidade inteira nascer do chão, pujante e teimosa, isso não tinha preço. Foram tempos brutos, de uma resiliência quase heroica que a gente nem sabia que tinha, mas que forjaram o caráter inquebrantável dessa nossa Rondônia véia de guerra. De Porto Velho até a nossa trincheira na Zona da Mata, ajudamos a erguer os pilares da justiça por aqui, cada um botando a sua pedrinha nesse alicerce.
E é isso. O tempo passa, a poeira assenta e o asfalto chega. A saudade bate, vez por outra, lembrando daqueles dias de poeira e barro. Mas o orgulho de ter sido parte desse começo, de ser o primeiro a bater o martelo e o papel por aqui em Rolim, de ver o direito florescer na beira da mata… ah, esse orgulho, meu amigo, o tempo não apaga de jeito nenhum. Fica guardado a sete chaves na memória, pra gente contar pros netos e pra quem mais quiser prosear.
29/03/2026
O Voo da TABA: quando eu troquei o Sul pela Amazônia
O dia em que deixei Curitiba num C-46 rumo a Rondônia no inverno amazônico.
Aquele dia nove de março de 1981 ficou gravado na minha memória com o som de dois motores radiais roncando feito bicho brabo. Eu estava ali, ajeitado na poltrona do bimotorzão C-46 da TABA, sentindo o trepidar da lataria entrar pelos ossos e avisar que não tinha mais volta. Quando aquela máquina valente descolou as rodas do chão e o nariz apontou pras nuvens, espiei pela janelinha e vi Curitiba ficando pequenininha lá embaixo. Era o fim de um capítulo de 14 anos na capital paranaense e o começo de uma empreitada que ia definir o resto da minha vida.
Naquela época, a gente ouvia falar de Rondônia como se fosse a terra da promissão, um lugar onde a coragem valia mais que o dinheiro no bolso. Eu tinha botado na cabeça que a advocacia e a vida lá em Cacoal — a tal “Capital do Café” que atraía paranaense e gaúcho que nem abelha no mel — iam ser o meu destino. Mas, tchê, chegar lá não era pra qualquer um. A BR-364, que o pessoal chamava de estrada, era, na verdade, um corredor de barro vermelho. E a gente estava em pleno março! Época do “inverno amazônico”, tempo das águas. A rodovia de Cuiabá a Porto Velho ainda não tinha visto um pingo de asfalto, o que transformava o caminho num atoleiro medonho. Quem se aventurava por terra corria o risco de ficar semanas encalhado, comendo poeira quando secava e amassando barro quando chovia.
A solução era cruzar os ares. A TABA — Transportes Aéreos da Bacia Amazônica — era a salvação de quem precisava desbravar o Norte. Eles operavam aqueles velhos C-46 Curtiss Commando, uns aviões robustos de fuselagem gordinha que tinham carregado soldado e carga na Segunda Guerra. Pareciam uns tratorzões com asas, rústicos, sem frescura de luxo, mas aguentavam o tranco de pousar em pista de terra no meio da floresta. Era o transporte ideal pra uma terra bruta que ainda estava sendo domada na unha e no facão.
Durante o voo, o barulho ensurdecedor dos motores não deixava muita margem pra prosa, então a cabeça viajava mais rápido que o avião. Eu olhava as nuvens e pensava na família, no escritório que eu deixava pra trás, no que me esperava no meio daquela imensidão verde que ia engolindo a paisagem conforme a gente avançava pro Norte. Era uma mistura de medo com uma esperança teimosa, uma vontade de fazer a vida valer a pena, daquelas que só o imigrante conhece.
Quando o trem de pouso tocou o solo rondoniense, levantando poeira e sacudindo a gente nos assentos, eu soube que tinha chegado em casa, mesmo sem ter ainda um teto direito. O calor úmido que invadiu a cabine quando a porta abriu era como um abraço apertado e suado da Amazônia, me dando as boas-vindas. Ali eu plantei as minhas raízes, e hoje, aos 76 anos de idade, olho pra trás e agradeço por cada solavanco daquele C-46. Foram eles que me trouxeram pra essa terra boa, cheia de causos e de gente peleadora. E, olha, se precisasse, eu faria tudo de novo, encarando o ronco daquele motor sem pestanejar.
30/03/2026
Páscoa na Terra Vermelha
A primeira Páscoa em Rondônia, em 1981 — fé, barro e esperança no começo de tudo
A primeira vez que a gente viu aquele barro vermelho de Rondônia, não sabia direito se era chão para plantar semente ou se era a própria seiva da terra sangrando debaixo do trator. Era o ano da graça de 1981, e o Brasil vivia empurrando o povo pra cima, pro Norte, pro meio do mato grosso e denso. A promessa era de terra farta, de um pedaço de chão que a gente pudesse chamar de nosso. Mas quem chega primeiro sabe: antes da colheita, vem o suor. E antes da estrada de asfalto, vem a lama que gruda até na alma.
Aquela Páscoa foi diferente de tudo que a gente conhecia lá no Sul. A gente estava acostumado com o friozinho chegando, com a família toda reunida ao redor de uma mesa grande, farta de comida quente, cuca, pão caseiro e aquele cheiro de carne assando que avisava que o domingo era sagrado. Aqui, a realidade era outra. O calor não dava trégua nem pra chover. E quando chovia, meu amigo… quando chovia, o mundo virava uma sopa de barro.
Lembro de um domingo de Páscoa que amanheceu com o céu carregado, um cinza pesado que prometia água pra mais de metro. A gente morava numa casa de madeira, erguida no muque, com as tábuas ainda cheirando a seiva fresca. O telhado, de brasilit, fazia um barulho ensurdecedor quando a chuva começava. E começou.
A igreja mais próxima, se é que dava pra chamar assim aquele galpão de madeira com uma cruz improvisada na frente, ficava a uns bons quilômetros de distância. Naquele tempo, ir pra missa no domingo de Páscoa era lei, não importava se o céu estivesse caindo. A gente se arrumou como deu. Colocamos a melhor roupa, que na verdade era a menos gasta, e saímos de casa.
O caminho era um desafio. A caminhonete patinava no barro vermelho, escorregando de um lado pro outro como um boi chucro na arena. Meu pai, com os braços firmes no volante, xingava baixinho em italiano pra não ofender o dia santo, mas a verdade é que até os anjos deviam estar com pena da gente.
Chegamos na igreja com as roupas respingadas de lama e o coração aliviado. O padre, um homem miúdo, mas com uma voz que parecia um trovão, já estava lá, ajeitando o altar improvisado sobre uma mesa de madeira tosca. A comunidade, um punhado de famílias que dividia a mesma coragem e o mesmo medo, foi se ajeitando nos bancos compridos.
Não tinha ostentação, não tinha coral afinado, não tinha órgão de tubos. Mas tinha uma fé que eu nunca vi igual. Uma fé que nascia da necessidade, da incerteza, da esperança de que aquele sacrifício todo valeria a pena.
Depois da missa, a tradição mandava reunir todo mundo. Como voltar pra casa era arriscado por conta da chuva que não parava, o jeito foi improvisar ali mesmo. O padre tinha conseguido, não sei como, (memória a confirmar) um pedaço de carne que parecia ter vindo de um boi que andou mais que a gente pra chegar ali. Alguém trouxe mandioca, outro trouxe um arroz meio solto, meio empapado, e assim se fez o banquete.
Sentados na varanda do galpão, olhando a chuva lavar a terra vermelha, a gente percebeu que a verdadeira Páscoa não estava nos ovos de chocolate que a gente nem viu naquele ano, nem na mesa farta que ficou na saudade. A Páscoa estava ali, na ressurreição da esperança, na força de uma comunidade que se apoiava na outra, no milagre de estarmos vivos e juntos num lugar onde tudo ainda estava por ser feito.
Anos depois, as estradas foram asfaltadas, as cidades cresceram, as casas de madeira deram lugar à alvenaria. Rondônia virou um estado forte, vibrante. Mas, para mim, a verdadeira essência daquele lugar ficou marcada naquele domingo de chuva e barro.
A terra vermelha tingiu não só nossas roupas, mas a nossa história. E toda vez que chega a Páscoa, não importa onde eu esteja, fecho os olhos e lembro daquele cheiro de chuva misturado com barro fresco, e da certeza de que, assim como a terra precisa ser revolvida para dar frutos, a vida também nos vira do avesso para que a gente possa renascer mais forte.